MINHAS MEMÓRIAS DO CÁRCERE

»Públicado por em fev 10, 2016 | 4 comentários

 

Todos esses que aí estão 
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

                                 (Mário Quintana)

Neste dia 10 de fevereiro fez 46 anos que  saí de uma temporada de 70 dias na prisão política da Ilha das Flores. O tempo passa, né não, Cabo (ou seja lá que diabo você for agora) Murilo? Por coincidência, há seis anos e no mesmo dia morreu Armando Falcão (com Geisel, na foto abaixo), uma das figuras mais sinistras daquela fase da história do país. Ele ainda não era Ministro da Justiça quando fui preso, mas já no cargo me processou duas vezes com base na Lei de Imprensa… Nenhuma delas pelo fato de que, numa certa noite de 1975, fiquei trancado durante várias horas no luxuoso gabinete que ele mantinha num banco no centro da cidade, sem que o segurança noturno, que se fechara lá comigo para uma conversa up close and personal, conseguisse lembrar, ao fim do nosso colóquio, onde diabos guardara a chave.

 Histórias de vida: são elas que transformam um escritor Zé Ruela qualquer num grande novelista. Histórias eu as tenho muitas: serei eu um grande novelista? A modéstia não me deixa dizer que sim, mas fico tranqüilo, pois sei que vocês, que curtem minhas histórias – e minhas novelas – nunca diriam que não. 

Armando Falcão se foi – embora numa determinada fase da minha vida eu tivesse a impressão que ele, e tudo o que representava de pior, não acabaria nunca. Eu também irei algum dia, mas, ao contrário do ex-ministro, que se recolhera desde 1979 ao silêncio absoluto, vos prometo:  antes de ir vou gritar e espernear muito. Pra comemorar o quadragésimo sexto aniversário da minha libertação, volto no texto abaixo ao momento em que fui preso… Pois a verdadeira História está é nas estórias, meus quereidos.

 

Em meados de 1968, a convite do editor Victor Alegria, escrevi para uma das muitas edições brasileiras do Diário de Che Guevara um prefácio a que dei o pomposo título de “A guerrilha não acabou”. O livro foi publicado pela Coordenada Editora, da qual ele era dono, e à qual eu prestava eventuais serviços, os mesmos que acabaram por me render o aluguel do sobrado onde morei na Lapa.

O livro ficou poucos meses nas livrarias: em dezembro foi promulgado o Ato Institucional no. 5, que, entre outras prerrogativas, dava às autoridades poderes para apreender livros e punir quem tivesse alguma coisa a ver com eles, até mesmo quem os guardasse em casa.

Boa parte da edição ainda estava com o editor quando o livro se tornou tão perigoso. Às voltas com as atribulações cada vez maiores da minha vida privada, nunca me preocupei em perguntar a Victor o que fora feito com os exemplares não vendidos do Diário. Achava que ele tivera o bom senso de descobrir um modo qualquer de destruí-los. Na verdade, com todos os riscos, o editor decidira guardar o que restara da edição, talvez achando, como outros brasileiros incautos demais na época, que o Ato 5 e a ditadura seriam apenas um vento rápido, ainda que inconveniente, que soprara com alguma violência sobre as nossas vidas.

Os livros ficaram escondidos num lugar que hoje eu acharia muito apropriado: um depósito de veneno para ratos que pertencia ao mesmo e infeliz dono do sobrado onde eu morava, no andar térreo da bira, a hospedaria gerenciada pelo espanhol Hernandez, bem em frente à minha casa. Os muitos exemplares formavam uma pilha enorme, como confirmaram os agentes do Centro de Informações da Marinha, o temível CENIMAR, que invadiram o local em seguida a uma denúncia anônima. Eram muitas as pessoas que deviam ser castigadas por causa deles – desde o pobre dono do depósito, um português que jurava não saber o que continham os pacotes empilhados, até eu.

Naquele dia, talvez porque estivesse numa fase em que só me preocupava com o que acontecia em torno do meu próprio nariz, nem desconfiei quando Peter Dante, um bailarino a quem eu recém sublocara um dos quartos do sobrado, comentou que notara um entra-e-sai estranho no depósito em frente. Em outros tempos, bastaria eu me debruçar na minha varanda, confirmar a informação de Peter e, sempre levando em conta o que ditava meu sexto e mais afiado sentido, me mandar. Mas então eu já estava em pleno processo de me estabelecer, preocupado com o horário, com a roupa apropriada com que devia comparecer ao trabalho na redação de O Globo – e foi assim que falhei.

Saí para trabalhar por volta de quatro da tarde, cumpri rigorosamente o meu expediente na redação e, ao regressar por volta de 11 da noite, quando percebi que a porta do meu quarto – que eu fechara a chave quando saí – estava entreaberta já era tarde mais para recuar.

O quarto fora arrombado, e lá dentro estavam dois homens. Um terceiro mantinha Peter e seu amigo Ricardo sob severa vigilância no quarto deles. Mal entrei, vi que já haviam revistado tudo, embora não houve muita coisa fora do lugar, a não ser uma foto minha, nu de corpo inteiro, que eu guardara dentro de um livro e agora fora colocada bem à vista, sobre a máquina de escrever. Um dos homens, de óculos escuros, perguntou se eu era fulano de tal, esse aí da foto, e eu confirmei. Vamos ter que levá-lo, explicou, num tom de voz sempre muito calmo. E não se dignou a responder quando perguntei para onde.

Sob os olhares de Peter e Ricardo, cuja muda aflição agradeci, morto de medo, me deixei levar pelos três homens. Fizeram-me entrar num fusca branco, que saiu em direção à Praça Mauá. Transcorridos quinze minutos, e tendo descido várias escadas e atravessado sinistros desvãos nos quais nossos passos ecoavam como num cenário de filme sobre prisioneiros dos nazistas, me vi diante do Comandante Sarmento, como o identificava uma plaqueta no peito, numa sala dos porões do Ministério da Marinha.

O Comandante Sarmento parecia com o ator Peter Sellers no filme Dr. Fantástico. Isso quase me provocou um acesso de riso, mas graças aos céus me contive a tempo. Porque, como me informaram depois, rir diante de Sarmento, ainda que da minha própria desgraça, me seria fatal. Ele recebeu-me de pé, diante de um pôster enorme de Mao Tse-Tung colado na parede ao fundo. Enquanto os três homens se postavam num canto, retirou de uma gaveta um exemplar do Diário de Guevara; abrindo-o na primeira página do prefácio, perguntou, me olhando dentro dos olhos:

- O senhor diz aqui que a guerrilha não acabou. Baseado em que informações pode afirmar uma coisa dessas? O que o senhor sabe sobre a guerrilha que nós ainda não sabemos?

Sem atentar para a gravidade de tudo – achava que antes de sair dali seria no máximo submetido a um interrogatório que incluiria alguns vexames, tentei explicar que o título não era afirmativo, o sentido era figurado, uma brincadeira, talvez demasiado sutil, com o título de um filme de Alain Resnais (A guerra não acabou) de grande sucesso na época…

Mas a reação do Comandante Sarmento me fez emudecer. Tirou da mesma gaveta vários dardos, avançou em minha direção como se pretendesse cravá-los no meu peito e, após alguns segundos em que me petrifiquei de pavor, deu meia volta e os lançou um a um, com redobrada fúria no retrato de Mao, acertando todos no seu rosto.  Depois encarou-me com um olhar de pedra e me comunicou que eu estava preso e seria processado de acordo com o Ato 5, por ter escrito  esse monte de merda.

- Mas o livro foi publicado antes do Ato 5 – argumentei -, e este não prevê punições retroativas…

Ao que o comandante, depois de olhar dentro da gaveta e se certificar de que lá não havia sobrado nenhum dardo com que pudesse – agora sim – me fulminar, respondeu:

- Nesse caso você não vai ser processo… Mas vai ficar preso!

E fez um gesto para os três homens. Um deles saiu, e logo voltou com uma fila de garbosos fuzileiros. Um destes me colocou um par de algemas nos pulsos, outro me segurou pelo antebraço e me guiou como faria com um cego. Eu e minha escolta já íamos no meio de um interminável corredor que nos levaria a um ancoradouro e um barco quando o Comandante Sarmento gritou o meu nome. Voltei-me e ele disse muito sério:

- Cuidado, hem? Não vá atacar meus fuzileiros…

E sua risada ainda ecoava nos meus ouvidos quando entramos no barco que nos levaria – soube depois – ao presídio da Ilha das Flores, na época um dos templos da tortura, e hoje (na foto abaixo) apenas um museu que não tem nada a ver com esta fase em que foi um presídio.

 

Não posso evitar: certo pudor me acomete, agora que escrevo sobre minha prisão durante a ditadura. Sinto vergonha por meus carcereiros, principalmente pelo Comandante Sarmento, cujos dardos, todos encravados com certeira pontaria em torno do nariz de Mao Tse-Tung, me fizeram baixar os olhos, para que ele não percebesse o meu constrangimento. Esta deve ser mais uma das minhas falhas de caráter: mas o fato é que a violência, antes de me causar revolta, me faz sempre ficar envergonhado e com pena de quem a pratica. Foi por puro constrangimento que durante vinte anos evitei falar sobre essa ocorrência na minha vida – só escrevi sobre ela uma vez, no jornal Lampião, do qual fui editor.

Enquanto o barco atravessava a baía de Guanabara, sob o olhar impávido dos fuzileiros que o Comandante Sarmento parecia ter escolhido a dedo para me escoltar, não pensava no que ia me acontecer, nem mesmo me preocupava com a violência que me engolfara. Fixava-me apenas no fato de que tinha que descobrir um meio de me livrar daquilo tudo o mais depressa possível para poder continuar cuidando da minha própria vida.

Mas a verdade é que minha libertação seria dificultada pelo fato de que não havia razão nenhuma para eu estar preso, e o Comandante Sarmento sabia disso quando me mandou para a Ilha das Flores – seu objetivo era pura e simplesmente me punir por algum tempo. Por isso ficaria lá durante 70 dias, completamente esquecido pelos meus carcereiros, que ignoraram todos os meus apelos para falar com alguma autoridade, até que alguém se lembrasse de dar fim ao castigo e me soltar… Mas não sem que eu tivesse que passar por todas as humilhações de praxe.

                                                                                                                                                                                                                                                                                         (trecho do livro Lábios que Beijei, de minha autoria)

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MIL PALHAÇOS NO SALÃO

»Públicado por em fev 8, 2016 | 20 comentários

 

 

“Qual a razão dessa alegria tão exagerada dos brasileiros?” Meu hóspede canadense me pergunta enquanto vê mais um bloco passando lá embaixo na Avenida Atlântica. E, sinceramente? Eu não sei o que responder.

 

 

Se você mora em Copacabana, ainda mais na Avenida Atlântica, não tem saída: em certas datas festivas, por mais que isso o incomode, tem que bancar o cínico, receber convidados e fingir que está muito feliz por causa disso. É o que acontece comigo no Réveillon… E agora, neste carnaval em que escrevo aqui no décimo-primeiro andar enquanto mais um bloco – dos milhares que andam a se esgoelar por aí – passa lá embaixo.

Debruçados na varanda, meus convidados se esmeram na alalaô enquanto consomem caipirinhas que Dona Dida, minha secretária doméstica, prepara com perfeição, mas sob protesto, já que a religião dela não permite consumo de álcool. Eu, sempre com o mesmo sorriso alvar, permaneço à parte.

“Vem ver” – diz meu hóspede canadense -. “É um bloco só de homens vestidos de mulher!”

E quando me aproximo fingindo que estou interessado no que acontece lá embaixo, ele me pergunta, enquanto olha aqueles homens a saracotear e dançar na boquinha da garrafa como se não houvesse mais amanhã:

“Por que tantos gays aqui no Brasil usam barba?”

Dou uma olhada no bando de bofes travestidos que passam no auge da animação na Avenida Atlântica e lhe explico:

“Não são gays, pode ser até que haja algum disfarçado no meio da multidão, mas aqueles ali são na maioria quase absoluta heterossexuais”.

E o canadense dispara: “mas então, por que se vestem de mulheres, what´s the meaning, qual é o significado?” Eu respondo na bucha que, bem, homens heterossexuais se vestir de mulher e sair por aí a dar pinta é uma tradição do carnaval brasileiro que existe desde…

Paro, perplexo e pergunto a mim mesmo: desde quando existe este costume de senhores respeitáveis se vestir de mulher no carnaval e sair por aí a dizer – “meu nome é Maria do Carmo?” Quem, como, quando, onde e por quê? Mesmo sendo o jornalista que sou não consigo responder a nenhuma dessas perguntas para as quais meu hóspede canadense exige resposta… Por isso apenas lhe respondo que não sei qual é the meaning, o significado dessa prática, mas que, a julgar pela quantidade de homens que a praticam, deve ser muito saudável e divertida.

 

Lá embaixo a gritaria aumenta. Eu e meu hóspedes olhamos e vemos o que acontece – os Maria do Carmo, soltando gritinhos histéricos, improvisam um trenzinho que, ao som de Olha a Cabeleira do Zezé serpenteia pelo calçadão como se fosse parte de uma orgia digna daquelas dos banhos públicos do Império romano.

Meu hóspede canadense, que não por acaso é sociólogo-antropólogo com vários livros publicados, enquanto olha a orgia de mentirinha lá embaixo, deixa escapar um comentário:

“O brasileiro é um povo muito triste”.

Reajo: “como é que você pode dizer uma coisa dessas vendo aquela alegria toda lá embaixo?”.

E ele responde: “aquilo não é alegria, é depressão. Vocês brasileiros se esgoelam o tempo todo para demonstrar o contrário, mas são todos uns deprimidos”.

“Curuzes!” – diria neste momento Téo Pereira, o blogueiro malvado da novela Império. Eu, mais discreto, me pergunto: “será mesmo?” E vocês, caros leitores, por favor, me respondam: por que o brasileiro é tão absurda e exageradamente alegre, mesmo quando em torno dele, como acontece agora só existem razões para sentir decepção, raiva, descontentamento e tristeza? Será por que somos um povo abençoado por Deus… Ou irresponsável?

 

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ELE É O CARA!

»Públicado por em jan 29, 2016 | 9 comentários

.Se chorei ou se sorri, o importante foi ter passado um dia no transatlântico italiano Costa Pacífica, visto um show belíssimo de Roberto Carlos, saído com a alma lavada,  uma rosa branca numa das mãos e uma flute de champagne, com o monograma do Rei, na outra. E o melhor: que ele está empolgadíssimo e, com a certeza, logo logo virão discos novos em português, espanhol e italiano. Nem preciso repetir o velho bordão de que foram muitas emoções! Desde o momento em que a equipe do ASDigital foi convidada  a participar da entrevista coletiva, de um jantar e da apresentação do cantor no navio ancorado na Praça Mauá, no Rio, deu-se a ansiedade. Eu e o fotógrafo Francisco Patrício procuramos entender o que levou cerca de 1,5 mil de pessoas à 12ª edição do Projeto Emoções em Alto Mar, realizada entre São Paulo e Rio, de 20 a 24 de janeiro. Embarque nessa viagem conosco – mesmo que em terra firme – e saiba todos os detalhes.

 

entrevista: Simone Magalhães

fotos: Fco. Patrício

 

NÓS CHEGAMOS EM FRENTE AO PORTÃO

Numa quinta-feira com chuva fina, céu pesado, aportamos no Pier Mauá com medo de um temporal. Esperamos pelos outros profissionais de imprensa, e quando todos chegaram, passamos por um funcionário da Alfândega (afinal, o Costa Pacifica é de bandeira italiana). Tudo certo. Documentos ok. Na segunda etapa, esperamos numa sala, mostramos mais uma vez a identidade para receber crachás, passamos no Raio X (como os dos aeroportos) até, finalmente, dar de cara com o poderoso transatlântico.  Para reforçar a segurança, já na entrada do navio, mais uma vez confirmamos que éramos nós mesmos. Ufa! Estávamos dentro.

Só posso dizer que minha primeira impressão foi ver uma mistura de Disney com Vegas. Muitas cores, variações de estilos na decoração (pendendo mais para art deco e art noveau), tudo fazia lembrar música, festa.  As portas dos três elevadores panorâmicos tinham como pintura um violoncelo, que se abria ao meio quando parava em algum dos 12 andares.  Pelos corredores onde passamos vimos o Cassino Flamingo, com dezenas de máquinas, o Piano Bar Rick´s (toque outra vez, Sam!), o Grand Bar Raphsody  até chegar ao restaurante New York, New York, às 15h40, para um lanche antes da entrevista com RC. Duas mesas enormes com sanduíches que mesclavam frios, alface, pepino, salmão e uma pasta deliciosa, além de refrigerantes, chás gelados e água mineral. Isso diante de uma vista sensacional do Cristo Redentor, da Ilha Fiscal, do Museu do Amanhã…

 Eu e Patrício aproveitamos o tempo que nos restava antes da coletiva para registrar o bar Wien Wien (interpretada lindamente por Plácido Domingo), e conversar com uma garçonete que servia os coquetéis aos passageiros. Simone Bezerra, que há cinco anos trabalha embarcada, contou que fez faculdades de fisioterapia e de enfermagem, mas que o navio lhe proporcionava “uma vida financeira melhor”. “Em geral, trabalho oito, nove meses, e depois vou visitar a família, em São Paulo. Vale muito a pena, não só pelo dinheiro como pela cultura que cada viagem agrega”, conta ela, que atende aos passageiros em seis línguas diferentes. “Mas estou pensando em parar. Já tenho 42 anos, não dá pra competir com uma menina de 20”, observou Simone, que passa o dia inteiro em pé. Dinheiro bom, mas vida dura.

É HORA DE DESABAFO

Caminhamos em direção ao Teatro Stardust, com capacidade para 1,2 mil pessoas. E ele estava lotado… de fãs! Isso mesmo. As coletivas com Rei no Projeto Emoções em Alto Mar englobam seus súditos. E colegas que já haviam estado em outras edições deram os toques: “Cuidado com o que vai falar”, “Os fãs gritam e vaiam se não gostarem da pergunta”, “Eles interrompem, tentam atrair a atenção do Roberto o tempo todo”. Achei  isso, no mínimo, inusitado. Mas vamos lá. Pelo menos a área dos jornalistas, na frente do palco, estava cercada por cordas de segurança.

De repente, os gritos que ouvi não foram para calar a boca. E sim, de “Simone!, Simone!”. Era uma vizinha de infância, amiga da minha mãe. Do outro lado do Stardust, em meio a uma confusão tremenda, Margarida perguntava se eu estava  trabalhando. “Eu tô me divertindo!”, assegurou ela, com ar de quem estava realizando um sonho. Deixamos para conversar depois, mas não nos reencontramos. E logo aparece Eri Johnson, como mestre de cerimônias para agradecer a presença de  todos, pedir que o “público” da coletiva mantivesse o silêncio, e chamar: “Com vocês: Roberto Carlos!”. E ele chega ao palco acompanhado de seu empresário, Dody Sirena.

As perguntas são as mais diversas, mas a maioria focada na vida afetiva. Se ele sentia vontade de ter mais filhos – “Mesmo que quisesse, fiz vasectomia há tempos”. Se estava de romance com sua vizinha, se ela seria a próxima rainha – “Não sei de onde tiraram isso, nunca mandei flores pra ninguém. Eu cumprimento todo mundo quando chego… Mas essa história não tem fundamento”, afirmou. “Estou solteiro. Não casei ainda…”, brincava, acrescentando que não tinha nada contra o casamento. “Mas também não tenho nada contra solteirice”. E as fãs gritavam, vaiavam, assobiavam… As senhorinhas – a maioria entre 60 e 80 anos – morrem de ciúmes do ídolo. Com o bom humor que resistiu aos insistentes questionamentos sobre com quem está envolvido, o cantor ouviu, depois, uma jovem repórter, dizendo-se “muito nervosa”, comentar que muitas mulheres gostariam de ficar com o ídolo e, se fosse o caso, quanto ele cobraria por seus óvulos! O teatro veio abaixo em gargalhadas. O entrevistado segurou um pouco, mas não conteve o riso. Depois de um tempinho, ele foi um gentleman: “Dependendo de quem seja dou de graça”.

  O que ficou de mais importante da entrevista é que Emoções em Alto Mar pode transformar-se em Emoções no Nordeste, ano que vem. Dody explicou que era caro manter as viagens marítimas, todos os custos são em dólares, e que ele estava negociando o projeto em terra firme. “Mas de frente pro mar!”, interrompeu o cantor, rindo. Como mais de 45% dos passageiros nordestinos computados nas viagens, os cinco dias com RC têm tudo para acontecerem em um resort num estado do Nordeste, com o mesmo número de atrações e preços menores. Outra coisa: Roberto vai gravar um disco com oito músicas inéditas – mas nem tanto: tem Esse Cara Sou Eu e Furdúncio. Das quatro canções que faltam, ele garantiu que, pelo menos, três serão com o “querido parceiro e irmãozinho Erasmo Carlos”. Além disso, o Rei anda com saudades de gravar músicas em espanhol e italiano, e espera fazê-los logo: “Tem gente que adora quando eu digo que gosto de trabalhar, principalmente o presidente da Sony” (risos).

Meu Cadillac!

Quando perguntaram sobre a autobiografia que o cantor vem escrevendo, há mais de um ano, ele garantiu que está adiantada, e fez um pedido: “Acho que vocês devem esperar por ela. Na minha biografia estarão muitas coisas que não constam nas de outras pessoas”. Interessante que antes de deixar o palco, ele tornou a frisar que esperassem pelo livro – “Não se esqueçam disso: leiam o meu primeiro!”. E a maioria das fãs gritou: “Pode deixar!”, “Vou comprar!”.  Será que vem alguma revelação por aí?

Segundo Dody Sirena, o programa deste fim de ano na Globo promete ser uma superprodução, num cenário bem diferente dos anteriores. Tanto que o cantor já planeja se reunir com o diretor geral J.B. Oliveira, o Boninho, no Projac, para tratarem dos detalhes. Além disso, o projeto Emoções gravado em Jerusalém e Las Vegas também será produzido no Brasil, mas ainda sem data marcada.

   Ao falar sobre as comemorações de seus 75 anos, em abril deste ano, Roberto brincou: “Escolhi Cachoeiro de Itapemirim (cidade natal, no Espírito Santo) para festejar os meus 57 anos (risos). Vai ser uma festa muito boa, é sempre uma alegria voltar lá”. Uma repórter colombiana perguntou o que ele fazia no navio quando não estava se apresentando nos shows: “Durmo!(risos) Vou ao cassino uma ou duas vezes; ao karaokê, que é muito legal; dou entrevista coletiva; como; bebo… Igual a todo mundo (mais risos)”.

Cassino a bordo!

Para quebrar um pouco o clima leve, perguntei a ele, como ecologista preocupado principalmente com o mar, o que achava da lama tóxica se espalhando, e com os rejeitos de minério que invadiram o Rio Doce. Conjugando à primeira pergunta quis saber o que ele acha do Brasil, caótico em tantos setores, neste momento.

- Essa lama tóxica é inadmissível! Isso não poderia acontecer de jeito nenhum. E quanto mais que tem a ver com negligência, isso é ainda pior. Quanto à crise, sabemos que é generalizada, não é apenas aqui, são vários países passando por isso. Sou muito otimista, já ocorreram crises no Brasil em outras épocas, talvez não tão difícil quanto a atual. O nível de corrupção é uma coisa absurda. Tem que mudar tudo!

Complementei aos brados, já sentada na poltrona e sem microfone: “E por onde acha que deve começar a mudança?”. Ele ouviu e respondeu: “Tem que começar pela corrupção. Quem está fazendo mal ao Brasil não deve ficar nele!”, exclamou, enfático. Escapei do puxão de orelha das fãs, e acabei sendo unanimidade: todas bateram palmas e gritaram. Roberto foi gentil, mais uma vez, e me agradeceu pela pergunta. Mandou um “obrigado” a Aguinaldo Silva. Depois da coletiva, encontramos Dody Sirena, que comentou quanto o cantor gosta das novelas do dono deste espaço.

 

Simone Magalhães solicita a opinião de Roberto Carlos sobre os recentes desastres ecológicos.

Simone Bezerra, 42 anos, garçonete.

VOU PEDIR O JANTAR

 A chuva prometida pelas nuvens pesadas não caiu. O tempo melhorou, abriu até um solzinho. E lá fomos nós ver as belezas do Costa Pacifica. Academia moderníssima, salas de massagens de todos os tipos, salão de beleza concorridíssimo, loja de perfumes importados – tudo trabalho no dourado – e nichos com estátuas de corpos femininos cobertos por cristais, pedras semipreciosas. Tudo muito chique.  Já o tobogã altíssimo – deu tontura só de subir até onde ele começava, quase no bandeira do navio (exageros, à parte). Mas as pessoas amam descer junto com aquele filete de água. Como o tempo melhorou, os passageiros correram para as piscinas. Muito chapelão de treliça de palha, cangas multicoloridas e, dez entre dez, usando Havaianas (tinha uma toda bordada de pérolas). E fotos, muitas fotos. Não tinha como não fazê-las: era muita informação.

Começamos a descer pela escada para observar tudo. Foi quando ouvimos um piano no terceiro andar, onde aconteceria às 21h o jantar. Ao entrar no elevador conhecemos a mineira Natália, de 58 anos, separada depois de 40 anos de casada, que, num momento de arraso total resolveu dirigir suas atenções ao ídolo Roberto Carlos. Ela queria que nós a ajudássemos a entregar uma placa de ouro relacionada à criação de gado Nelore (que RC também gosta), e outra, no mesmo metal (olha só!), com os símbolos de cintos dos vaqueiros. Depois de contar sua vida – e eu já gosto de ouvir… – pedimos que ela voltasse na hora do jantar, que procuraríamos a pessoa certa. E fomos sentar perto do restaurante My Way e do pianista, que era, sem brincadeira, igualzinho ao desenho da capa do Pequeno Príncipe, só que bem mais velho. E não é que de repente começamos a ver melindrosas, passageiros com máscaras de Veneza, plumas, uns com roupinhas coloridas e sombrinha de frevo, dois cowboys, outra que acreditava piamente que era Gilda (da Rita Hayworth). Não dava para entender.  Até que sentou-se um casal paraguaio à nossa mesa, com roupas típicas, bem exuberantes, e nos contou que era a noite  pré-carnavalesca no navio. Muito eloquente, o rapaz, Jorge Escobar, é apresentador do programa Tu Día de Suerte, na Rede Guarani, em Assunção. E desandou a falar sobre política e economia brasileiras. Suerte nossa que tiraram o Pequeno Príncipe do piano e colocaram um DJ com animadores de festas para dançar Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha, Camaro Amarelo e Lepo Lepo. Nos despedimos dos paraguaios e fomos ver, da escada, os fantasiados, as de longos brilhantes, os de sunga de piscina imitando as coreografias dos GOs (gentis organizadores), num mundo à parte. Foi uma delícia ver aquele espetáculo!

 

Como Natália, a das placas de ouro, não apareceu, entramos no My Way. Nosso destino foi o jirau dividindo a mesa com mãe e filha fanzíssimas do Rei. Conversa agradável, contando a vida (adoro de novo!), mas, de repente, uma movimentação fez a mãe perguntar à moça como era o nome daquele comediante sentado na parte de baixo do restaurante. Ela queria pedir autógrafo, mas não sabia o nome do artista. Era Marcius Melhem. Em seguida, começaram a chegar as celebridades: Padre Antônio Maria (que reza missa no Costa Pacifica); Ary Fontoura; Daniela e Diego Hypolito; Zezé Di Camargo e a namorada, Graciele Lacerda; Monica Iozzi; Luana Piovani; Betty Faria (de madeixas grisalhas); Leda Nagle; José de Abreu; Tom Cavalcanti e Carlinhos de Jesus (que se apresentam no navio também); e Daniel Oliveira com a gravidíssima Sophie Charlotte. Eles aproveitaram para comemorar no jantar do navio os 8 anos de Raul, filho mais velho de Daniel com Vanessa Giácomo, cantando Parabéns pra Você. E, aí, aquela situação de sempre: muitas selfies, assédio e interrupções de jantares. Mas todos aceitaram numa boa.

Zezé Di Camargo e as Passistas da Beija-Flor de Nilópolis

Por falar em jantar… O menu daquele dia, assinado pelo Chef Francesco Fiore, era primoroso. Possibilidades de antipasto: Presunto toscano e melão cantaloupe, Bolinhos de bacalhau e Tartare de abacaxi com cebola roxa e pimenta. Como primeiro prato: creme de cogumelos, Tagliatelle à bolonhesa e Risoto ao vinho Chiante. No segundo prato tínhamos: Salmão grelhado ao molho de manga, Cupim assado servido com feijão branco, Pato assado ao molho de laranja (com arroz negro) e Tofú  “peposo” com polenta. E, finalmente, para a sobremesa: Mil folhas com calda de Zabaione (estava dos deuses!), Rocambole de doce de leite ao estilo brasileiro, Mousse de  morango com creme de baunilha (sem adição de açúcar), sorvetes e fruta. A bebida poderia ser vinho, refrigerante, chá gelado ou água mineral. E ainda teve uma surpresinha no final: quatro belas passistas da Beija-Flor mostrando suas habilidades pelos dois salões – descendo e subindo escadas com samba no pé –  tendo ao fundo o enredo que homenageou Roberto Carlos, em 2011. Um frege!

O SHOW JÁ COMEÇOU

Mal entramos no Stardust  - tão lotado quanto na hora da coletiva, mas dessa vez era puro glamour nos vestidos e penteados – vimos Adriana Birolli com seus pais, tirando selfies, a mãe passando a mão nos cabelos da filha, tudo muito amoroso. A maioria dos famosos ficaram na parte de cima do teatro. No corre-corre pra sentar, eu busquei dois lugares interessantes, ao lado de uma pilastra enorme, onde o Patricio poderia fotografar de pé sem incomodar os espectadores, e sentar-se quando quisesse. À minha direita uma fila de senhoras da melhor idade, emocionadas, mas determinadas. Uma delas mandou por mim um recado ao Patricio: que era melhor ele sair dali, no final da apresentação, porque ela iria pular por cima dele para pegar a rosa na frente do palco. Recado transmitido, apesar da descrença que houvesse a possibilidade do tal pulo.

Eu confesso que estava apreensiva. Explico: já fui a três ou quatro shows de RC, sempre a trabalho. Sempre gostei do repertório, cantarolava, mas nunca me emocionou a ponto de chorar, como aconteceu depois da morte de minha mãe, fã número zero do cantor. Quando o maestro Eduardo Lage entrou no palco e a orquestra começou com Como É Grande o Meu Amor Por Você, e, logo depois, Roberto interpretou Emoções, com uma iluminação de tirar o fôlego, comecei a baquear. “Que prazer rever vocês. Aqui no Costa Pacifica, nessa nave que amamos tanto. Vamos dormir juntos sob o mesmo teto (gritos das senhoras da plateia: “No mesmo quarto!”). Mas sob o mesmo teto já uma coisa maravilhosa!”, brincou.

Mas, de repente, entra a pergunta Como Vai Você?. Roberto Carlos estava inspirado naquela noite. Tinha mais sentimento do que o habitual na voz. Nem precisa dizer que minhas lágrimas rolaram discretamente. Numa sequência, ele cantou Além do Horizonte e Ilegal, Imoral ou Engorda. Depois mais emoção. Ao começar a dedilhar no violão os primeiros acordes de Detalhes, RC falou: “O verdadeiro amor ninguém diz verdadeiramente que se foi. Porque quando se ama verdadeiramente o grande amor sempre será”. E entrou com Detalhes, depois Outra Vez (preferida da minha mãe). No final da música, ele poetizou: “Amor não devia rimar com dor, mas tem que respirar fundo e saber até onde o coração aguenta”. Cantou Eu te Amo, ao que os fãs respondiam a cada repetição do refrão: “Eu também”. E os efeitos de iluminação cada vez mais lindos. Eu olhava os rostos e as pessoas já não cantavam nem choravam (não fui só eu…): pareciam sideradas.  Sob um céu de estrelas de led, RC comentou: “Se eu tivesse que fazer uma declaração de amor para conquistar alguém, provavelmente diria a letra dessa canção”. E com um arranjo maravilhoso, interpretou Minha Namorada, de Carlos Lyra. Enlevou ainda mais o público, que foi voltando da “viagem” com o Calhambeque e trechos de parcerias com Erasmo (Eu Sou Terrível, Taxista, Curvas da Estrada de Santos, Caminhoneiro, Por Isso Eu Corro Demais, Parei na Contramão e O Cadillac).

Eis que chega o momento da música italiana. Roberto escolheu Tu Sei Così, de Fred Bongusto, e explicou o porquê: “Mil Novecentos e Setenta… Ali aprendi muito. Tudo que existe nessa cancione é maravilhoso”. E os dois telões ao lado do palco passaram a reproduzir a versão em português, que é linda também. Para minha surpresa, a seguinte foi uma música que adoro e que ele não interpreta com frequência, Cavalgada. Cantei com gosto.     

Salão Nobre do Restaurante

O show entra na reta final, com Você Pensa, Esse Cara Sou Eu e outra italiana, Champagne, de Peppino di Capri. Nesse momento, surgem nos corredores do Stardust várias garçonetes servindo champagne em flutes – com o monograma RC – para toda a plateia. Numa reação natural as pessoas foram se dirigindo à frente do palco para brindar o encontro (como diz a canção) com seu ídolo. Num impulso resolvi ir também. Roberto Carlos começou a brindar, passando rapidamente pela maioria das pessoas que estavam mais próximas.

Jesus Cristo, eu estou aqui! Era a senha para terminar o espetáculo, e tentar ganhar a tão famosa rosa do Roberto. Como não bebo, joguei a champagne numa taça vazia, que haviam deixado por ali, e guardei a minha na bolsa. Naquele momento, eu queria mais do que tudo ganhar uma rosa. E imaginei que se me visse com a taça e lembrasse de ter brindado, poderia não me oferecer a flor.

Ele saiu e voltou rapidamente com a farda e quepe brancos, cantou Comandante do Seu Coração, e começou a distribuir as rosas, brincando com todo mundo que estava perto. Já estava na última dúzia, mas continuava na expectativa. Quando Roberto Carlos olhou pra mim, beijou a rosa branca e me entregou, só pensei na minha mãe. Eu estava ali recebendo por ela. Uma emoção só, mas valeu por tantas. Saí de lá aos prantos, num misto de saudade e felicidade.  

A Jornalista do AS Digital exibe, orgulhosa, a rosa ofertada pelo Rei Roberto.

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A GRANDE NOITE DA CASA

»Públicado por em jan 28, 2016 | 3 comentários

 


Foi uma grande, inesquecível noite, a inauguração oficial do cine-teatro da Casa Aguinaldo Silva de Artes, em Petrópolis, com a leitura da peça “Homens não menstruam”, de Regiana Antonini e Vinicius Marquez. Marcelo Serrado e Monique Alfradique se revezaram nos vários papéis, enquanto Regiana e Jorge Rossi liam as rubricas e o auditório, superlotado, morria de rir com as falas cortantes e as situações inusitadas dessa comédia ácida. As leituras de peças na Casa acontecerão sempre na última terça-feira de cada mês.

Marcelo Serrado e Monique Alfradique foram as estrelas da noite.

Regiana Antonini, um dos autores da peça, e Jorge Rossi coadjuvaram as estrelas. Os dois são os responsáveis pelo projeto Terças em Cena, que se repetirá, com novos textos, nas últimas terças-feiras do mês no cine-teatro da Casa Aguinaldo Silva de Artes.

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TE VEJO NO CEMITÉRIO

»Públicado por em jan 27, 2016 | 9 comentários

 

Se tivesse que escolher agora um epitáfio para o meu futuro túmulo, não hesitaria em fazê-lo. Ele adorava uma encrenca: é esta a frase que gostaria de ver escrita na minha lápide, de preferência em letras góticas. Assim, talvez fizesse justiça ao número cada vez maior de pessoas para as quais não passo de um encrenqueiro.

 

O problema é que não consigo ficar de mas-mas sobre nenhum assunto. Mesmo sobre os mais triviais, como o excesso de sal no bacalhau a lagareiro, digo sempre o que penso, que nesse caso é: “está salgado!” Quando eu era um pouco mais jovem do que sou até conseguia disfarçar minha sinceridade com algumas caras e bocas. Mas agora que a impaciência da idade se sobrepõe aos pruridos, ficou mais difícil. Assim, digo sempre o que penso, mesmo que isso me angarie mais algumas dúzias de inimigos.

Nos últimos dias, em que ando estressado por conta de problemas surgidos nos meus empreendimentos, esta minha sinceridade – ou impaciência – ficou mais evidente. Em certas ocasiões limites faço comentários tão ácidos que deixo meus interlocutores abismados. Beiro a falta de educação e às vezes até a ultrapasso e me torno grosseiro e mal educado. Por isso, aproveito este espaço para pedir desculpas a todos… E dizer que não vou mudar – estou velho demais para isso.

Mas eu falei em túmulo? Então preciso dizer a vocês que sou um contumaz frequentador de cemitérios… Mas não como defunto, é claro, já que estou bem vivo; apenas como curioso. A assim chamada arte tumular me fascina. Hoje em dia os que sobrevivem aos mortos a praticam menos, mas antigamente… Cada túmulo tinha que ser um monumento. Por exemplo: esqueçam a favela que vem descendo ladeira abaixo rumo aos primeiros defuntos e façam uma visita ao Cemitério São João Batista, ali em Botafogo. Lá vocês encontrarão preciosos exemplos dessa arte tumular, cujo objetivo principal era acrescentar algum tipo de sobrevida aos mortos.

De vez em quando vou lá no São João Batista e passeio por suas alamedas em busca dos meus túmulos preferidos. Certa vez, com um amigo escritor, fizemos o percurso, até que, cansados, sentamos numa tumba e lá ficamos a falar sobre a precariedade da nossa profissão… Até que, ao nos levantarmos, nos demos conta de que estivéramos sentados sobre o túmulo de Lima Barreto, aquele que, de todos os nossos escritores, talvez seja o que teve a vida mais precária.

Ah, os cemitérios que visito sempre… O da Recoleta, em Buenos Aires, que pontualmente, a partir das 11 horas, é invadido pelo cheiro inebriante da carne que começa a ser assada nos braseiros próximos… Ou o Père Lachaise, em Paris, de onde tiveram que  retirar o túmulo de Jim Morrison, dos The Doors, por causa da multidão de freaks do mundo inteiro que insistiam em ir lá conversar com ele e lhe pedir conselhos mesmo sabendo que o coitado estava morto e enterrado,como acontece na foto abaixo, tirada antes que ele deixasse sua última morada sabe-se lá para onde.

 

 

Mais que um cemitério, o Père Lachaise, é uma espécie de Disnaylandia, onde multidões acorrem para visitar os túmulos daqueles que um dia foram famosos e assim continuam até hoje, mesmo depois de mortos. O de Oscar Wilde, por exemplo (na foto abaixo), é uma monumental obra art deco na qual virou moda dar beijos de baton… E estes foram tantos que estavam correndo o mármore, pelo que tiveram que colocar uma cerca protetora em torno dele.

 

 

Ou seja: além de guardar o que restou dos mortos, os cemitérios, com sua arte tumular, são grandes monumentos em que os mortais ainda vivos tentam provar a si mesmos que, quando se vão, ainda assim ficam por aqui mais um pouco.

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TEATRO COM PORTAS ABERTAS

»Públicado por em jan 26, 2016 | 8 comentários

 

Hoje tem espetáculo!

Eu tive um sonho. E nele havia uma Casa de Cultura que funcionava a mil, 24 horas por dia, sete dias por semana, batalhando para se tornar um foco de agitação cultural. Foi deste sonho que surgiu a Casa Aguinaldo Silva de Artes, em Petrópolis… E é nela que este meu sonho está se tornando realidade. Hoje inauguramos oficialmente o nosso cine-teatro, com a leitura dramática de uma peça de teatro da qual as estrelas, além do texto, serão Marcelo Serrado e Monique Alfradique, dois caros amigos, sempre dispostos a colaborar conosco. Vai ser uma bela noite. Os petropolitanos reagiram com entusiasmo ao evento, tanto que a lotação já está esgotada… Mas sempre se poderá acrescentar uma cadeira extra à platéia se você que me lê decidir aparecer de última hora. A verdade é que, inaugurada nos últimos dias de novembro, e apesar de alguns percalços que serão resolvidos no devido tempo, a Casa, como a chamamos, já caiu no gosto dos petropolitanos além de, nos fins de semana, atrair visitantes do Rio e turistas de passagem pela cidade. Hoje à noite teremos mais uma prova disso… E aproveitamos para lembrar aos que comparecerem ao evento que, ao final deste, o restaurante Comendador Silva estará aberto para o jantar daqueles que desejem prolongar a noite.

Ótimo espetáculo!

Uma sugestão para o jantar no restaurante? Um dos magníficos pratos de bacalhau (um deles abaixo) que o chefe Sebah Peixoto prepara com toda a sua arte.

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QUEM É O MAIOR AUTOR?

»Públicado por em jan 23, 2016 | 13 comentários

 

 

Durante uma entrevista a uma jornalista aqui de Lisboa ouço uma pergunta capciosa, sim, mas que insiste em não querer calar: “O senhor já ganhou dois Emmys. Em sua opinião, qual o melhor novelista do Brasil?”

Minha resposta? Faço uma sequência de “ahs” e “uhs” e enveredo pelo caminho do nem sim, nem não, antes, porém, pelo contrário: digo que novela é trabalho de equipe, que um autor não tem seu trabalho plenamente realizado se não contar com diretores e elencos afiadíssimos e mais todo um pessoal do back stage louco pra mostrar bom serviço, além de muita sorte e um público cheio de boa vontade… E sigo em frente.

“Na verdade o trabalho do autor de telenovelas não é tão solitário como dizem. Ele interage o tempo todo com dezenas de pessoas, sem contar com os milhões que são o público… Ao contrário, por exemplo, do autor de livros. Este sim, é um solitário, que só depende de si mesmo para encontrar a palavra, a frase exata, além do tom, do tema, do”/

E a repórter portuguesa não me deixa ir adiante e tasca uma nova pergunta capciosa:

“Então, vamos deixar de lado o terreno limitado das telenovelas e ir mais fundo: quem o senhor acha que é, neste momento, o maior escritor do Brasil?”

Caramba! – penso com meus botões: agora é que me engasguei mesmo. Houve um tempo em que a essa pergunta eu responderia na bucha: Clarice Lispector, ou então: Guimarães Rosa (os dois nas fotos aí em baixo). Num tempo anterior eu até falaria de José Lins do Rego, Graciliano Ramos, quem sabe do Jorge Amado de Tieta e Gabriela… Mas agora?!

 

Você aí que está a ler essas mal traçadas linhas me responda: quem é o maior escritor do Brasil neste momento? Ou, melhor ainda: qual foi o último livro de autor brasileiro que você leu?

A jornalista que fez a tal pergunta me olha fixamente enquanto espera minha resposta. O diabinho que mora dentro de mim sussurra no meu ouvido: “acho melhor você levantar, dizer vou ali, já volto e ir embora”. Mas eu, depois de uma pausa maior que a decência permitiria, finalmente respondo:

“Não sei”.

E acrescento:

“Este maior escritor brasileiro da atualidade eu vivo a procurar desesperadamente. Pelo menos uma vez por semana entro em alguma livraria, vou direto no parco balcão dos autores nacionais e tento achá-lo… em vão. Mas me recuso a concluir que ele não existe. Sim, o maior escritor brasileiro do momento deve existir algures. Na certa está neste momento a perpetrar livro sobre livro e a sonhar em ser um dia uma espécie de Roberto Bolaños, aquele escritor chileno que morreu jovem e que, apesar da unanimidade positiva em torno dele da crítica mundial, bem… Pra mim também não chega a ser uma Brastemp.

Mas o problema é que este “maior escritor brasileiro” não foi ainda publicado, enquanto os que já o foram são estranha e inexoravelmente parecidos, como se seus livros, todos premiáveis com o Jaboti, tivessem saído da mesma e única lavra, ou de uma fórmula que eles descobriram há pelo menos vinte anos e tem como fundamento principal uma modernice já bem antiga.

Ou seja: o maior escritor brasileiro da atualidade não existe, a literatura brasileira atual é bem pobrezinha e econômia, não consegue produzir um único livro de mais de 120 páginas que em matéria de venda vá além dos cinco mil exemplares habituais e olhe lá…

O que significa que o maior autor de novelas do Brasil, seja ele quem for (fique aqui bem entendido) é que é o senhor das multidões e do público.

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