COPACABANA NÃO ENGANA

»Públicado por em abr 27, 2016 | 8 comentários

 

Além de pouso ideal para os velhinhos, Copacabana é o céu dos novelistas, pois suas ruas são um verdadeiro criadouro de personagens.

 

No dia em que se votava o impedimento da Presidente aí no Brasil, durante um almoço aqui em Lisboa todos os portugueses evitavam falar de política por uma questão de tato. Assim, de conversa em conversa trivial, de repente um deles, que em suas viagens ao nosso país nunca foi além das praias do Nordeste, me pergunta:

“Como é morar em Copacabana?”

Tento não alterar o tom banal da conversa e respondo:

“É uma experiência única”.

Todos se entreolham discretamente… E então o amigo português insiste:

“Fale melhor sobre isso”.

Não tive outra saída senão dizer aos comensais agora atentos porque minha vida recente na chamada “Princesinha do Mar” tem sido uma experiência única. Disse a eles e digo agora a vocês. Mas antes permitam que eu fale um pouco de minha vida pregressa como imigrante nordestino que se tornou morador – e cidadão honorário – desta bela cidade.

Quando cheguei ao Rio de Janeiro – em junho de 1964 – fui morar primeiro na rua Itacuruçá, na Tijuca profunda. Mas fiquei lá poucos meses e me mudei para a Lapa, onde, após seis anos de experiências radicais, subi de nível – ou de altitude se preferem – e fui parar nos píncaros de Santa Teresa. Depois de oito anos, resolvi partir para outra experiência radical e em 1978 arrumei as tralhas e me mudei para Jacarepaguá, onde ficavam então os limites da cidade.

Como toda experiência radical tem prazo para terminar – ou não se sobrevive a elas -, e Jacarepaguá então não era o pulsante bairro que é hoje, resolvi vir “mais para perto” da cidade: São Conrado foi minha próxima parada, num condomínio de casas no qual tinha como gentis vizinhos Miele, Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça, além de micos, gambás, cobras, lacraias e toda uma gama de aves raras . Fiquei pouco tempo lá e, em 1987 mudei para a Barra da Tijuca.

Ah, a experiência de morar na Barra… Quando cheguei na rua Gilberto Amado ali no Jardim Oceânico, a Olegário Maciel era a única rua asfaltada. Assim, posso dizer que vi o bairro seguir o conselho bíblico que diz: “crescei e multiplicai-vos”. Acompanhei passo a passo deste  crescimento, até perceber que ele estava a caminho de se tornar um inchaço; e então concluí que estava na hora de procurar outro pouso. A essa altura eu já estava, bem… chegando aos 70 anos. E ao saber dos meus desejos de mudança um amigo meu, 20 anos mais jovem, comentou discretamente:

“Quando eu tiver sua idade irei morar em Copacabana”.

Até então eu achava que Copacabana era um bairro para ser visitado e curtido em incursões que sempre terminavam com a viagem de volta à minha casa. Morar lá nunca me passara pela cabeça. Mas depois que meu amigo falou isso resolvi ir lá com olhos de possível morador… E descobri o que outros  velhotes como eu já sabiam – Copacabana, além de paraíso dos turistas remediados, é o melhor abrigo para pessoas das terceira, quarta, quinta e demais idades.

 

Após esta conclusão não pensei duas vezes. Mudei para Copacabana… E já nas primeiras semanas descobri mais ainda sobre o bairro. Além de pouso ideal para os velhinhos, ele é o céu dos novelistas, pois é um verdadeiro criadouro de personagens. É só sair de casa e dar uma caminhada pela rua Ayres Saldanha e cruzo com dezenas de figuras que só poderiam ser fruto da ficção e parecem estar na vida real só de passagem.

Essa é a experiência única a que me referi no tal almoço em Lisboa. Nenhum local no Rio de Janeiro – e poucos no mundo – tem tamanha riqueza de figuras e tipos. E todos – ao novelista sempre curioso que sou – mostram estampadas no rosto as marcas de uma longa, atribulada, bela ou terrível história, suficientes para justificar aquela frase que eu e meus colegas ouvimos a cada instante: “minha vida daria uma novela!”

Para mim, que já moro lá há quase quatro anos, Copacabana é um território de pura ficção… Onde habita a mais real de todas as realidades.

Faça seu comentário

COM OU SEM CUSPE?

»Públicado por em abr 25, 2016 | 27 comentários

 

Lara Simeão Romero, nossa querida leitora, comentarista e colaboradora, enviou para o meu facebook  o texto abaixo que, pela pertinência, merece ser aqui reproduzido. O hábito de cuspir na cara de quem se discorda, inaugurado de modo gritante  em pleno Congresso Nacional, ameaça se tornar a moda deste inverno que se aproxima e que pode ser o da nossa desesperança. Portanto, seja você um convergente ou um divergente, trate de arranjar proteção contra as cusparadas que fatalmente virão.

 

Não vi o Faustão hoje e estou por fora dos detalhes desse fudevu com o Zé de Abreu.

Mas não foi no mesmo Faustão, outro dia, que o Ary Fontoura falou a favordo impeachment e contra o governo do PT e foi aplaudido pela plateia (e elogiado pelo Faustão)?
Resultado: Gente gritando (e escrevendo) “Globo Golpista” e outra gente gritando “Muito bem Globo”.

E hoje no mesmo Faustão parece (não vi, li comentários no Face) que o Zé de Abreu falou contra o impeachment, a favor do governo do PT e foi aplaudido pela plateia (e elogiado pelo Faustão), né?
Resultado: Gente gritando (e escrevendo) “Globo Golpista” e outra gente gritando “Muito bem Globo”.

Eu heim!!!!
A Globo eu assisto o que gosto e não assisto o que não gosto.
Tem coisa ruim, muito ruim, boa e muito boa e o escambau.
Eu heim (2)!!!
Nessa época de redes sociais eu termino com o velho bardo:
MUITO BARULHO POR NADA!

NOSSA ENQUETE DE HOJE É…

Se lhe dessem uma chance de fazê-lo, na cara de quem você cuspiria? Envie sua resposta para a nossa secção de comentários e nos ajude a eleger a pessoa mais “cuspível” do Brasil neste momento… E habilite-e a receber, através de sorteio, um brinde especial (e sem cuspe): a caixa com a quinta temporada de “Game of thrones”.

Faça seu comentário

MINHA SOPA DE LETRAS

»Públicado por em abr 23, 2016 | 9 comentários

 

Para mim – e para milhões e milhões de pessoas em todo o mundo – hoje é um dia muito especial. Por quê? Por duas razões. Primeiro porque é o Dia Mundial do Livro. E  segundo porque um certo cidadão inglês chamado William Shakespeare (na gravura abaixo) completa 450 anos de vida… E, sem que ninguém se espante por causa disso, continua vivíssimo.

Disse ele em “Hamlet”, uma de suas peças: 

“A vida é uma história contada por um idiota,

cheia de som e fúria, mas vazia de significado”

________________________________

 

Eu, que sou viciado em livros, e acho que Shakespeare, mais que ninguém (incluindo o tão badalado Sigmund Freud e os cientistas do DNA) traçou o guia-mapa dos tortuosos caminhos da mente humana, estou duplamente feliz. Acho que já disse aqui: a fila de livros que ainda quero ler abrangeria o espaço de pelo menos 30 anos, tempo que, com 73 completados, não viverei. Mesmo assim… Livros? Continuo a comprá-los compulsivamente.

Das minhas últimas aquisições aqui em Portugal, já li um: “A poeira que cai sobre a terra”, do português Francisco José Viegas, criador de um inspetor de polícia, Jaime Ramos, que se envolve em histórias policiais que eu amo.E já comecei a ler o segundo: “Império do medo – no interior do Estado islâmico”, do jornalista Andrew Hosken, que foi correspondente de guerra no Oriente médio durante anos. Dá para perceber que minhas leituras são ecléticas. Estão na fila “Stoner”, de John Williams e “Índias”, uma biografia do sempre controverso navegador e pai-de-chiqueiro Vasco da Gama.

 

Como vocês vêem, não tenho preferência de gêneros. Leio leio leio e pronto. E se estou falado de livros, também devo falar de outras leituras. A da revista “Veja” é sagrada. Quando estou no Brasil compro nas bancas, pois gosto de ouvir – e sentir – o farfalhar das folhas de papel. Mas fora do Brasil leio mesmo é no Ipad, Deus o tenha com seus ataques de “não me toques” – nunca vi engenhoca tão injustamente amada. Se tenho alguma revista semanal preferida em Portugal? Tenho sim, a “Sábado”, mais liberal que a “Visão” (também leio de vez em quando). Além disso, não perdi o hábito de ler dois jornais diários, embora agora o faça on line, não por modernismo, mas apenas por comodismo.

Tanto amo os livros que comecei a escrevê-los aos 12 anos – de brincadeira! – e, depois de muito martelar a minha máquina de escrever Simith & Corona, publiquei o primeiro (“Redenção para Job”) aos 16 anos. Desde então não parei: já publiquei 16, embora tenha diminuído o ritmo desde que fui “escravizado” pelas telenovelas… Das quais, aliás, me vinguei um pouco num deles, chamado “98 tiros de audiência”, no qual mostro, com absoluta fidelidade e alguma ironia, os bastidores do gênero (na foto abaixo, a capa da edição portuguesa). E agora, após um longo e tenebroso inverno – “o inverno da nossa desesperança”, diria Shakespeare -, vou publicar mais um: chama-se “Turno da Noite”, reúne the best das minhas reportagens policiais escritas nos anos 70 e 80 e mais as minhas memórias up close and personal do período, nas quais eu conto tudo, mas tudo mesmo, e sei que o que eu conto – atenção fifís da mídia, me aguardem! – vai dar muito o que falar. 

 

 

Por tudo isso – por ser o Mundial do Livro e o aniversário de Shakespeare – vou festejar esse dia com o maior apuro… Mas vou festejá-lo, também, por outra razão igualmente especial: minha cidadania portuguesa,que me dá a condição de cidadão europeu com todos os direitos. Ontem fui buscar o meu cartão de cidadão e o passaporte e, enquanto os entregava a funcionária do Serviços de Registos me perguntou: “o senhor pretende votar?” Respondi que sim, é claro, é dever de todo cidadão não apenas votar, mas… atenção, brasileiros, pensem muito bem nisso na próxima vez que o fizerem para que não tenhamos, depois do mensalão e do petrolão, o caralhão que nos destruirá a todos: é preciso votar o melhor possível.

 

 

Faça seu comentário

QUANDO TUDO ERA MÁGICO

»Públicado por em abr 19, 2016 | 25 comentários

 

Abaixo: Sérgio Cabeleira é levado pela lua em “Pedra sobre Pedra”

Em “Velho Chico” e “Liberdade Liberdade”

a telenovela volta a beber da boa água

de suas antigas – e melhores – fontes

 

Como o inseto que se move lentamente e consegue sair vivo dos escombros após o terremoto, começo a pensar em escrever telenovela de novo. Afinal, “Império” acabou há pouco mais de um ano, e a comichão que sempre me dá quando fico muito tempo sem fazer nada já está me atacando outra vez, portanto…

Vim para Lisboa com este objetivo: escrever uma sinopse com vistas a uma futura novela das 21 horas. Escrever, não: reescrever. Pois sinopse eu já tenho; e ela surgiu durante minha Master Class 3, com a colaboração de 26 alunos. A Master Class, para quem não sabe, é um curso prático e intensivo destinado a futuros telenovelistas que dou de vez em quando. A próxima edição será em julho em São Paulo.

A sinopse que estou reescrevendo tem uma novidade. Marca a minha volta ao universo dito “rural” e mágico, que eu tinha trocado, desde “Senhora do Destino”, pelas tramas urbanas e cariocas. Volto àquele mundinho no qual tudo é possível, desde que o espectador, acredite em minhas histórias e meus personagens e ache junto com eles que o impossível, por mais absurdo que pareça, pode acontecer.

 

 

Será que nos tempos atuais isso dá certo?

Acho que dá, sim, já que por conta da leitura diária dos jornais concluo que neste momento, no Brasil e no mundo, só o impossível acontece. Por exemplo: dá para acreditar que aqui e ali pessoas se explodam, arrastando para o seu suicídio mortal dezenas, centenas de inocentes que só queriam uma coisa na vida – continuar vivos? Pois é o que acontece a cada instante e – mais absurdo ainda – há sempre quem dê razão aos suicidas-assassinos e encontre justificativas para seus crimes hediondos.

Mas não se preocupem, minha próxima novela não será sobre esse tipo de “impossível”, pois não dá para retirar dele nenhum bom humor, e minhas histórias, por mais sérios que sejam os temas abordados, sempre acabam se tornando engraçadas.

Então será sobre o quê?

Desculpem, mas não posso abrir o jogo. Só posso dizer que tudo acontece na fronteira montanhosa entre Minas e São Paulo, numa cidadezinha perdida cuja situação geográfica a impede de ter telefonia celular e internet. Ou seja, um lugar onde as pessoas ainda se comunicam por bilhetes ou cartas em pleno século XXI: não é fantástico? É disso que as telenovelas precisam, da volta daquela carta misteriosa capaz de destruir a vida do protagonista e alterar de uma vez por todas o desfecho.

Alguém pergunta se, para criar minha cidadezinha me inspirei em algum lugar específico, e eu digo que sim. Um lugar onde nunca estive e só vi de longe, de dentro de um carro, numa estrada no alto de um monte. Seu nome é Delfim Moreira. E como eu a vi há mais de quarenta anos, é possível que esta imagem que dela guardei hoje só exista em minha memória: uma cidade onde nada devia acontecer, mas tudo acontece; tanto acontece que pode despertar o interesse do país inteiro.

Sim, porque só a telenovela ainda é capaz disso -  reunir milhões de brasileiros ao mesmo tempo diante da televisão e depois fazê-los discutir e comentar o que viram. Esta qualidade do nosso principal produto televisivo ainda persiste e deve ser mantida nem que precisemos ir buscar água nas fontes do passado. De volta ao mundo mágico, pois. Mas acho que nessa minha volta ao universo de “Tieta”, “Pedra Sobre Pedra”, “Fera Ferida” e a “Indomada”  nem estou sendo original. Afinal, das novelas que estão no ar “Velho Chico” é uma história rural, e “Liberdade Liberdade” uma história de época.

E isso significa que, talvez, depois de um longo período de “modernidade”, pelo menos no que diz respeito à telenovela estamos voltando aos bons e velhos tempos, o que – pelo menos para mim – é muito bom.

 

Faça seu comentário

NERVOS DE AÇO

»Públicado por em abr 18, 2016 | 5 comentários

 

Pelo menos mil vezes

ele disse no mesmo tom:

“o seu voto, deputado”

 

Bastou meia hora de votação na sessão de ontem no Congresso para que se percebesse a estratégia governista: primeiro, chamar de golpe um evento no qual todos podiam votar livremente e dizer o que lhes viesse a telha, inclusive que votava não “pelos povos indígenas e os quilombolas”. Mas, além deles, nem os ingênuos querubins que brincam de esconde-esconde atrás das nuvens acreditavam nessa história de “golpe”. E segundo, fazer com que Eduardo Cunha, de tanto ser insultado, perdesse a paciência e tivesse um piti e aí provocar um tumulto que o obrigasse a suspender a sessão, pois assim conseguiriam mais alguns dias para tentar  fazer a cabeça dos votantes.

Nenhuma novidade. Nos dois casos é a estratégia de sempre do pessoal da esquerda, que só dá certo entre eles, mas não com os que estão “do outro lado”. A novidade é que, no segundo caso, eles não contavam com o sangue de barata de Cunha, que ouviu impassível todas as acusações e insultos lançados contra ele de dedo em riste, e a tudo respondeu com a frase que pronunciou pelo menos mil vezes no mesmo tom:

“O seu voto, deputado”.

Nem mesmo quando Miro Teixeira lembrou que quem estava sendo julgado ali era Dilma e não o presidente da Câmara dos Deputados, este perdoou o seu discurso longo e repetiu quatro vezes (eu contei):

“O seu voto, deputado”.

Assim, na sequência dos “nunca antes neste país” tivemos ontem mais um. Nunca antes na história desta país o presidente do Congresso, a terceira autoridade do Brasil, foi tão insultado. Sim, porque não era o acusado Eduardo Cunha que lá estava, era o cargo que ele ocupa por conta de artimanhas dos próprios governistas quando Cunha lhes era conveniente; e o cargo, seja quem for que o ocupa, mesmo que para nossa tristeza, deve ser respeitado.

À medida que a votação deixava clara a derrota, aumentava o tom das acusações e insultos e, neste quesito, as mulheres se esmeraram. As mulheres são ótimas em reclamar dos insultos dos homens, mas são melhores ainda em insultá-los, pois, se advertidas, apelam para sua própria “fragilidade”. Bastava que o Cunha chamasse uma delas de “esganiçada” e pronto – seria crucificado.

Mas o presidente da Câmara dos Deputados, imbuído como nunca da sua “responsabilidade” – ou, melhor dizendo, tomado pelo seu mesquinho desejo de ver o Governo derrubado – nem uma vez piscou. Durante pelo menos sete horas esteve sentado naquela cadeira sem comer, beber ou sair para fazer xixi, sem alterar a voz uma vez sequer, sem revidar as provocações, os insultos, admoestando os votantes, seja de que partido fossem, com o seu mantra pronunciado sempre no mesmo tom – “o seu voto, deputado” – demonstrando que tem mesmo nervos de aço.

Tão atento estava ele a tudo que acontecia à sua volta que, em meio ao tumulto final, quando um deputado anunciou que trouxera o filho para declarar seu voto, ele teve uma das poucas reações fora do tom e alertou o entusiasmado votante:

“Não pode fazer isso, deputado.”

Se estou fazendo a defesa de Eduardo Cunha? Claro que não. Como bem disse um deputado – que por acaso votou sim - ele é o próximo da fila, sua vez vai chegar. Corrupto é corrupto, por isso Cunha e uma parte dos que ocupam altos cargos neste momento, sejam de que partido for, são farinha do mesmo saco. Só estou dizendo que, de todos os possíveis, o PT escolheu o pior adversário.

 

Faça seu comentário

NÃO, EU NÃO ACREDITO

»Públicado por em abr 17, 2016 | 5 comentários

 

Não acredito que algum brasileiro se sinta bem ou feliz com o estado de total baixaria a que chegou o país nas últimas semanas.

Não acredito que pessoas esclarecidas realmente achem que tudo não passa de uma grande conspiração para derrubar o governo e não percebam que é o próprio governo, com seu total desgoverno, que está derrubando a si mesmo.

Não acredito que intelectuais, com alguma possibilidade de perceber e interpretar o que acontece no mundo à sua volta, sejam sinceros quando dizem que não há ilegalidades, não houve roubo, que as acusações, apesar da verdadeira montanha de provas, são infundadas, que os do lado de lá é que estão errados e os do lado de cá nunca, mas nunca mesmo, cometeram nenhum erro.

Não acredito que alguém ainda ache que os últimos governos governaram pelo povo e para o povo e não para encher os cofres das grandes empreiteiras e, em alguns casos, também os próprios.

Não acredito que a indignação quanto aos crimes de Eduardo Cunha seja real, quando os indignados têm o cuidado de separar o joio do joio ao ignorar as acusações contra Renan Calheiros.

Não acredito que pessoas esclarecidas achem que o país vai passar uma borracha e acordar trabalhador e feliz na segunda-feira se não se chegar a algum tipo de solução neste domingo.

Não acredito que o Brasil suporte mais dois anos de impasse e paralisação sem que os pobres – em nome dos quais hoje tanto se fala em vão – venham a ficar ainda mais pobres e desamparados.

Não acredito que o projeto pessoal de Temer seja mais danoso para o país do que o projeto pessoal de Lula de voltar a ser Presidente a qualquer preço.

Não acredito que ninguém lá em cima não sabia da roubalheira, e se não sabiam, então são incompetentes.

Não acredito nos políticos, mas é com os que temos que podemos contar neste momento.

Não acredito em milagres, mas acredito em sangue, suor e lágrimas; e todos nós vamos precisar suar, chorar, dar o sangue e ranger muito os dentes daqui pra frente. E se quisermos que o Brasil saia desse enorme, vastíssimo buraco teremos que estar não uns contra os outros, mas unidos, lado a lado.

Faça seu comentário

VOY A DANZAR EL MAMBO!

»Públicado por em abr 16, 2016 | 8 comentários

 

 Sabem aquele diabinho que de vez em quando aparece sentado no meu ombro esquerdo e fala um monte de besteiras? Pois hoje ele apareceu e, atrevido como é, foi logo me dizendo:

“Senta o rabo diante do computador e começa logo a fazer a única coisa que te deixa feliz que é escrever uma novela!”

Diacho de diabo mais danado! Vive se metendo onde não deve. Tratei de afastá-lo de mim com um piparote… Mas, depois que ele sumiu, fiquei ali, meio que paralisado feito uma múmia de quatro mil anos… Até que despertei, fui correndo até a minha videoteca e peguei um filme de Douglas Sirk, o cineasta que, em Hollywood, tornou-se o rei do melodrama: ah, meu Deus, que glória, vou ver ainda hoje, pela milionésima duocentésima nonagésima vez… “Palavras ao Vento”! Sei de cor fotograma por fotograma deste filme, com destaque para a cena em que Dorothy Malone, enquanto o pai dela tem um troço, cai da escada e morre, no seu quarto dança um inesquecível mambo.

Eu queria muito que Heleninha Roitman fizesse o mesmo no dia em que soube da morte da mãe Odete em “Vale Tudo”, mas Gilberto Braga fingiu que não tinha saído de dentro de Douglas Sirk e bateu pé que não e não. Assim, fiquei com este mambo atravessado na garganta, até que 1001 novelas depois fiz Letícia Spiller, a Maria Regina de “Suave Veneno”, dançar um mambo de arrebentar. Já procurei esta cena da novela no Youtube, mas não achei, embora tenha achado outras desta minha trama cujo maior defeito foi ser avançada demais para a sua época… Mas não para Letícia. Grande atriz que é, ela entendeu logo que eu estava brincando com o melodrama, e compôs sua vilã com as tintas certas. Maria Regina tornou-se inesquecível, por isso vale a pena ver esses vídeos em que Letícia arrasa a mostra a personagem por inteiro. Relaxem, queridos… E apreciem!

Agora vocês me perguntam: “e quanto ao mambo de que você falou lá em cima?” Ah, esse tem no Youtube, sim, em duas sequências reunidas. Na primeira, Dorothy Malone dança mais socialmente – digamos assim – um mambo com Rock Hudson. E na segunda é que ela festeja feito uma desvairada a morte do pai num mambo alucinante. Atentem para o peignoir vermelho que ela veste para dar mais fuego à sua performance. Bons tempos aqueles em que os filmes, assim como as novelas, não tinham, graças ao meu bom Deus, o menor senso de ridículo.

Em tempo: por sua atuação em “Palavras ao Vento”, e principalmente pelo mambo, Dorothy Malone ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante de 1957, meu Deus, daqui a pouco faz um século! Vejam, no vídeo abaixo, o momento em que ela recebeu o prêmio das mãos de Jack Lemmon.

E já que estamos falando de Oscars, deixem que lhes diga que, em matéria deles, 1957 foi um ano glorioso. Não só porque o de melhor ator foi entregue a Yul Brinner por ninguém menos que a divina e também oscarizada italiana Anna Magnani (no vídeo abaixo)…

Como também porque o de melhor atriz foi para Ingrid Bergman em “Anastácia”. Ela, que durante muitos anos tinha sido uma das rainhas de Hollywood, foi banida de lá por ter “cometido adultério” com Roberto Rosselini. Teve que penar durante anos na Europa, fazendo filmes do marido (e pelo menos uma obra prima de René Clair, “Elena e os Homens”), até, como a filha pródiga que era, ser chamada de volta, arrasar num filme que, como os de Douglas Sirk, era puro melodrama – como podem ver no vídeo abaxo  - e retomar sua coroa de rainha que nunca mais perdeu até a morte.

Ingrid, claro, não foi lá receber o Oscar, não ia se dar a este desfrute, preferiu ficar em Nova Iorque. Quem o fez por ela foi o amigo e companheiro de vários filmes Cary Grant. Um deles, “Notorious”, de 1946, tinha cenas no Rio e Janeiro! Apreciem, no video abaixo, estas cenas, e saibam que os atores nunca vieram aqui, embora apareçam até sentados num banco da Cinelândia. Foi tudo feito com a tecnologia que o cinema podia usar na época. E como o cinema é pura magia, mesmo canhestro funciona até hoje.

Agora vocês me perguntam: o que foi que deu neste Zé Ruela, que hoje resolveu nos impingir esta velharia toda? É simples, queridos meus, é que já estou pensando em termos de novelista e para isso tenho que ir beber nas verdadeiras fontes que alimentaram e sempre alimentarão o gênero… O melodrama, aquele dos bons, que foi levado às últimas consequências, nos filmes e na vida real dos que os faziam, pelo cinema. The End!

Faça seu comentário