CANNES? APENAS CHINATOWN

»Públicado por em mai 25, 2016 | 7 comentários

 

Se tem uma coisa que não entendo 

é o verdadeiro frisson que o

Festival de Cannes provoca na

grande mídia nacional todos os anos.

Mesmo quando não há filmes nacionais entre os candidatos oficiais – e isso vinha acontecendo há oito anos – os brasileiros dados à leitura dos jornais impressos ou on-line são “convidados” a tomar conhecimento de tudo que acontece nos bastidores da festa anual de cinema do balneário francês, incluindo detalhes sobre a premiação de filmes que, em geral, não serão exibidos no Brasil (ou em qualquer outro lugar do mundo).

O último filme nosso a ganhar a Palma de Ouro foi, imaginem, “O Pagador de Promessas”, em 1962. A partir daí os jurados de Cannes ignoraram várias décadas de produção nacional numa clara rejeição ao cinema brasileiro. Mas este ano – aleluia! -  fomos novamente selecionados para a competição oficial com “Aquarius”, filme no qual a estrela Sônia Braga brilha junto com o diretor Kleber de Mendonça Filho.

Nosso filme teve ótimas críticas na sua estréia mundial em Cannes. Chegou a ser considerado um dos favoritos… E a Palma de melhor atriz para Sônia Braga parecia certíssima. Porém, no final, deu no que deu: ganhou a Palma de Ouro um filme de Ken Loach – britânico que detesta a Inglaterra e a “elite branca” que a governa – e o prêmio de melhor atriz foi para uma senhora filipina do tipo “eu ia passando ali na praça, me convidaram pra fazer um filme, mas daqui a pouco eu volto”.

Baseado em tudo isso podemos dizer que, apesar do deslumbramento dos nossos críticos de cinema – que acham o festival o supra sumo – Cannes detesta o Brasil e os seus filmes?

Não, diremos mais que isso. Embora seja um festival de cinema, o de Cannes – assim como seu “irmão” mais radical, o de Berlim – não gosta de atores… Nem de diretores e menos ainda de filmes. Do ponto-de-vista cinematográfico a premiação lá não tem a menor importância, já que, quase sempre, tem a ver com uma horrorosa estética quarto-mundista segundo a qual um filme é tanto melhor quanto for mais pobre o país que o produziu e mais “engajada” a sua temática.

Em Cannes, assim como em Berlim, inventam-se “novas cinematografias” que passam longe da gramática do cinema. São os filmes vietnamitas, romenos, tailandeses… Houve até um, se não me engano da Tailândia, premiado num desses festivais, cujo apregoado maior mérito do seu diretor era jamais ter visto um filme antes de dirigir o seu próprio. Tipo assim: dizer que alguém escreveu um livro genial antes de saber as letras do alfabeto.

Embora aconteçam exceções de vez em quando, em geral um filme para ser premiado em Cannes tem que ser tosco, e atores só ganham o prêmio de melhor se não forem atores. O mais estranho é que tudo isso é financiado pela má consciência do cinema americano, que, com seus poderosos investimentos no festival, é quem garante o que o red carpet dos “progressistas” de Cannes não dispensa – o luxo. 

De qualquer modo, mesmo que as premiações em geral não tenham grande importância, o Festival de Cannes é importante para o cinema não pelo seu suposto “amor à arte”, mas porque, ainda graças à indústria americana do cinema, nos seus bastidores são feitos grandes negócios.

Sobre o filme de Kleber de Mendonça Filho, não posso dizer nada porque ainda não o vi. Mas quanto a Sônia Braga acho que ela brilhou tudo que merecia brilhar nesta sua fulgurante passagem pelo balneário francês. E se não ganhou a Palma de melhor atriz não perdeu nada; ao ignorar sua longa e amorosa relação com o cinema e deixar de lhe dar o prêmio quem perdeu foi o Festival de Cannes.

 

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VOCÊ QUER SER NOVELISTA?

»Públicado por em mai 22, 2016 | 13 comentários

 

O que aprendi sobre a arte de escrever novelas não pode morrer junto comigo. Por isso criei a Master Class… E a próxima será em julho, em São Paulo.

 

Dia desses tive um encontro num corredor do Projac que me deixou muito emocionado: eu e Glória Perez nos cruzamos e, em meio a muitas demonstrações de camaradagem e afeto, reafirmamos nossa prolongada convivência – mesmo à distância – e nossa amizade. Afinal, começamos juntos na profissão (e na mesma novela, “Partido Alto”, cuja autoria dividimos inicialmente) e nela, na qualidade de últimos da nossa geração em atividade, ainda estamos até hoje.

Quando foi este começo? Em 1984; já lá se vão 32 anos! Então, uma outra (e grande) geração de novelistas começava a sair de cena, e a nossa, formada por cinto autores, dava seus primeiros passos. Com o passar dos anos, sem que outros novelistas se juntassem a nós no “horário das oito” (hoje das nove), e por conta do rigoroso revezamento a que nos submetiam, proclamei em tom de brincadeira que éramos uma raça em extinção – as cinco últimas ararinhas azuis das telenovelas.

Dessas aves cada vez mais raras agora restam apenas duas a sobrevoar os céus do Projac – Glória e eu. Manoel Carlos e Gilberto Braga já não escreverão mais novelas (porém minisséries) e Benedito Ruy Barbosa, que já tinha passado o bastão para as filhas, agora o entregou ao neto.

 

Mas eu e Glória… Como se diz na gíria do Jockey em relação aos cavalos: somos uma dupla que “apanha e resiste”. Ela está com “A flor da Pele”, sua próxima novela, já em fase de produção, e eu já sei até a data em que a minha estreará – 23 de março de 2018. Antes de nós – e entre nós – uma nova leva de futuras ararinhas ocupará o horário: Maria Adelaide Amaral – que já devia ter chegado lá há mais tempo – e Telma Guedes e Duca Rachid, duas grandes parceiras reveladas no horário das sete… Sem esquecer dois autores já consagrados, João Emanoel Carneiro e Walcyr Carrasco, de uma geração anterior à nossa, e já com lugar garantido no “nosso” horário.

Ou seja, a fila anda. Mas, para que ela ande, é preciso que a lista de candidatos a telenovelistas seja constantemente renovada. E essa renovação é o que me preocupa. Precisamos de jovens que, quando as últimas ararinhas saírem de cena, ergam a tocha a honrem nosso legado. E para isso, devemos de alguma forma passar para os candidatos todo o conhecimento e experiência que, nestes trinta e dois anos, acumulamos sobre o nosso trabalho.

Sim, o que aprendi sobre a arte de escrever novelas não pode morrer junto comigo. Por isso criei a Master Class. Já fiz quatro delas: uma em Portugal e três no Brasil – e essas foram para mim as mais importantes. A última foi em dezembro. E embora não tenha me refeito ainda do esforço de falar às vezes três horas por dia durante duas semanas, concluí que, levando em conta a rapidez como passam os meses e os anos, não poderia esperar muito tempo para repetir o esforço… Por isso – atenção, aspirantes a novelistas! – vou fazer a Master Class 4 nos dias 11 a 22 do próximo mês de julho.

 

Na foto acima: alunos posam com Maria Ribeiro e Lília Cabral, depois da palestra que que a última fez na Master Class 3 – na foto abaixo.

 

Desta vez será em São Paulo, no salão de eventos Blue Tree Premium Paulista, onde eu e minha equipe ficaremos hospedados. Serão apenas 32 alunos e tudo o que se exige deles é o desejo de encarar essa profissão que – aviso de antemão – pode parecer cheia de charme, mas na verdade exige sacrifícios físicos e mentais indescritíveis.

As inscrições já estão abertas, é só clicar no link da Master Class 4 aí do lado. E não basta se inscrever, o que exijo dos alunos, além da vontade, é o mérito, por isso serão todos submetidos a um teste no qual serão selecionados os que se mostrarem mais capazes.

Alguém aí já pergunta se depois dessa Master Class haverá outras… E eu respondo que sim… Tantas eu possa fazer até que o desgaste que elas me provocam se torne maior que minha vontade.

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UMA QUERIDA ESTRANHA

»Públicado por em mai 19, 2016 | 21 comentários

 

Pela terceira vez em Portugal à frente de um espetáculo teatral, Regina Duarte foi recebida como a grande estrela que é. Ainda e sempre reconhecida nas ruas como a Viúva Porcina, a mais personagem popular da sua carreira, a atriz encheu salas de espetáculos na capital e em várias cidades do país com “Bem Vindo, Estranho”. Uma peça da inglesa Angela Clerkin, que lhe permite dominar o palco no papel de Jaki, mãe manipuladora e obsessiva, que subjuga a filha (Mariana Loureiro) e interfere na relação desta com o misterioso namorado Joseph (Kiko Bertholini). O clima de suspense e sensualidade marca todo o espetáculo, que tem um tom amoral e ótimos momentos de humor, os quais ajudam a descontrair o público. O sucesso obtido durante esta temporada lusa confirma o prestígio de La Duarte entre os portugueses, conquistado graças às novelas da Globo, em especial duas escritas por Aguinaldo Silva, autor pelo qual Regina tem muito carinho:  “Sempre quis voltar a trabalhar com ele. Afinal dois dos meus papéis mais importantes, a Porcina, e a Rachel, foram criados pelo Aguinaldo”, disse a atriz citando “Roque Santeiro” (1985) e “Vale tudo” (1988) logo após a estreia de “Bem Vindo Estranho”, à qual Aguinaldo, que estava em Portugal, compareceu. Nesta entrevista Regina lembrou também a sua participação em “Império” (2014) e confessou o desejo de voltar a interpretar “uma das famosas personagens do Aguinaldo, que escreve como ninguém para as mulheres”.

texto: Moema Silva

fotos: Fco. Patrício, divulgação e internet 

 

 -É a terceira vez que vem a Portugal com uma peça de teatro. Quais são as diferenças que nota, a partir do palco, entre o público brasileiro e o português?

Desde que trouxe “Honra” (2002) e “Coração Bazar” (2004), o receio que sempre tenho é que a plateia perca o entendimento de algumas ideias dos espetáculos em função da diferença dos nossos sotaques. Mas é impressionante: isso não acontece! É gratificante sentir que mesmo com a distância física dos nossos dois países, as culturas são similares. E mesmo assim, cada público é único.

 - A peça “Bem vindo, Estranho” estreou em Lisboa e foi apresentada em mais três cidades do país. Como tem sido a recetividade e quais são as expetativas para esta turnê?

Cada apresentação do espetáculo tem uma energia própria e a peça tem provocado reações de entusiasmo por onde passamos. A recetividade do público português exerce um poder mágico sobre nós. Isso deixa-nos confiantes e o espetáculo cresce a cada apresentação. Nossa grande preocupação têm sido os espaços cénicos de cada teatro, em função das exigências da peça, com referência a captação de som e visibilidade. Mas não poderíamos estar mais felizes com a forma como tudo foi solucionado. Temos metade da equipe composta por profissionais portugueses (som, contra-regragem, camareira e produção local) e todos têm sido extraordinários em seu desempenho profissional.

 - Como se sente, na sua idade, sendo já avó de 4 netos, contracenando com atores muitos mais jovens num espetáculo que foi considerado “altamente sensual”?

Sensual? (risos….) Adoro a ideia de que nosso espetáculo possa ter essa leitura. Isso é super atraente e nós realmente investimos em todo o potencial sexy que o texto nos oferece. Minha personagem, a Jaki de “Bem Vindo, Estranho”, tem muito da Porcina de “Roque Santeiro”: é liberta, está sempre eroticamente disponível. Havendo saúde física e mental, não vejo porque o ser humano não possa ser sensual e erotizado até aos 90 anos. Pelo menos! (risos.)

-  A Mariana Loureiro e o Kiko Bertholini, seus colegas de cena, não são conhecidos cá. Pode apresentá-los?

Claro, e já me colocando na posição de madrinha! Vale lembrar que quando estive em Portugal com “Honra”, o Marcos Caruso, que fazia o papel de meu marido, nunca tinha feito nada na TVGlobo. No ano seguinte, o espetáculo foi visto no Rio de Janeiro pelo autor Manoel Carlos, que ficou encantado com o talento dele e o escalou para a novela “Mulheres Apaixonadas”. Foi um encontro que resultou num grande sucesso, com o Caruso arrebentando a boca do balão! No caso desta peça, o Kiko e a Mariana são atores com formação acadêmica, que se conheceram na faculdade e são responsáveis pela “descoberta” da inglesa Angela Clerkin. Embora nunca tenha participado em novelas, eles têm feito uma carreira brilhante no cinema e no teatro (“Carmo”, “Quando Eu Era Vivo”, “Abril Despedaçado”), com um histórico profissional diferente do meu. O que resulta numa troca de experiências enriquecedora para todos.

- Acha que ainda é pertinente chamá-la de “namoradinha do Brasil”?

Sim! Por que não?!

- Na verdade, você também é um pouco namorada de Portugal, pois mantem uma forte e apaixonada relação com o nosso país. Há quanto tempo viaja para cá?

Venho a Lisboa desde o retumbante sucesso de “Roque Santeiro”, quando fui convidada para desfilar no Carnaval de Sines, no Algarve. Depois disso tenho sido convidada para passeios, entregas de prémios, lançamentos de novelas e espetáculos teatrais, além de fazer as mini temporadas com as minhas peças. Desta vez fui despertada pelo interesse de fazer o Caminho de Santiago a partir do Norte de Portugal.Quem sabe, em breve…?

- Do ponto de vista cultural e humano, o que mais a cativa nos portugueses?

Nos últimos tempos, percebi que o mito da tristeza do fado já caiu por terra e isso me atrai muito, porque sou naturalmente alegre, solar. Fico feliz de sentir em todas as pessoas que tenho encontrado um bom astral e uma energia contagiantes.

 - Tem algum outro projeto pensado para nos trazer?

Sim, tenho sempre muitos projetos. E me encantaria que a Plano 6, produtora portuguesa que já me trouxe por três vezes cá, se interessasse por um deles. É uma produtora que tem batalhado muito pelo intercâmbio do teatro Brasil-Portugal e que está no meu coração.

- Já pensou em contracenar com colegas portugueses num espetáculo nacional?

Já, mas agora penso nisso muito mais do ponto de vista da direção do que como atriz. Trabalhar com atores tem sido um prazer dominante na minha carreira nos últimos tempos. Venho alimentando o sonho de trazer para Portugal as oficinas e workshops que tenho realizado no Brasil.

- Neste momento, há duas novelas suas que estão a ser reprisadas cá. “História de Amor” (1995) e “Araguaia” (2010). Numa é protagonista absoluta, na outra faz uma participação especial. O que recorda desses dois trabalhos?

Cada um deles tem sua importância na minha história profissional. “História de Amor” é um clássico e já foi reprisada dezenas e dezenas de vezes em todo o mundo. A minha personagem, Helena Soares, faz parte da galeria de grandes heroínas da televisão brasileira. “Araguaia” foi o que eu considero uma participação afetiva, pela possibilidade que me deu de contracenar novamente com Lima Duarte, meu “parceirão” de “Roque Santeiro”.

 – As pessoas, na rua, ainda a chamam de Porcina. Ela continua a ser a maior referência da sua carreira?

Sim disparada! E isso me dá grandes alegrias. Para mim, tem muito valor.

- Na última novela em que entrou, “Sete Vidas” (2015), viveu Esther, uma personagem polémica, a mãe de família lésbica. Acha que, de algum modo, contribuiu para diminuir o preconceito relacionado com as “novas famílias”?

Sim! A Esther era uma personagem super carismática, daquelas irresistíveis. Generosa sem ser passiva, ela foi a perfeita representante sexagenária da mulher livre contemporânea, que não se submete a rótulos. Que não se pretende perfeita, nem se permite ser subjugada por preconceitos. A abordagem de temas polémicos, incluindo comportamentos passíveis de intolerância, sempre contribui para reflexões benéficas para todos.

- Fez o papel de Maria Joaquina na novela “Império” (2014), de Aguinaldo Silva, que ganhou um Emmy de melhor novela do mundo.  Qual foi a sua reação quando soube dessa distinção?

 

Fiquei muito feliz com o sucesso da novela e também porque esperei quase 30 anos pela possibilidade de interpretar novamente um texto do Aguinaldo. Desde a Viúva Porcina (que ele criou para mim), eu sonhava com uma nova chance de viver uma heroína nas novelas dele. Não importava o tamanho que tivesse. Maria Joaquina foi colocada na trama de “Império” pelo Aguinaldo de uma forma tão brilhante que, em apenas quatro capítulos, obteve resposta de blockbuster por parte do público. Desfrutar da força do texto do Aguinaldo é o sonho de todo ator, de toda atriz.

- Gostaria de trabalhar novamente com o Aguinaldo na televisão? Na sua opinião, quais são as principais características dele como autor?

Eu gostaria demais de voltar a interpretar uma das famosas “mulheres do Aguinaldo”. Quem sabe uma anti-heroína, no estilo da Jaky de “Bem Vindo, Estranho”?! Uma mulher complexa, daquelas que todo mundo adora odiar. O Aguinaldo escreve como ninguém para atrizes. Os ingredientes de fragilidade, poesia, força e agressividade, interligados por uma sensualidade (sútil ou explícita) estão sempre presentes em suas heroínas. E são, a meu ver, um passaporte infalível para o sucesso.

 

- Você diz que é uma pessoa inquieta, sempre à procura de coisas novas. Que tipo de coisas quer agora? O que é que vai fazer quando regressar ao Brasil?

A inquietude é realmente uma caraterística minha muito forte. O “já conquistado” tem para mim grande valor, é guardado num lugar especial do meu coração. Mas o meu desejo de desbravar novos territórios faz com que não me acomode nunca! Voltando ao Brasil, depois desta estada maravilhosa em Portugal, de onde saio alimentada a todos os níveis, vou dirigir um espetáculo com Maria Eduarda de Carvalho, atriz que admiro muito (e que fez o papel da “minha” filha Laila em “Sete Vidas”).

 – Atualmente, o que é prioritário na sua vida?

Viver o hoje com amor, interesse e responsabilidade.

– Você afirmou que se orgulha de ter conseguido ao mesmo tempo uma carreira e uma família. Tem sido fácil equilibrar a vida pública e a privada?

Não, equilibrar as coisas não é nada fácil! Mas acredito muito no sistema de trocas que esta vida possibilita. Acredito no lema “é dando que se recebe”.

 – Dizem que você está a envelhecer bem. Concorda?

Sim! Não vejo outra alternativa que não seja enfrentar a velhice de peito aberto, com paciência, sem colecionar mágoas. E da forma mais saudável possível.

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VINHEDO & SOROCABA: LONGA VIAGEM EM BUSCA DO SONHO

»Públicado por em mai 17, 2016 | 29 comentários

 

Dois atores do nosso Curso de Atuação

no Theatro Net vêm do interior de São Paulo,

toda semana, para ter aula em Copacabana

 texto: Adalberto Neto

fotos: Fco. Patrício

A partir da esquerda: Paco, um cidadão não identificado, Robinson e o repórter Adalberto Neto.

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Para se tornar um ator, o caminho é o seguinte: pegar uma estrada de mais ou menos 500 quilômetros; levar de seis a oito horas nessa viagem de ônibus, com direito à baldeação; chegar à outra cidade ainda na madrugada e ter de esperar o dia clarear para seguir ao destino final, livre de perigo; ficar zanzando pela rua por um longo período só para matar o tempo; e ainda ser chamado de louco por parentes e amigos por essa… Loucura!

Há outras maneiras de se chegar “lá”, mas é por tudo isso que passam dois alunos do curso de interpretação da Casa Aguinaldo Silva de Artes (CASA), Paco Rodrigues e Robinson Marques, para realizar o seu sonho: saem do interior de São Paulo na noite de domingo para ter aula na segunda, na turma das 19h, no Theatro Net, em Copacabana.

Paco é farmacêutico, mora em Vinhedo sozinho e, durante dez anos, deu expediente numa drogaria do município. No trabalho, cumpria uma escala pesada, de segunda a domingo, com raríssimos dias de folga. Na vida pessoal, viu seu casamento se afundar, perdeu momentos importantes da infância da filha, Larissa, hoje com 10 anos, e deixou de lado a carreira de ator. Quando leu numa matéria de jornal, no ano passado, que o autor Aguinaldo Silva abriria um curso de interpretação, essa foi a senha para ele dar um novo rumo a sua vida.

E o pontapé inicial foi deixar o trabalho. Para ter tempo de se dedicar ao curso, montou uma pequena empresa de purificadores de água com um amigo, com quem negociou as segundas-feiras livres para poder viajar para o Rio. Em troca, ele trabalha às sextas sozinho para dar folga ao sócio.

“Minha mulher se separou de mim há três anos, porque quase não me via em casa. A drogaria me tomava muito tempo e, infelizmente, isso desgastou a relação. Às vezes a solidão bate, mas, no momento, essa minha busca para alcançar um sonho tem me preenchido, e isso me faz bem”, conta.

Já Robinson é formado em marketing, mora em Sorocaba com a mãe e um irmão. Há alguns meses, foi dispensado da empresa em que trabalhava, sob justificativa de que a crise financeira do país era a responsável pelo corte de funcionários. Com esse limão que a vida lhe deu, mais o dinheiro da indenização recebido, um empréstimo no banco e muita força de vontade financiou um caminhão usado e passou a prestar serviço de frete para uma distribuidora de tintas por todo o Estado de São Paulo. E fez sua limonada.

Mas quando leu no perfil do Facebook do ator José Negreiros uma publicação sobre o curso de interpretação da CASA, resolveu que a vida poderia ser ainda mais doce se largasse tudo e fosse atrás do que sempre quis fazer como profissão. Para ter certeza de que essa seria a decisão certa a tomar, desafiou a própria fé.

“Como não tinha dinheiro para pagar o curso e viajar toda semana para o Rio, falei para Deus: ‘se eu conseguir vender o caminhão a tempo de fazer a matrícula, é porque tenho que ir’. Três dias depois de anunciá-lo em sites gratuitos, um comprador entrou em contato comigo e a coisa deu certo”, lembra ele, que também é pai de Gabriella, de 17 anos, mas não tem contato com a filha. “Pago pensão, mas não a vejo. A mãe dela não aceitou o término do namoro e por isso não me deixa ter contato com a menina desde seus oito meses. Já tentei me aproximar da Gabi por meio da Justiça, mas esse processo é muito lento. Optei, então, por abrir mão. Quando ela fizer 18, se quiser me conhecer, vou recebê-la com o maior carinho. Já sofri muito, mas não posso deixar a vida parar”.

 

Paco (acima) e Robinson (abaixo: uma dupla de aventureiros

Desde março, a dupla de Vinhedo e Sorocaba se diverte durante as longas horas, em que aguardam para a aula de interpretação. E o que não falta é história para contar.

“Sempre que saímos do curso, passamos numa padaria, compramos alguns pães, queijo e uma Coca. Geralmente, deixamos para comer enquanto esperamos o ônibus das 23h40m para São Paulo. Mas, outro dia, com a barriga roncando, não conseguimos esperar e decidimos comer durante o trajeto para a rodoviária. Quando abri a garrafa, o motorista do coletivo passou com tudo por uma lombada, o refrigerante caiu no chão e, com a pressão do gás, o líquido espirrou no veículo inteiro. Tivemos que tomar uma chuveirada no terminal e, por isso, só conseguimos viajar bem mais tarde”, recorda Paco.

Mas a experiência na cidade também tem seu lado bom. Graças às amizades que fizeram no curso, não precisam mais ficar vagando por Copacabana até o horário da aula.

“Quando soube que ficávamos pelas ruas, o (Francisco) Patrício (da equipe da CASA), colocou a nossa disposição o Theatro Net, onde costumamos fazer hora até horário do curso. Também temos ficado no apartamento da Márcia, uma amiga da nossa turma que mora no bairro e, gentilmente, ofereceu sua casa para tomarmos banho e relaxarmos um pouco. Mas como não conseguimos ficar parados, fazemos comida, pregamos quadro na parede e saímos para resolver problemas de banco com ela. O Rio de Janeiro nos recebeu de braços abertos, como a estátua do Cristo Redentor. Está sendo maravilhoso ”, afirma Robinson.

Quando chega em Vinhedo, na terça pela manhã, Paco vai direto para o trabalho e volta a sua vida real. Já Robinson, em Sorocaba, antes de retomar sua rotina, descansa um pouco e, em seguida, ajuda sua mãe nos serviços de casa. Ao longo da semana, eles só torcem para a noite de domingo não demorar a chegar e, assim, recomeçarem a aventura até o Rio.

“Aprendemos a gostar dessa peregrinação, que nossos parentes e amigos criticam. Tudo que vivemos até chegar à aula maravilhosa da Julia (Carrera, professora de interpretação da CASA) só reforça o que realmente queremos para a nossa vida. Temos certeza que isso vai dar em alguma coisa. Nem que seja na formação da dupla sertaneja Vinhedo & Sorocaba”, brinca Paco.

 

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ELE CANTOU, CANTOU, CANTOU!

»Públicado por em mai 16, 2016 | 5 comentários

 

“Eu vou vir sempre aqui! Vou voltar. Sei que vocês gostam de mim, e eu amo vocês. ‘Saudade, torrente de paixão, emoção diferente, que aniquila a vida da gente…’. Vou voltar pra matar a saudade. Obrigado querido público, obrigado minhas fãs!” (Palavras finais de Cauby Peixoto no seu último show solo no Theatro Net)

 

Num país de muitos compositores e, nos últimos anos, cada vez menos cantores, o Brasil perdeu nas horas finais de ontem o seu maior cantor. Vítima de uma pneumonia, Cauby Peixoto morreu num hospital de São Paulo, onde deu entrada entre um show e outro. Pois, após 65 anos de uma impressionante carreira e já aos 85 anos, ainda estava em plena atividade e, embora a memória lhe falhasse de vez em quando, sua voz ainda era quase a mesma.

Não vou dizer aqui qual foi a vital importância de Cauby Peixoto, sua voz e sua maneira peculiar de se expor para a música popular brasileira, pois tudo isso já faz parte da História. Nem vou falar das injustiças e do preconceito dos quais, mesmo nos anos de maior glória, ele foi vítima. Vou dizer apenas que, como se fosse um irmão meu que morre, chorarei e sentirei sua falta. E vou lembrar  sua amizade fraternal, imorredoura com a sempre leal Ângela Maria, que fazia par com ele no Olimpo das divindades da musica popular brasileira.

Ah, Ângela e Cauby, Cauby e Ângela… Eu os vi se apresentarem juntos várias vezes e posso dizer sem medo de errar que, amigos, irmãos, eles eram apaixonados um pelo outro e pelo que sabiam fazer melhor que ninguém: cantar, cantar, cantar!

E Cauby cantou até o fim como ninguém jamais cantou assim. Por isso, peço aos paulistanos de todos os credos e ideologias que o homenageiem, hoje, durante o seu velório na Assembléia Legislativa de São Paulo. Cauby é um deus que morre… Mas cuja voz ficará em nossos corações para sempre.

Estamos todos de luto.

Vejam no vídeo abaixo Cauby Peixoto num dos seus (muitíssimos) grandes momentos.

 

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DESCULPA, ESTOU OCUPADO

»Públicado por em mai 15, 2016 | 7 comentários

 

Um conhecido meu reclama, pelo whatsapp, porque não dou a menor trela às suas mensagens diárias: “você está sempre muito ocupado!” – ele se queixa. Não respondo porque não tenho tempo para esse tipo de conversa; estou muito ocupado sim, sempre estou, e dou graças a Deus por isso; pois estar ocupado, ter compromissos profissionais a cumprir e não faltar a nenhum deles é, para mim, a maior prova de que estou vivo e com as caraminholas todas funcionando.

 

 

Desde que cheguei de viagem, e apesar da gripe cujos efeitos daninhos restringem meu sono, não parei um só instante… Nem pretendo. Meu tempo é pouco e é todo tomado por compromissos de trabalho. Por isso, me desculpem os “conhecidos” (uma categoria um pouco abaixo dos “amigos”), mas não tenho tempo para conversas fúteis via whatsapp – tanto não tenho que deixo o celular em modo avião quase o dia todo.

O que tanto me ocupa? Minha vida profissional, que na minha lista de ocupações tem primazia absoluta. Lazer? Só se for a trabalho. Por exemplo: fui a um almoço bastante prazeroso no Projac, não para falar de novela, mas para receber meu segundo Emmy, que em sua caixa digna de guardar as vísceras de um faraó menino tinha chegado durante minha viagem.

Ou então: estive a acompanhar as aulas do Curso Aguinaldo Silva de Atuação porque, após mais de um mês de ausência, precisava verificar o progresso dos alunos e me certificar de que tudo caminhou como eu esperava. Quanto a isso, depois de marcar ponto no Theatro Net durante oito horas, não tive a menor dúvida: existem atores no meu curso e para alguns prevejo um futuro brilhante. Quais deles? Ah, isso eu não digo.

Temos novidades no curso. Entrevistas ou palestras com atores que tenham algo a dizer aos meus alunos. Começamos, na classe infantil, com um menino-ator prodígio: Alexandre Valois (na foto abaixo), que, em sua conversa com os nossos “pequenos” falou, deu dicas, sugestões e conselhos com a segurança de quem adulto fosse.

 

Logo depois foi a vez de Josie Pessoa – a Du de “Império” – e Luís Lobianco, o Reginel do “Vai que Cola” e um dos responsáveis pelo incrível, absurdo, maravilhoso e nunca por demais louvado êxito do “Porta dos Fundos”. Eu, que ocupei um lugar à mesa junto com as professoras Júlia Carrera e Renata Mafra, também tive que responder – como eles todos – a dezenas de perguntas feitas pelo auditório lotado de alunos.

Acima: Luis Lobianco e Adalberto Neto (o mediador das entrevistas) e abaixo: Josie Pessoa e um cidadão não identificado.

Vim para casa exausto, descansei duas horas e depois continuei trabalhando: vi de uma enfiada só os três episódios iniciais de “Wallander”, séria britânica baseada em livro de um romancista policial sueco, que tem como luxuoso protagonista ninguém menos que Keneth Branagh. E antes de dormir ainda me obriguei a ler mais algumas páginas de “Império do Medo”, do jornalistas inglês Andrew Hosken, que explica com todas as minúcias como se formou e porque se tornou tão importante o assim chamado “Estado Islâmico”.

Tudo isso sem esquecer o facebook, o twitter, o instagram, o site… Nem deixar de aprovar o regulamento da quarta Master Class, cuja íntegra já está publicada aí do lado.

Fui dormir, acordei às seis da matina e agora, às oito, já estou aqui a teclar este artigo, cuja essência me veio à mente enquanto eu me deixava ficar cinco minutos embaixo do chuveiro a curtir o banho gelado.

Entenderam agora por que não tenho tempo para futricas de whatsapp? Os “conhecidos” que me desculpem, mas sou igual a telefone de repartição pública: estou sempre ocupado.

P.S.: estou ocupado com tudo isso e mais algumas coisas: a sinopse de “O Sétimo Guardião”, talvez minha próxima novela, que já está na quarta versão e só será entregue à Rede Globo quando eu achar que está no ponto; os retoques finais no meu livro “Turno da Noite”, que será lançado pela Editora Objectiva (noite de autógrafos: dia 18 de julho em São Paulo e 25 de julho no Rio); e os trabalhos, junto com uma equipe, de elaboração da série “Dentro da Noite”, uma história de terror que se passa no Rio de Janeiro de 1910 e tem como protagonista o escritor João do Rio.

  


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ELE FALA O LATIM!

»Públicado por em mai 13, 2016 | 2 comentários

 

Novo Presidente sabe de onde veio o idioma português

e o que suas palavras realmente significam.

Assim, fica mais difícil usá-las em vão


Em seu discurso de posse Michel Temer citou uma palavra latina para explicar o verdadeiro sentido da palavra “religião”. Pesquisei, e descobri que o novo Presidente é mestre na língua que dizem morta, mas é a base do nosso português, que é uma língua néo-latina. É muito bom termos um Presidente da República que fala o latim, pois isso significa que ele sabe o verdadeiro significado das palavras e assim não as usará em vão, como se tem feito – e continua a se fazer – nos últimos 13 anos por pessoas que, por não saberem falar o próprio idioma, adaptam o sentido das palavras aos seus interesses e sua ideologia.

“Alea jacta est!”

Não sabem o que significa? Vejam no Google.

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