DEPRESSÃO, ESSE BODE PRETO

»Públicado por em ago 30, 2016 | 2 comentários

 

Vocês conseguem imaginar a esfuziante, cintilante Lara Simeão Romero sofrendo de depressão? Nós não conseguimos. Mas o fato é que há pouco tempo ela passou por uma depressão braba, dessas que derrubam até o vírus da zika, e agora conta para nós como foi que conseguiu dar a volta por cima no artigo abaixo.

Meu adorado Renato Russo já cantou que “nos perderemos entre monstros da nossa própria criação”. E mesmo sabendo  que “ninguém de perto é normal” ainda é difícil reconhecer que padecemos de alguma doença psicológica, e mais difícil ainda procurar ajuda especializada

O sentimento de vergonha e o medo do que os outros vão pensar ainda prevalece numa sociedade que paradoxalmente  apresenta altas taxas de indivíduos com as mais diversas “doenças da alma”, ou seja, transtornos de ansiedade, síndrome do pânico,  bipolaridade, depressão e etc.  Para muita gente, psicólogos e psiquiatras são para doidos varridos, loucos de marré de si e malucos em geral. 

Como para tudo há uma primeira vez eis que coisa de dois anos atrás fui invadida por uma tristeza sem fim e sem explicação aparente, o que piorava ainda mais a situação, pois uma pessoa deprimida odeia  a pergunta “por que você está deprimido?”.  Depressão não tem uma causa concreta ou específica.  Depressão é como o tempo, ou melhor,  é como o mau tempo, simplesmente acontece independente da sua vontade. 

E eu fiquei  esperando que esse mau tempo passasse. Afinal de contas uma fã de Lulu Santos pensa que “tudo passa, tudo passará”, não é verdade? O tempo passou, mas a constante sensação de “nada sentir”, a constante vontade de “fazer nada”,  a persistente sensação de tristeza, tudo isso e um pouco mais não passou. 

Abre parêntesis. Não confundir depressão com tristeza. Tristeza vem e vai e tem uma razão ou motivo de ser. Não ter vontade de trabalhar, não ter energia pra conversar com determinadas pessoas  ou preferir sua cama a uma festa?  Isso é normal.  O que não é normal é não gostar de trabalhar e não gostar de não trabalhar; não ter mais vontade de fazer coisas que até ontem te davam prazer e alegria;  não ter disposição para falar com ninguém e sobre assunto algum – e no meu caso – não ir ao salão de beleza semanalmente, não ir ao cinema, não ler aquele livro,  falar pouco, rir quase nunca e não mais gargalhar. Fecha parêntesis.

Eu sempre fui da opinião de que ao sentir-se doente a solução óbvia é procurar um bom médico, né não? Dor de dente? Dentista. Uma mancha na pele? Dermatologista. Dor na alma? Psiquiatra, estúpida!  

Assim que depois de dormir até as 17:00 horas de um belo domingo de sol  em que me vi assistindo um programa argentino chatérrimo, com as unhas horríveis, os cabelos sem brilho e após ter dito não a uma festa tipo “ viva os anos 80”, nessa hora acordei pra Jesus,  acordei pra Chico Xavier e pra Iemanjá. No dia seguinte marquei consulta com o psiquiatra. 

Ai começou a verdadeira epopeia: encontrar um psiquiatra que inspirasse confiança e bem-estar.  No primeiro profissional que fui e respondendo a  várias perguntas, eis que o dito-cujo indaga sobre minha situação financeira e minha resposta foi que não estava a beira da falência, mas que eram tempos de “vacas magras”. Acreditem que o comentário do médico foi “tenho um amigo na mesma área que você e ele está em excelente situação econômica”. Redundante dizer que fechei a cara e fui procurar ajuda em outro lugar.

Na segunda tentativa cheguei num consultório com incensos, com uma ambientação Zen e uma médica com uma voz tremida igual a daquela mulher que vende iogurteira na TV.  A criatura começou a consulta com um “sou absolutamente contra remédios” e continuou sugerindo pilates, ioga, aromaterapia e coisas do gênero.  Sai daquele consultório fumacento meio zonza numa espécie de overdose de incensos e continuei minha busca por ajuda especializada.

O resto é chato e protocolar, porém com final feliz. Encontrei um bom profissional, estou melhor e curada daquela apatia que era como um pesadelo ao contrário e de ponta-cabeça: num mal sonho você quer acordar e sair da fantasia que te angustia. Na depressão você quer permanecer dormido e não acordar num pesadelo que é um novo dia. 

Não existe uma receita magica. Às vezes um remédio resolve, outras vezes uma terapia é a solução, muitas vezes o melhor é uma combinação dos dois. E definitivamente reconhecer o problema e procurar ajuda é o princípio da cura. (Lara Simeão Romero)

 

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VOU ALI, JÁ VOLTO

»Públicado por em ago 27, 2016 | 8 comentários

 

Olho pela janela do hotel, mas não reconheço o mundo lá fora. Fico todo apalermado por conta do fuso horário, durmo e acordo sempre antes ou depois da hora e chego a uma conclusão não sei se boa ou má: neste ano da graça de 2016 estive sempre em trânsito. Só para citar meu itinerário de julho e agosto: Rio, aquela cidade serrana, São Paulo, novamente o Rio, Lisboa, Óbidos, acho que Paris, mas não estou bem certo – penso que andei sonhando -, novamente Lisboa e agora… De novo caio na estrada, ou melhor, arrumo as malas e parto a caminho do aeroporto para outra viagem longa: neste domingo amanheço em São Paulo.

 

Minha amiga Bernie Piters, de quem decidi escrever a biografia não autorizada, ela mesma uma cidadã do mundo, resume esta minha inquietação numa frase:

“Você tem alma de cigano”.

Digo a ela que os ciganos não são o único povo andarilho, embora eu tenha conhecido alguns deles de passagem, quando era pequeno, na minha cidadezinha lá no Nordeste profundo.

De qualquer modo, tenha ou não a alma cigana, eu adoro viajar… Mas detesto fazer malas. O pessoal politicamente correto que não me leia nem me ouça, mas bom mesmo era quando se viajava de trem ou de paquete e se levava sempre um criado de quarto. Ah, como era boa aquela época de Downton Abbey em que pessoas nos vestiam ou desvestiam enquanto contavam a última fofoca surgida no andar de baixo…

Hoje, não. Em alguns hotéis existe um mordomo de luvas que vem arranjar nossas malas – em troca de uma bela gorjeta -, mas eu nunca chamo um deles para me prestar este serviço, pois noto que sempre arrumam minhas malas com um certo nojo. Talvez não seja nojo. Mas de qualquer modo é um ar, digamos, snob a ponto de, quando ele nos chama de “senhor” a palavra parecer ofensiva.

De qualquer modo, como sempre acontece, divago. O que eu queria dizer é que este foi um ano de grandes realizações para mim, e também de mudanças – não espirituais, mas físicas. Resolvi trocar – com grandes, imensas vantagens, diga-se de passagem – minha casa na serra por outra em São Paulo, onde não preciso andar mais de cem metros para encontrar um cinema, uma galeria de arte ou um teatro.

A partir de agora divido meu tempo por três urbes: o Rio de Janeiro pós-olímpico-mas-sempre-mais-do-mesmo, Lisboa (ah, velha cidade…) e a esfuziante, coruscante, fervilhante São Paulo. Neste momento tudo me parece bem, aliás, ótimo, mas sei que em breve minha alma cigana começará a me perguntar: até quando?

 

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“TURNO DA NOITE” DE NOVO

»Públicado por em ago 26, 2016 | 2 comentários

 

Como diria meu amigo português lá do Alentejo: apois é! Mais um vídeo promocional de “Turno da Noite”, o meu livro. Como vocês sabem, todos eles foram gravados na sala de minha casa, portanto, embora pareça, este ambiente não é um cenário de novela das 21h da Rede Globo. Se o livro, depois de tanta badalação, está vendendo? Acho que sim, pois a editora me comunicou que antes mesmo das noites de autógrafos eles tiveram que fazer uma nova tiragem. Melhor que isso só se eu ganhasse o Prêmio Jaboti… Ou, pelo menos, o Prêmo Jaboticaba.

 

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NASCIDOS PARA PERDER

»Públicado por em ago 24, 2016 | 2 comentários

 

Devo ser mesmo uma pessoa esquisita. Moro na praia há 32 anos e há 20 não ponho sequer os pés na areia, quanto mais na água. Detesto o verão, vivo a perseguir o inverno, e para isso tenho que mudar de país e de hemisfério a cada seis meses. E  adorei a segunda temporada de “True Detective” quanto até o poderoso chefão da HBO, que produziu a série, veio a público pedir desculpas pelas falhas e a má qualidade da mesma.

 

Porém… Gostar ou não gostar é sempre muito vago. É preciso explicar porque uma coisa e não outra. Daí que, antes que me perguntem, vou logo dizendo porque gostei da segunda temporada de “True Detective”: porque ela é… Vou usar a palavra que me parece mais apropriada: ela é suja.

O que aconteceu com o cinema de um modo geral? Os filmes ficaram limpinhos e cheirosos demais. Tudo é muito bem explicado e certinho. E por mais anárquico que seja o filme, nele sempre há lugar para o politicamente correto, que acaba esculhambando com tudo. Vou dar um exemplo: se uma personagem tem problemas, é porque sofreu abusos – em geral meio nebulosos – quando era criança. É aquela velha e surrada história dos agravos passados, que explicam tudo, até a psicopatia, nos filmes de hoje.

Este processo de “limpeza”, que acabou com o velho e bom cinema, começou a ser usado perigosamente no que, por enquanto, existe de mais politicamente incorreto em matéria de audiovisual: as séries de tevê. Aqui e ali aparece uma explicação para o mau caráter de algum personagem. Vejam o caso de “Better Call Saul”, por exemplo. Como o sujeito podia deixar de virar um mau caráter depois de tudo que o canalha do irmão advogado fez contra ele? Saul não é safado porque é safado, não… É safado porque o irmão não lhe deixou outra alternativa na vida.

O “show runner” acima, e Rachel McAdams,a detetive de consciência torta, abaixo 

Em “True Detective 2″, Nic Pizzolatto, a Glória Perez dos shows runners (porque escreve tudo sozinho), fez a detetive Brezerides (Rachel McAdams) ser molestada quando criança… E declarar anos depois que o pior que lhe aconteceu na vida não foi isso, mas sim, o fato de que, ao entrar no carro com aquele desconhecido, a menina que ela era, mesmo sabendo o perigo que corria, sentiu orgulho de si mesma… E gostou disso.

“True Detective 2″, na verdade uma versão nova e meio mal ajambrada do magnífico “Chinatown” de Polansky, tem várias novidades desse tipo… E a maior delas é que, desde o episódio piloto deixa claro uma verdade insofismável: no final são os heróis que vão perder.

Por quê?

Porque nasceram para tal. A trajetória de cada um indica isso – são perdedores natos. E os que vencem sempre são os bandidos cuja competência é inquestionável e por isso estão aí, tomando conta de nós e do mundo em que vivemos. O único destes que acaba mal é Frank, o mafioso vivido por Vince Vaughn… porque se dá o luxo, imaginem, de ter problemas de consciência – que seria de nós se o diabo pensasse em procurar um analista?

Sim, há o caso discutível do personagem Paul Woldrugh (Taylor Kistsch), que morre meio gratuitamente quase no final… Depois de matar – pouca gente percebeu isso – o amante a quem rejeitava, mas a quem não resistia, depois que este passou para o outro lado. Woldrugh, um gay jamais assumido, vê na gravidez da namorada e no casamento com esta a salvação de sua lavoura… E quando é morto pelas costas enquanto,  já ferido, se arrasta pelo chão dizendo “não, não, não!” de mim pelo menos não mereceu sequer uma lágrima.

Claro, “True Detective 2″, não é “Os Sopranos”, ao qual sempre que a gente lá volta perde o fôlego. Mas merece ser revisto algum dia, quando não pelo magnífico, requintadíssimo trabalho de Colin Farrel no papel do Detetive Velcoro (na foto abaixo), o maior perdedor de todos.

Detalhe final: embora o chefão da HBO tenha assumido a responsabilidade pelo “fracasso” da série e isentado o show runner de qualquer culpa não dou a Nic Pizzolatto essa colher de chá… Mas lhe dou um conselho: na próxima vez vê se deixa esse teu ego enorme de lado e chama um belo time de colaboradores… Eles vão te ajudar muito.

 

 ÚLTIMAS PALAVRAS

Ah, sim, uma triviazinha pra terminar. Em matéria de frases memoráveis ditas antes de morrer, a que Gene Hackman pronuncia depois de mortalmente baleado por Clint Eastwood em “Os Imperdoáveis” é a que eu prefiro: “mas que merda, eu estava construindo uma casa, porra!”

 

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EXCLUSIVO: MARINA RUY BARBOSA FALA SOBRE ‘JUSTIÇA’

»Públicado por em ago 23, 2016 | 5 comentários

(Foto: reprodução/TV Globo) 

Se ainda havia dúvidas sobre o talento de Marina Ruy Barbosa, elas caíram por terra após a exibição da minissérie ‘Justiça’, estreia de ontem na TV Globo.

Interpretando Isabela, assassinada pelo próprio noivo, Marina deu provas mais que suficientes de que alcançou o ápice na carreira, com maturidade, profissionalismo e talento.

Não foram cenas fáceis. Teve sexo, traição, violência…

E Marina tirou tudo de letra. Sem dublê, que fique claro!

O público reconheceu o talento da atriz e o nome dela ficou entre os assuntos mais comentados do Twitter.

Hoje, Marina falou com exclusividade ao ASDigital numa entrevista a Virgílio Silva.

A ideia era que gravasse um vídeo, mas ela está descansando numa fazendo no interior de Goiás, onde a internet não funciona muito bem.

Foram apenas cinco perguntas. As respostas, via whatsapp, foram transcritas a seguir exatamente como chegaram.

A estreia de ‘Justiça’ foi um sucesso. Sua personagem, Isabela, foi um dos grandes destaques do primeiro capítulo. Foi um desafio interpretá-la?

Claro! Aliás, todos os meus personagens são desafiadores. O dia em que eu não me sentir desafiada, algo estará fora do lugar. Mas sobre Isabela, ela veio em um momento especial da minha trajetória como atriz. Primeiro porque me permitiu estar ao lado de profissionais com quem a troca foi muito rica. Autora, diretor, equipe, elenco, um time e tanto. Isabela é uma personagem que reflete uma maturidade profissional que me deixa muito feliz. É mais uma etapa nesse meu caminho de muito trabalho, muita dedicação e entrega. Interpretar diálogos tão afiados assinados pela (autora) Manuela Dias sob o olhar e a orientação do genial (diretor) Villamarim me modificou artisticamente.

Você gravou cenas de sexo e violência. Teve dublê em alguma dessas cenas?

Não! Justiça é um prato cheio para um ator. Eu não iria abrir mão de nenhuma etapa deste trabalho, tão intenso, tão profundo. Isabela é a soma disso tudo.

A cena da morte de Isabela, apesar da violência, foi uma das mais belas já realizadas na TV. Foi difícil pra você gravar a sequência?

Obrigada! Fico feliz em ver esse resultado. Justiça exigiu uma entrega absoluta do início ao fim. Foi uma cena delicada, trabalhosa e que precisou de uma sintonia entre todos que estavam no set. Quase um balé! Tínhamos as marcações e as emoções. E precisávamos fazer os dois funcionarem pra valer, de verdade.

Em que patamar você inclui Isabela no rol de seus personagens?

Não sou mãe e não tenho irmãos, mas tenho a certeza de que nenhuma mãe consegue dizer qual é o filho preferido, rsrs.

Qual sua expectativa para o próximo personagem na novela de Aguinaldo Silva? Já sabe algo sobre ela?

Sendo o Aguinaldo, vou de olhos fechados. Essa é uma parceria que levo para a vida! Amor, admiração e gratidão!

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É NO PAPEL QUE COMEÇA TUDO

»Públicado por em ago 23, 2016 | 7 comentários

 

Atenção, candidatos ao nosso concurso de webséries, aprendam com Mestre Carlos Manga (na foto abaixo): “um filme é bom quando consegue passar 50% do que estava no roteiro”

Embora o prazo de entrega vá até 5 de setembro já começam a pipocar aqui na redação as primeiras sinopses candidatas ao nosso concurso de webséries. Como vocês sabem, podem se candidatar como autores-roteiristas os que participaram das minhas Master Classes 3 e 4 e, como atores das webséries escolhidas para ser gravadas, alunos do Curso de Atuação que organizei e patrocino lá no Theatro Net.

Mesmo fazendo parte do júri que selecionará as sinopses candidatas à segunda fase do concurso –  nesta primeira serão escolhidas três sinopses de cada gênero (humor e suspense), ainda não me aventurei a dar uma olhada nos trabalhos dos primeiros candidatos. Fá-lo-ei apenas depois que as inscrições se encerrarem, mas já vou dando um conselho aos concorrentes: não se candidatem se não tiverem uma boa história… Pois a boa história é o começo de tudo, e o que vem depois – elenco, direção, edição e sonorização é apenas consequência.

Guardo até hoje um ensinamento que me foi proporcionado por Carlos Manga, grande e muitas vezes injustiçado cineasta do velho (e bom) cinema jurássico brasileiro. Estava eu a escrever um roteiro para um filme dos Trapalhões que ele ia dirigir e, na sexta vez em que me disse: “está uma merda!” E me mandou reescrever tudo de novo, eu reagi, já irado:

“Manga, é só um filme dos Trapalhões!”

Ao que ele me respondeu:

“Mas você deve escrevê-lo como se o fizesse para Merrill Streep e Al Pacino.”

E explicou: “um filme é bom quando consegue captar 50% do que estava no roteiro. Por isso, para que o filme seja pelo menos bom, o roteiro tem que ser o melhor possível. É no papel que começa tudo, e alguém só é um bom roteirista se levar isso em conta”.

Grande Carlos Manga. Excelente lição de quem sobre cinema entendia de tudo. Essa história aconteceu nos idos de 1990, quando eu já era um roteirista, digamos assim, reconhecido… Mas fui humilde o bastante para aprender a lição e segui-la pelo resto da vida.

Assim, quando escrevo novela, ou minissérie, ou série (gênero para o qual espero poder dedicar o resto dos meus dias a partir de 2020) vejo cada cena como a mais importante de todas. Nada é para encher linguiça ou apenas de passagem. Cada palavra de cada cena ou diálogo é essencial e, para chegar até ela, mergulho fundo e vou até o osso.

Aí vocês dirão, como eu tolamente disse a Manga a propósito do roteiro dos Trapalhões:

“Mas é apenas um concurso de webséries!”

Sim, é… Mas vocês devem encarar o trabalho como se estivessem  a serviço de Spielberg.

Continuem mandando sua sinopses, mas antes caprichem, vão fundo, procurem até chegar no osso… E quem sabe nos reencontraremos no final do concurso?

Boa sorte a todos (Aguinaldo Silva)

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GANHAMOS O OURO OLÍMPICO

»Públicado por em ago 22, 2016 | 7 comentários

 

Como pudemos nós brasileiros, com a fama que temos de ser dispersivos, desorganizados e irresponsáveis produzir uma festa de tal porte? 

 

 

Mesmo sendo as Olimpíadas em boa parte na frente da minha casa em Copacabana, mais uma vez eu preferi vê-las como vi as quatro últimas: de longe, pela televisão. Não sei, é possível que seja esquisitice minha, mas eventos como a Copa do Mundo, as Olimpíadas, a entrega dos Oscars, Emmys e outros que tais são mais encantadores quando vistos na telinha – que, aliás, fica maior a cada dia, e em lares mais abastados já tem status de tela de cinema.

Assim, dias antes da festa de abertura, cujos pontos altos, para mim, foram Paulinho da Viola cantando a capela o Hino Nacional, e Gisele Bundchen, graças a Deus, desfilando num andamento diferente daquele que Fernando Meireles preferia – porque quem sabe tudo sobre desfilar é ela e não ele – eu já estava a sete mil quilômetros de distância, na minha casa aqui em Lisboa, pronto para ver como seria a nossa festa olímpica aí no Rio.

Claro, eu estava longe, mas muito apreensivo, já que minha casa fica em Copacabana e, portanto, no epicentro de qualquer terremoto, incluindo as ações terroristas que os mais pessimistas previam. A julgar pelas previsões destes, quando voltasse encontraria eu o bairro que escolhi para viver meus últimos dias em escombros?

Melhor não pensar nisso. Mesmo porque, dias depois de ter chegado em Lisboa, estava eu junto com alguns amigos a traçar um polvo a lagareira num restaurante quando, de repente… “A terra tremeu!” – disse eu a eles, que me responderam: “ah, deixa-te de frescuras”. Continuamos a comer, mas logo depois a televisão pendurada na parede deu a notícia com grande estardalhaço: tinha acabado de ocorrer um terremoto, com a magnitude de 4.1 na escala Richter e epicentro no litoral de Peniche… Onde eu tinha almoçado no dia anterior!

Enquanto isso, no Brasil, Rio de Janeiro, Copacabana..

A essa altura, depois de ver tudo que foi possível das olimpíadas, incluindoa abertura e o encerramento, já posso dizer com o maior orgulho: gente, que festa foi essa? Como pudemos nós brasileiros, com a fama que temos de ser dispersivos, desorganizados e – por que não dizer? – irresponsáveis – produzir uma festa de tal porte?  Claro, houve senões, mas o importante mesmo é que, tal como se diz a propósito da escola de samba do Salgueiro, sem ser a melhor ou a pior, essa olimpíada foi diferente…

 E isso é que fez a diferença. Até a piscina cuja cor mudou do azul celeste para o verde vômito da noite para o dia e  virou noticia no mundo inteiro deu, vamos dizer assim, cor ao nosso espetáculo. Só nós, brasileiros, brazucas, brasinhas, brasilinos ou tantos outros apelidos que adotemos somos capazes de pegar um limão meio passado e fazer dele uma deliciosa caipirinha. E isso é o que foi essa olimpíada – uma deliciosa caipirinha que a generosidade e a alegria às vezes excessiva e pegajosa do nosso povo serviu para o mundo inteiro.

Estamos de parabéns, e dou minha mão à palmatória. Quando vi aquela arena monumental construída ali no Leme para os jogos de vôlei de praia, pensei comigo mesmo:

“Quando todo mundo começar a sambar e gritar aí em cima essa engenhoca monstruosa vai desabar!”

 

 

Mas, mea culpa, o que aconteceu foi outra coisa. A engenhoca, ocupada pelos cariocas (seria melhor dizer brasileiros) transfigurou-se, explodiu em cores e, ao por do sol – que nos ajudou mandando a chuva para bem longe – virou um dos mais belos cartões postais já vistos na história deste evento que se realiza em algum lugar do mundo a cada quatro anos.

Como já disse antes, estou falando do que vi na televisão. Mas, repito, é na televisão que sempre se vê a melhor olimpíada. E para mim, de todas as que vi na televisão esta foi a mais peculiar de todas. Porque foi uma festa universal sem deixar de ser cem por cento brasileira.

 

UM HOMEM PARA

TODAS AS ESTAÇÕES 

 

No meio destes dias plenos de belas notícias, uma me deixou triste: a morte de Jean-Marie Faustin Godefroid Havelange, o João Havelange da CBD e da FIFA de quem vocês tanto ouviram falar durante décadas, e que começou sua carreira no desporto em 1936, quando disputou pelo Brasil provas de natação nas olimpíadas de Berlim. Uma figura emblemática pela qual sempre tive grande admiração e que, aos cem anos, escolheu para encerrar sua vida o momento certo – uma olimpíada, onde pode se dizer que ela começou. Na foto acima, tirada em 1036, João Havelange está no convés do navio que levou os atletas brasileiros para disputar as Olimpíadas de Berlim. Ele fazia parte de nossa equipe de natação.

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