SIM, I LOVE SÃO PAULO

»Públicado por em jul 24, 2016 | 1 comentário

 

Demorou, mas afinal descobri:

São Paulo, sim, é a minha cara.

 Noite de autógrafos aos 17 anos em  Recife (acima)… E aos 73 anos (abaixo), finalmente em São Paulo.

Fotos: arquivo pessoal e Fco. Patrício

 

Sim, foi uma longa jornada desde que nasci a 7 de junho de 1943 (numa noite de tempestade, segundo minha mãe) até esta temporada de quinze dias que passei em plena Avenida Paulista, nesta cidade realmente maravilhosa que é São Paulo. Nestes 73 anos um turbilhão de venturas (muitas) e desventuras (algumas) me envolveu de tal modo que, quando me olho no espelho, levo o maior susto e pergunto: “quem é esse?” Pois não consigo acreditar que tanto tempo se passou, tanta coisa aconteceu… E, pior de tudo: eu envelheci.

Uma coisa que nunca tinha me acontecido afinal teve sua vez: a noite de autógrafos na capital paulista. Embora tenha publicado tantos livros que já não consigo mais contá-los nos dedos nunca tinha lançado nenhum deles por lá. Mas finalmente, graças ao empenho do pessoal da Companhia das Letras, isso ocorreu…

E em grande estilo. Nestes meus quinze dias paulistanos, não só por causa dos gentis representantes da editora, mas também por conta da equipe que foi comigo para administrar minha Master Class 4 e o Curso intensivo de atuação, eu me senti – sorry, my dear Elizabeth – a própria Rainha da Inglaterra… Sentimento fortalecido pelo fato de que vi, sob meu comando, um total de 77 criadores, entre roteiristas e atores, dispostos aos maiores sacrifícios para chegar aos píncaros de suas respectivas carreiras.

 

Foram quinze dias intensos, durante os quais dei tudo de mim aos alunos e, em troca, aprendi muito com eles. Uma das vantagens de ensinar é esta, meus caros professores do ensino público quase sempre em greve: é ensinando que a gente se aprende. Embora exerça minha profissão de novelista há trinta anos, toda vez que ministro uma dessas masters classes percebo que ainda tenho muito que aprender… E mais ainda com os jovens. Ah, essa tesão deles…

Não, queridos, sosseguem, não estou falando da tesão sexual, que essa eu dispenso, mas sim aquela que os leva a ter ambição e querer progredir a qualquer preço. Existe coisa mais saudável no ser humano do que a competitividade? Foi ela que nos trouxe até onde estamos hoje e é contra ela que se voltam os radicais que agora querem destruir nossa humanidade nos transformando em um bando de camelos.

Nestes quinze dias convivi com pessoas que estão destinadas a grandes feitos… E se não chegarem onde merecem será apenas porque o mundo nem sempre é justo.

E também, nestes quinze dias, me apaixonei por esta incrível cidade que é São Paulo. É irônico, porque, quando saí do Recife em 1964 sem eira nem beira era para lá que eu ia, até o avião fazer escala no Rio e eu decidir que ficaria aqui mesmo. Agora me pergunto: como teria sido esta minha puta de tão maravilhosa vida se eu tivesse prosseguido até o destino final da viagem? Como seria eu agora se em 1964 tivesse desembarcado em São Paulo?

Melhor não pensar nisso… Mas pensar, a partir de agora, numa outra possibilidade: como seria minha vida daqui pra frente se eu me mudasse para São Paulo?

 

E a vocês que, com a paciência do inseto 

que se move lentamente após o terremoto, 

me leram até aqui…

Não esqueçam de comparecer ao evento abaixo:

 

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ENCONTRAM-SE ATORES

»Públicado por em jul 24, 2016 | 0 comentário

 

O que foi o curso “O Ator e o Ato Criativo”, produzido pela Casa Aguinaldo Silva de Artes em São Paulo? Não preciso nem explicar – o vídeo abaixo diz tudo. Apenas acrescentarei que, sob o comando da mestra Júlia Carrera, e com a minha supervisão, durante três dias 36 atores paulistas deram tudo de si nas 12 horas de curso intensivo no Centro de Convenções do Blue Tree Avenida Paulista com uma garra e uma aplicação, para mim, poucas vezes vistas. Saí de lá com a certeza de que futuros grandes atores lá estavam… E aqui fico a torcer por todos eles, deixando também um aviso aos que não puderam fazer nosso curso: em breve voltaremos.

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MINHA (VERDADEIRA) LAPA

»Públicado por em jul 22, 2016 | 2 comentários

 

Sim, eu morei na Lapa, mas não nesta de agora, que é cenográfica e falsa, e sim na verdadeira, da década de 60, quando a malandragem ainda reinava por lá. Minhas memórias da Lapa estão em “Turno da Noite”, o livro que estou lançando agora, e mais ainda em “Lábios que Beijei”, outro livro que publiquei há alguns anos e pretendo reeditar ainda este ano. Como era minha vida nesta Lapa de todas as (des)aventuras? Dou uma palhinha no artigo aí embaixo, viajem comigo até lá.

Acima e abaixo, em 1966 no mirante do meu sobrado da Rua Visconde de Maranguape (que foi inteiramente derrubada): eu vivi e testemunhei os anos finais da verdadeira Lapa.

Minha primeira casa no Rio de Janeiro, onde cheguei em 1964, foi  um sobrado na Rua Moraes e Vale 36, na Lapa. Já então ele estava em decadência, hoje é quase uma ruína. Mas ainda está lá, servindo de moradia a pessoas que parecem ter saído de outras eras.

Lá fiquei três anos, até mudar para outro sobrado, na Rua Visconde de Maranguape. Este não existe mais, assim como a rua onde ficava. Junto com outras ruas, ela foi derrubada para dar lugar àquela praça enorme e vazia de sentido em torno dos Arcos da Lapa.

A demolição da rua em que morava coincidiu com minha prisão. Foi do sobrado da Visconde de Maranguape que saí para minha temporada de 70 dias no presídio da Ilha das Flores. Fui enviado para lá pela ditadura por causa de um texto polêmico que então publicara. Como já falei mais sobre isso do que o pudor me permite, não vou dar detalhes. Afinal, sempre acreditei em meu pai, quando ele dizia que, para um homem, seja por que motivo for, ser preso é a maior vergonha.

Quando saí da prisão a Lapa que eu conhecera e onde vivera não existia mais. Fora destruída, e com ela o estado de espírito – livre, debochado e atrevido – dos que a povoavam. Eu fui um deles enquanto pude. E embora minha vida tenha dado tantas e tantas voltas, até hoje me orgulho desta minha temporada no inferno/quer dizer: na Lapa.

As noites em que saí do sobrado da Moraes e Vale… Acendia uma vela e me benzia na porta da Igreja da Lapa, atravessava o Passeio Público e a então mágica Cinelândia e ia sentar numa das mesas do Bar Amarelinho… Lá, com meus amigos de então, ficávamos até o último chope da madrugada. O último não, sempre o penúltimo. Pois ainda havia aqueles que regavam o prato de moelas do Bar Tangará, uma obrigatória delícia gastronômica diária.

Tal como a Cinelândia, a rua Álvaro Alvim, onde ficava o bar Tangará, também era mágica. Lá tínhamos o Teatro Rival e o cine Rex, que sobrevivem até hoje, e mantêm um toque do espírito da época. Era no Rex, especializado em filmes pornôs, que eu e meus amigos vivíamos a parte mais dark de nossas histórias. De lá saíamos sempre acompanhados para uma visita à Hospedaria Hostal. Na rua Gomes Freire, a hospedaria ficava na parte mais remota da Lapa. E continua lá até hoje recebendo clientes que parecem atravessar um túnel do tempo que os traz diretamente de épocas já passadas.

O que dizer do Largo da Lapa? O armazém do seu Elias onde eu comprava o pão e a mortadela. A loja da água Hydrolitol, capaz de soltar os intestinos mais teimosos. O restaurante Capela, que hoje existe em outro local e a cujo nome foi acrescentado um “Nova”. As leiterias Bol e Brasil, o território neutro das madrugadas onde se reuniam em paz todas as tribos – bandidos, polícias, malandros, cafetões, travestis e prostitutas… Além de jornalistas.

Em plena ditadura, embora o terror se manifestasse a todo momento, as pessoas viviam o instante com uma sofreguidão única. Afinal, eram os anos 60 e 70, e apesar de tudo a ordem universal era: “cortem as amarras!” E isso nós, os noturnos cidadãos da Lapa, já fazíamos.

Hoje caminho por este território que não existe mais e me pergunto:

“Quem são essas pessoas que por aqui transitam? Por que são elas que hoje povoam minhas ruas, embora não façam parte de minhas lembranças?”

Porque a Lapa não essa falsa de agora, mas a que eu conheci naquela época, me embalou e me criou. E foi por ter vivido intensamente nela que cheguei onde estou agora.

 

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“TURNO DA NOITE”, VIDEO1

»Públicado por em jul 20, 2016 | 3 comentários

 

Júlia Lemmertz,

emocionante,

lê trecho do meu livro.

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PAULICÉIA DESVAIRADÍSSIMA

»Públicado por em jul 17, 2016 | 5 comentários

 

Beyoncé, quem diria, foi parar na Mooca!

Reza a lenda que o Rio é a cidade de todas as tribos e costumes e que São Paulo não passa de uma província que cresceu demais, porém é caretíssima. Será mesmo? Depois de passar dois domingos na chamada “cidade da garoa” e fazer o footing durante horas no calçadão dominical da Avenida Paulista tive sérias dúvidas. Afinal, o calçadão carioca, o da Avenida Atlântica, fica bem na minha porta. E o que eu vejo lá aos domingos além de gente que vai e vem, ou corre, ou fica parada à espera de nada? Isso mesmo: NADA! Agora, na Avenida Paulista… Que diabo de gente mais danada de criativa é esta? Você vê de tudo, até o que não deseja. Desde a Beyoncé aloprada do vídeo lá de cima até o Elvis redivivo após um regime que o deixou magro, além, é claro, de protestos e manifestações dignas de um politicamente incorreto samba do crioulo doido. Enquanto a Atlântica dormita aos domingos, a Paulista é subversivamente viva. Fiquei fã. Nestes dois domingos fotografei, filmei, dancei, pulei, abracei quantos me pediram para fazer isso… E agora mostro alguma coisa do que consegui aqui, mas vou logo avisando: diante da exuberância criativa das tribos da Avenida Paulista o que agora lhes apresento é muito pouco.

Elvis está vivo e fez regime

Este cara? Sou eu!

Sim, meu nome é Gal!

Órfãos de Marilena Chauí, ou: 

samba do crioulo doido

Como diria Douglas Sirk,

o amor tem mil faces

O nome dela é “#Marlinda”. Está abalando a Paulista.

Atendendo a pedidos, de novo:

não haverá golpe!

E só pra lembrar a vocês:

claro que é na Paulista, gente,

nesta segunda-feira, a partir de 19h

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O NEGÓCIO É SE MEXER!

»Públicado por em jul 15, 2016 | 4 comentários

 

 Duas semanas de muito trabalho e pelo menos mais duas pela frente. A Master Class 4 fechou nesta sexta-feira a sinopse e o perfil das personagens e já começou a esboçar a sinopse do primeiro capítulo da novela (que ainda não tem título); o Curso Intensivo de Atuação terminou ontem com uma palestra de Marcelo Serrado, que veio das gravações de “Velho Chico” lá nos confins de Sergipe especialmente para prestigiar nosso curso e seus alunos: a promoção de “Turno da Noite”, meu novo livro, exigiu que eu desse mais de uma dezena de entrevistas… E já estou em fase de concentração para o lançamento, nesta segunda-feira, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional aqui em São Paulo e, no dia 25, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon lá no Rio. Enfim, embora esteja ligeiramente cansado, não paro um só instante. Trabalho e mais trabalho. E querem saber? É disso que eu gosto!

Apreciem as fotos aí embaixo e, mais embaixo ainda, recebam o meu presente especial: o making off da leitura de trechos de “Turno da Noite” feita em minha casa por um grupo de grandes atores, competentes o bastante para formar o elenco de uma novela.

Que vida movimentada eu tenho levado, meu Deus! Como diria aquela grande filósofa brasileira: ai, que loucura!!!!!

AS FOTOS…

…E O VÍDEO!

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RICO DE PÉ INCHADO

»Públicado por em jul 13, 2016 | 6 comentários

 

Ainda vou pagar caro por causa

dessa minha mania de nunca, jamais,

em tempo algum rejeitar trabalho.

 

De trabalho em trabalho as tarefas foram se acumulando até que, nos últimos dias, deixei de ser dono de mim. São tantos os compromissos todos os dias que há algum tempo não me concedo um minuto sequer. Que sou um trabalhador compulsivo todos sabem. Que adoro trabalhar, idem. Que gosto demais do que faço e não abro mão de fazê-lo até meu último suspiro, ibidem. Porém…

A vida sempre tem um porém que nos coloca diante do real e do palpável, não é mesmo?

Porém… Tantas são as tarefas e as idas-e-vindas para cumpri-las que meu corpo reclama. Meu corpo, vocês sabem, tem 73 anos muito bem vividos e aproveitados. Minha cabeça tem, talvez, uns 45 e ainda muito trabalho pela frente. Mas, de novo: porém…

Quando eu estava escrevendo “Império”, um belo dia, depois de ficar diante do computador durante oito horas, precisei sair e fui calçar um dos meus belos pares de sapatos… Mas tentei e tentei e nem com o auxílio de uma calçadeira consegui. Por quê? Meus pés estavam inchados!

Minha mãe, a nunca por demais lembrada e pranteada dona Maria do Carmo Ferreira, certa vez, ao ver que tinha os pés inchados, disse uma frase que nunca esqueci:

“Pé inchado é coisa de pobre!”

Minha mãe, tal como minha família inteira, era paupésima, diga-se de passagem; mas ela se via como uma pessoa riquíssima.

Agora, imaginem o que ela diria se visse o filho dela – autor de novelas de sucesso, feliz ganhador de dois Emmys, proprietário de várias casas em cidades e países diferentes – com os pés inchados a ponto de não poder calçar os sapatos: será que ela repetiria a frase célebre?

Acho que divaguei, como sempre faço… Mas foi para dizer que pé inchado não é coisa de pobre, mas um efeito da má circulação a partir de certa idade. Para um novelista, que precisa trabalhar doze, quatorze horas por dia com os pés debaixo da mesa, este pode ser um problema sério. Ainda bem que não é meu caso, não agora. Mas pode ser na próxima novela. E aí, que farei eu, sempre obrigado a cumprir tantas e tão complicadas tarefas?

Farei o que deve ser feito. Cumprirei todas elas com o empenho e a alegria de sempre, tenha ou não os pés inchados.

 

P. S.: enquanto escrevo essas mal traçadas linhas 44 pessoas falam e discutem sem parar em torno de mim. Sim, estou em plena Master Class 4, os alunos já estão na fase de botar as tramas, que discutimos durante dois dias, no papel… E a fila anda! Ao final teremos, por conta deste trabalho coletivo e muito criativo, mais uma novela. Sem frescuras ou problemas existenciais, que nunca devem se misturar com aquilo que dignifica o homem: o trabalho!

 

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