“Não sou santa, mas sou bem careta”, define-se Laryssa Dias, a prostituta traficada Waleska, de Salve Jorge, que teve seu papel ampliado com o desenvolvimento da trama. Muito diferente de sua personagem, a atriz, de 30 anos, 1,65m e 52 quilos, conta que nunca fumou, bebeu ou usou drogas, e teve seu primeiro namorado aos 19 anos. “Tenho padrões morais bem definidos, e uma família muito unida. Meu pai sempre foi geração saúde. Com cinco anos perguntei à minha mãe como era feita a carne que estava comendo. Quando ela disse qual era o processo até chegar ao consumo, perdi a fome, e passei a ser vegetariana”.

entrevista de Simone Magalhães
fotos de Fco. Patrício
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De personalidade forte, a estreante em novelas garante que só faz concessões “por uma causa justa”. É perseverante: investiu em vários cursos de interpretação, e foi em busca de trabalho. “Levei muitos ‘não’ em testes, mas nunca pensei em desistir”, afirma a atriz, cuja personagem, nesta sexta-feira, termina a novela com um happy end unindo-se ao policial Almir (Murilo Grossi). Detalhe para os curiosos: o nome da moça não é artístico. Foi Suely, mãe dela, que ao ver um quadro assinado pela pintora Laryssa – com “y” – resolveu batizar assim sua primeira filha. Pode ter dado um plus, mas o sucesso veio com a soma talento + batalha.
“Mergulhei nos universos do tráfico humano e da prostuição”
‘Logo que fui aprovada no teste para interpretar a Waleska mergulhei em dois universos: o do tráfico humano e da prostituição. Fiz laboratório durante cinco meses. Workshops, palestras, conversas com delegados, com responsáveis por ONGs, familiares de ex-traficadas. Fui a várias baladas nas que sabia que tinha garotas de programa. Eu chegava, dizia quem era e o que gostaria de conversar, jogava limpo. Muitas se negavam, mas outras falavam abertamente sobre suas vidas. A maioria tem filhos, e faz da prostituição o sustento da família. Pelo que percebi, elas entram num círculo vicioso, de acomodação, não querem perder a boa condição financeira que têm. Acompanhei um dia delas, fui ao mercado, fazer compras, buscar o filho no colégio. É um dia a dia comum. Quis humanizar a Waleska, que é uma pessoa do bem, digna e ajuda as outras traficadas. Pela resposta do público, nas ruas, consegui (risos).’
“Minha função é iluminar as pessoas”

‘A sociedade não conhecia esse tema do tráfico de mulheres, achava que era lenda urbana. Agora, as pessoas já debatem sobre isso, os casos estão aparecendo, redes estão sendo desbaratadas. Minha maior satisfação é ver que o objetivo da novela foi atingido. E é uma realização como atriz, como ser humano! Sou um soldado, preciso ter disciplina e passar o que a personagem quer dizer. Minha função é informar, iluminar e emocionar as pessoas.’
“Sou muito família”
‘Sempre quis ser atriz. Com 5, 6 anos comecei a participar de um curso de lambada no condomínio onde morava. Depois de seis meses já me apresentava, com meu professor, nas matinês de casas de shows, em São Paulo. Meus pais estavam sempre comigo. São meus maiores incentivadores. Cresci ouvindo meu pai tocar guitarra, violão… Ele sempre teve banda, e compunha também. Sou muito parecida com ele: comunicativa, gosto de público, adoro conversar. Já minha mãe é mais discreta. Eles são mineiros e foram morar em São Paulo. Tenho dois irmãos: Tássio, de 29 anos, e Sarita, de 24. As famílias paterna e materna estão em Juiz de Fora. Somos muito unidos. Faço questão de vê-los, pelo menos, uma vez por ano. Em 2012, não deu pra ir no Natal, porque estava gravando muito, mas fui lá na Páscoa, quando tive um tempo. Sou muito família.’
“Fui à luta pela profissão que escolhi”
‘Depois de fazer aulas de jazz, balé, com 12 anos resolvi me dedicar ao teatro. É aquela época em que na escola todo mundo pergunta o que você quer ser, e eu não tinha dúvida nenhuma: ‘Quero ser atriz!’. Participava da maratona cultural do colégio, montava peças, e, aos 13, fui estudar na Casa de Teatro, com a Ligia Cortez. Era tudo que eu queria, mas, na hora do Vestibular, bateu aquela dúvida. Com 17 anos talvez não estivesse tão madura para fazer Artes Dramáticas. E optei por Propaganda e Marketing, no Mackenzie. Mas, ao mesmo tempo, fazia cursos de interpretação, curtas, trabalhos com o Grupo Tapa. Na semana seguinte à minha formatura na faculdade, fui procurar uma escola de interpretação para depois tirar meu DRT (Documento de Registro Técnico), e ir à luta pela profissão que escolhi’.
“Nunca bebi, fumei ou usei drogas”

‘Depois de várias tentativas, fazer alguns curtas, conhecer muitas pessoas, me chamaram para fazer um teste para o filme da Bruna Surfistinha. Era um desafio, já que a personagem não tem nada a ver comigo. Nunca bebi, fumei ou usei drogas. Mas não teria problemas em aceitar, caso tivesse sido chamada. Claro, que precisaria fazer um preparação. Como fiz para a Waleska. Mas nunca recusaria um papel que me desafiasse. Pelo contrário. Tanto que, depois, em 2010, fui aprovada no teste para série policial 9mm:SP, na qual interpretei a Núbia, amante de um traficante, de um policial, e metida com drogas. Foi uma porrada, no bom sentido. Fiquei duas temporadas na série, e, em 2011, fiz o curta Fui Comprar Cigarros, do Marcel Mallio, que me deu mais visibilidade.’
“Sou super-romântica, gosto de homem galante”
“Tive namoricos, paqueras, mas namorado mesmo, de apresentar à família, foi aos 19 anos. O relacionamento durou um ano e meio. Na verdade, tive poucos namorados, só os pelos quais me apaixonei. Não gosto de ficar por ficar: não agrega nada. Tenho que estar apaixonada. Sou muito intensa, sabe? Quando amo, amo demais. Quando sofro, demais. Tudo é muito (risos). Meu namorado (Wilson Cardoso, 40 anos), é sociólogo – tem uns projetos sociais maravilhosos – e publicitário. Ele tem um pouquinho de ciúmes ao ver algumas cenas, mas também tem tanto orgulho de mim, que releva isso. Sou super-romântica, gosto de homem galante, que abre a porta do carro, que ‘cuida’ da namorada. Quero me casar, ter dois filhos, mas não agora. O foco é a minha carreira”.
O QUE NÃO PODE FALTAR…

NA BOLSA – ‘Protetor labial com filtro solar e hidratante. Se não os lábios podem ficar rachados’.
NA MAQUIAGEM – ‘Batom vermelho fosco, para sair. Peguei isso da Waleska! (risos)’
NO ARMÁRIO – ‘Perfumes masculinos – um dos meus preferidos é o Armani Code – e loção com cheirinho de bebê’.
NA GELADEIRA – “Água gelada. Bebo cerca de 2 a 2,5 litros, por dia. Mas a meta é tomar 3 litros’.
NO PRATO – “Arroz com feijão. Adoro!’
O QUE LARYSSA ACHA DE…

PRECONCEITO – ‘É muito triste! O ser humano deveria naturalmente respeitar o outro. Nada de violência, de discriminação. Respeitar a liberdade do outro. Respeito é uma palavra tão importante!’
ABORTO – ‘Sou contra. Mas acho que a mulher deve poder escolher em caso gravidez por estupro ou se o feto não for sobreviver, por alguma anomalia, depois.’
VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER – ‘É inadmissível! Tem que denunciar mesmo, e o culpado deve ser punido. As pessoas só aprendem vendo exemplos”.
TV – ‘É o meu local de trabalho. Tenho colegas lá. E todos estão trabalhando por um objetivo. É minha primeira novela, tudo muito novo. Mas em todo lugar onde você está começando vai criando laços com quem se identifica mais, baseado nos seus valores, na sua experiência de vida, nas afinidades.’
RELIGIÃO – ‘Sou católica por formação, mas tenho meu jeito particular de conversar com Deus, que é uma energia muito positiva, o contato com a natureza, tudo de bom que nos cerca. Só peço proteção e saúde. Ah, agradeço também’.
DROGAS – ‘Nunca usei absolutamente nada. Nunca quis experimentar. Na adolescência, muita gente diz que se você usar vai se sentir feliz, bacana, solta na balada, animada… Mas eu já sou assim normalmente, não preciso de nenhum ‘aditivo’. Acho que o diálogo, as informações, os valores devem vir dos pais. Eu sei o que quero pra mim. Jamais vou usar”.
LIMITES – “A sensação que tenho é de que os pais e os filhos têm horários diferentes, desencontrados, e outras pessoas acabam tomando conta das crianças. Acho que os pais devem estar próximos, disponíveis para conversar, educar e acompanhar o crescimento dos filhos. E nessa relação mostrar limites é fundamental. E fazer bons programas também: levar ao parque, ao teatro, ao museu… Não deixá-los apenas no computador ou com o videogame.”
LIBERDADE – “Ser o que você é, viver a sua verdade”.

CORPO – “Qualquer pessoa precisa se cuidar para ter boa saúde. Quando você trabalha com a imagem deve ter um cuidado maior, mas sem paranoia. E se a personagem for interessante, pelos conflitos, pelos desafios que apresentar, aceito independentemente de ser gorda, careca, o que for. Como atividade física faço muay thai (boxe tailandês) e gosto de correr ao ar livre. E quanto à alimentação sou ovolactovegetariana. Ou seja, também como ovos e derivados do leite. É claro que um chocolate – que eu adoro! – ou uma pizza, de vez em quando, não tem problema. O bom dessa mudança alimentar é que minha família diminuiu em 60%, 70% o consumo de carne”.
POSAR NUA – “Não tenho nada contra, mas sou tímida pra isso. E acho que não está ‘linkado’ à carreira, mas a um bom cachê ou à vaidade. Posso ganhar meu dinheiro trabalhando.”
SEXO – ‘Para mim, só com amor. O sexo tem que fazer o ser humano feliz. Vale tudo no momento de entrega, desde que seja bom para os dois”.
DESTINO – “Acredito em destino. Sempre soube que ia ser atriz. Mas acho que temos livre arbítrio: acredito muito na batalha pelas oportunidades. Quando não acontece é porque não era pra ser, não era o momento, e continuo buscando. Nada pra mim foi fácil’.
PLANOS PARA DEPOIS DA NOVELA – “Ainda não tenho nada em vista, mas eu quero é trabalhar. Adoraria se surgisse um convite interessante”

(foto: divulgação)
