MEMÓRIAS DO CÁRCERE

»Públicado por em jul 28, 2016 | 2 comentários

 

Mais um vídeo da divulgação de “Turno da Noite”,

estrelando: Tuca Andrade e Ricardo Tozzi.

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QUEREM ABRIR NOSSAS CARTAS

»Públicado por em jul 28, 2016 | 0 comentário

 

Bloquear o whatsapp nos dias de hoje é o mesmo que fechar a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos em épocas passadas.

 

 

                                                                                                                                           (foto: divulgação/Rede Globo)

Na novela “Tieta”, que tive a honra – e a sorte – de escrever no final da década de 80, a personagem Carmosina (na foto), vivida por Arlete Salles, causou uma certa tensão. Funcionária dos correios na pequena cidade chamada Santana do Agreste, ela tinha o hábito de abrir as cartas que lá chegavam, ler e depois fechá-las sem deixar vestígios, inteirando-se assim da vida dos cidadãos locais sem que estes desconfiassem.

“Isso não acontece” – protestou a Empresa dos Correios, na época mais estatal que nunca. “No resto do Brasil pode ser que não” – eu respondi -. “Mas em Santana do Agreste, acontece. E quem diz isso não sou eu, mas Jorge Amado, autor do livro em que se baseou a novela e no qual a personagem Carmosina tem este mesmo (mau) costume”.

“Tieta” foi um sucesso. Carmosina, a maior amiga da protagonista, também se tornou uma personagem inesquecível. E continuou abrindo as cartas dos seus concidadãos até o fim da novela, apesar dos protestos oficiais dos Correios.

De qualquer modo, naquela época, abrir uma carta sem autorização do seu destinatário era crime tipificado no artigo 151 do Código Penal e dava cadeia. E como o Código não mudou, isso ainda vale para os dias de agora mesmo que poucas pessoas escrevam cartas. A maioria dos que hoje se comunicam à distância utilizam meios bem mais práticos tais como os emails ou, cada vez mais, o whatsapp. E como estes são as versões modernas das antigas cartas, presume-se que a eles deve se adaptar a lei que trata da violação de correspondência. Por isso não consigo entender a obsessão de alguns juízes em querer esmiuçar emails ou mensagens alheias. E acho que tirar do ar o whatsapp, hoje usado por milhões de brasileiros como seu principal canal de comunicação, seria o equivalente a fechar em outras épocas a Empresa Brasileira de Correios.

Ainda mais porque, nas vezes em que algum juiz mandou tirar do ar o whatsapp, como ocorreu na semana passada, o motivo apresentado é sempre muito vago – quase sempre a necessidade de ter acesso às mensagens de algum suposto meliante. O whatsapp agora, assim como os Correios na época de “Tieta”, com toda razão se recusa a abrir as mensagens alheias. Afinal, o sigilo e a segurança são a alma deste tipo negócio. Se o autor da mensagem desconfiar que alguém mais a lerá além do destinatário, deixará de mandá-la. Portanto, o acesso da justiça às mensagens do whatsapp não deve ser permitido nem mesmo em casos extremos, ou passaremos pelo retrocesso – e o vexame – de nos tornarmos de novo um país do século passado e assim voltar a escrever cartas.

E olhem que não sou apenas eu que acha isso. Desta vez, quem ordenou o imediato desbloqueio do whatsapp decretado por uma juíza de Duque de Caxias foi o próprio Presidente do Supremo Tribunal Federal, o Ministro Ricardo Lewandovski, para quem a medida “foi desproporcional e violou a garantia da liberdade de expressão, comunicação e manifestação de pensamento”.

Belas palavras estas de Lewandovski, que assim botou todos os pintos nos ii. Em São Paulo, onde me encontrava no momento em que a decisão do Ministro foi divulgada, vi dezenas de pessoas a gritar  nome dele em plena Avenida Paulista, aquela mesma onde os paulistanos se reúnem para demonstrar seu (des)contentamento. Eu mesmo aderi a este entusiasmo. Bravos, Ministro Lewandovski. Seu posicionamento firme neste caso sem dúvida o colocou, para a larga maioria dos brasileiros, na lista dos nossos homens públicos mais evoluídos.

O problema é que, neste país em que dezenas de tribunais e juízes de várias instâncias se confundem, nem mesmo uma decisão do presidente do Supremo é definitiva. E assim, podem aguardar, que não demora. Em breve outro juiz de alguma comarca qualquer suspenderá o whatsapp em outra tentativa de abrir nossas cartas de novo.

 

 

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DIA DE GANHAR CARINHO

»Públicado por em jul 26, 2016 | 11 comentários

 

Hoje a festa é minha, hoje a festa é nossa… 

Fotos: Fco. Patrício


Susana Vieira entra e traz com ela aquele furacão que a segue sempre e agita tudo à sua volta. Correria geral, pessoas saem da fila de autógrafos para vê-la mais de perto, o frenesi habitual desmancha a fileira cerrada de fotógrafos – que ela dirige com a precisão de quem, no seu eterno namoro com as câmeras, sabe tudo – e pronto:

“Esta é a Susana que eu amo!” – proclamo entusiasmado.

Ao que ela resmunga: “ama, mas não tanto!” E já se dirigindo a todos os presentes, faz a revelação: “o Aguinaldo divide o amor dele comigo e outras duas!” Curioso, pergunto quem seriam elas, e Susana faz mistério: “você sabe” – proclama. E mais não diz. Mas me abraça, me beija, dá uma alisada nos meus cabelos branquíssimos, diz que nós dois, mesmo já passando dos 70, estamos e seremos eternamente lindos… Enfim: Susana faz Susana, a maravilhosa mulher que todos nós amamos.

Onde isso aconteceu? Na lançamento de “Turno da Noite” na Livraria da Travessa, no Shopping Leblon, cuja fila de autógrafos, segundo os funcionários do local, quebrou todos os recordes. Não sei quem são as outras duas atrizes que, segundo Susana, dividem meu eterno e louco amor com ela, mas sei que, antes dela, lá chegaram Lília Cabral e Marina Ruy Barbosa, e lá já estavam Adriana Birolli e Josie Pessoa brincando de Fabíola Reipert ao fazer a transmissão de evento: as duas estariam entre elas?

Lília.. 

Marina…

…E Susana… 

E Josie… E Birolli

Birolli e Josie são minhas muito queridas, sempre dispostas a abrilhantar tudo que eu faço, incluindo minhas novelas. Lília é aquela sem a qual tudo se torna mais difícil – a espinha dorsal sobre a qual o resto do corpo se alinhou em “Fina Estampa” e “Império”, minhas duas últimas novelas. E Marina, ah, Marina… Não adianta, não vou repetir o que ela disse ao meu ouvido com os olhos cheios de lágrimas, e que, só de pensar, me deixa emocionado até agora.

Feliz é o homem que pode amar tantas mulheres tão maravilhosas… Assim como feliz é o escritor que vê uma fila de admiradores colear diante de si durante cinco horas. Não sei quantos livros autografei, acho que chegou perto dos 500. O que sei é que, a certa altura, o pessoal da livraria avisou que tinha hora pra fechar, sem saber que naquela noite a regra seria desobedecida e todos fariam hora extra.

Quando afinal saí da Livraria da Travessa – aos 15 minutos desta terça-feira -, ainda cercado por duas dezenas de inconformados que me pediam uma última conversa, senti mais que nunca o tal de “sentimento do dever cumprido”. Fiz, com a aplicação que marca tudo que faço, o que me pediram: a promoção do meu livro.

Mas fiz mais que isto. Reuni nesta noite memorável uma legião de pessoas que, de um modo ou outro, me amam. E, dentre eles, não posso deixar de destacar aqueles que pareciam mais entusiasmados. Os alunos do meu Curso de Atuação no Teatro Net e os veteranos das minhas Masters Classes. Os primeiros, elegantíssimos, que estão envolvidos em ensaios exaustivos com as professoras Júlia Carrera e Renata Mafra, compareceram em peso e no maior entusiasmo… E só um cego não perceberia o quanto seus olhos brilhavam. E os segundos – alguns já encaminhados na vida como roteiristas – cada vez que me encontram nunca deixam de pedir a este caquético mestre sugestões e conselhos.

Como é bom amar e ser amado, não é mesmo?

Cheio de amor, saí do Shopping Leblon que, por nossa causa, àquela hora ainda estava aberto, tomei um táxi e, embora estivesse morto de cansado, quando cheguei em casa não fui dormir, pois não queria que aquela noite acabasse. Esperei até o amanhecer, e então vim direto para o computador escrever esse texto que vocês agora leem e no qual, do meu jeito, procuro dar a vocês um pouco do muito amor que me deram ontem.

A todos, e com o maior   respeito, o meu beijo. 

 

 

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SIM, I LOVE SÃO PAULO

»Públicado por em jul 24, 2016 | 6 comentários

 

Demorou, mas afinal descobri:

São Paulo, sim, é a minha cara.

 Noite de autógrafos aos 17 anos em  Recife (acima)… E aos 73 anos (abaixo), finalmente em São Paulo.

Fotos: arquivo pessoal e Fco. Patrício

 

Sim, foi uma longa jornada desde que nasci a 7 de junho de 1943 (numa noite de tempestade, segundo minha mãe) até esta temporada de quinze dias que passei em plena Avenida Paulista, nesta cidade realmente maravilhosa que é São Paulo. Nestes 73 anos um turbilhão de venturas (muitas) e desventuras (algumas) me envolveu de tal modo que, quando me olho no espelho, levo o maior susto e pergunto: “quem é esse?” Pois não consigo acreditar que tanto tempo se passou, tanta coisa aconteceu… E, pior de tudo: eu envelheci.

Uma coisa que nunca tinha me acontecido afinal teve sua vez: a noite de autógrafos na capital paulista. Embora tenha publicado tantos livros que já não consigo mais contá-los nos dedos nunca tinha lançado nenhum deles por lá. Mas finalmente, graças ao empenho do pessoal da Companhia das Letras, isso ocorreu…

E em grande estilo. Nestes meus quinze dias paulistanos, não só por causa dos gentis representantes da editora, mas também por conta da equipe que foi comigo para administrar minha Master Class 4 e o Curso intensivo de atuação, eu me senti – sorry, my dear Elizabeth – a própria Rainha da Inglaterra… Sentimento fortalecido pelo fato de que vi, sob meu comando, um total de 77 criadores, entre roteiristas e atores, dispostos aos maiores sacrifícios para chegar aos píncaros de suas respectivas carreiras.

 

Foram quinze dias intensos, durante os quais dei tudo de mim aos alunos e, em troca, aprendi muito com eles. Uma das vantagens de ensinar é esta, meus caros professores do ensino público quase sempre em greve: é ensinando que a gente se aprende. Embora exerça minha profissão de novelista há trinta anos, toda vez que ministro uma dessas masters classes percebo que ainda tenho muito que aprender… E mais ainda com os jovens. Ah, essa tesão deles…

Não, queridos, sosseguem, não estou falando da tesão sexual, que essa eu dispenso, mas sim aquela que os leva a ter ambição e querer progredir a qualquer preço. Existe coisa mais saudável no ser humano do que a competitividade? Foi ela que nos trouxe até onde estamos hoje e é contra ela que se voltam os radicais que agora querem destruir nossa humanidade nos transformando em um bando de camelos.

Nestes quinze dias convivi com pessoas que estão destinadas a grandes feitos… E se não chegarem onde merecem será apenas porque o mundo nem sempre é justo.

E também, nestes quinze dias, me apaixonei por esta incrível cidade que é São Paulo. É irônico, porque, quando saí do Recife em 1964 sem eira nem beira era para lá que eu ia, até o avião fazer escala no Rio e eu decidir que ficaria aqui mesmo. Agora me pergunto: como teria sido esta minha puta de tão maravilhosa vida se eu tivesse prosseguido até o destino final da viagem? Como seria eu agora se em 1964 tivesse desembarcado em São Paulo?

Melhor não pensar nisso… Mas pensar, a partir de agora, numa outra possibilidade: como seria minha vida daqui pra frente se eu me mudasse para São Paulo?

 

E a vocês que, com a paciência do inseto 

que se move lentamente após o terremoto, 

me leram até aqui…

Não esqueçam de comparecer ao evento abaixo:

 

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ENCONTRAM-SE ATORES

»Públicado por em jul 24, 2016 | 1 comentário

 

O que foi o curso “O Ator e o Ato Criativo”, produzido pela Casa Aguinaldo Silva de Artes em São Paulo? Não preciso nem explicar – o vídeo abaixo diz tudo. Apenas acrescentarei que, sob o comando da mestra Júlia Carrera, e com a minha supervisão, durante três dias 36 atores paulistas deram tudo de si nas 12 horas de curso intensivo no Centro de Convenções do Blue Tree Avenida Paulista com uma garra e uma aplicação, para mim, poucas vezes vistas. Saí de lá com a certeza de que futuros grandes atores lá estavam… E aqui fico a torcer por todos eles, deixando também um aviso aos que não puderam fazer nosso curso: em breve voltaremos.

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MINHA (VERDADEIRA) LAPA

»Públicado por em jul 22, 2016 | 2 comentários

 

Sim, eu morei na Lapa, mas não nesta de agora, que é cenográfica e falsa, e sim na verdadeira, da década de 60, quando a malandragem ainda reinava por lá. Minhas memórias da Lapa estão em “Turno da Noite”, o livro que estou lançando agora, e mais ainda em “Lábios que Beijei”, outro livro que publiquei há alguns anos e pretendo reeditar ainda este ano. Como era minha vida nesta Lapa de todas as (des)aventuras? Dou uma palhinha no artigo aí embaixo, viajem comigo até lá.

Acima e abaixo, em 1966 no mirante do meu sobrado da Rua Visconde de Maranguape (que foi inteiramente derrubada): eu vivi e testemunhei os anos finais da verdadeira Lapa.

Minha primeira casa no Rio de Janeiro, onde cheguei em 1964, foi  um sobrado na Rua Moraes e Vale 36, na Lapa. Já então ele estava em decadência, hoje é quase uma ruína. Mas ainda está lá, servindo de moradia a pessoas que parecem ter saído de outras eras.

Lá fiquei três anos, até mudar para outro sobrado, na Rua Visconde de Maranguape. Este não existe mais, assim como a rua onde ficava. Junto com outras ruas, ela foi derrubada para dar lugar àquela praça enorme e vazia de sentido em torno dos Arcos da Lapa.

A demolição da rua em que morava coincidiu com minha prisão. Foi do sobrado da Visconde de Maranguape que saí para minha temporada de 70 dias no presídio da Ilha das Flores. Fui enviado para lá pela ditadura por causa de um texto polêmico que então publicara. Como já falei mais sobre isso do que o pudor me permite, não vou dar detalhes. Afinal, sempre acreditei em meu pai, quando ele dizia que, para um homem, seja por que motivo for, ser preso é a maior vergonha.

Quando saí da prisão a Lapa que eu conhecera e onde vivera não existia mais. Fora destruída, e com ela o estado de espírito – livre, debochado e atrevido – dos que a povoavam. Eu fui um deles enquanto pude. E embora minha vida tenha dado tantas e tantas voltas, até hoje me orgulho desta minha temporada no inferno/quer dizer: na Lapa.

As noites em que saí do sobrado da Moraes e Vale… Acendia uma vela e me benzia na porta da Igreja da Lapa, atravessava o Passeio Público e a então mágica Cinelândia e ia sentar numa das mesas do Bar Amarelinho… Lá, com meus amigos de então, ficávamos até o último chope da madrugada. O último não, sempre o penúltimo. Pois ainda havia aqueles que regavam o prato de moelas do Bar Tangará, uma obrigatória delícia gastronômica diária.

Tal como a Cinelândia, a rua Álvaro Alvim, onde ficava o bar Tangará, também era mágica. Lá tínhamos o Teatro Rival e o cine Rex, que sobrevivem até hoje, e mantêm um toque do espírito da época. Era no Rex, especializado em filmes pornôs, que eu e meus amigos vivíamos a parte mais dark de nossas histórias. De lá saíamos sempre acompanhados para uma visita à Hospedaria Hostal. Na rua Gomes Freire, a hospedaria ficava na parte mais remota da Lapa. E continua lá até hoje recebendo clientes que parecem atravessar um túnel do tempo que os traz diretamente de épocas já passadas.

O que dizer do Largo da Lapa? O armazém do seu Elias onde eu comprava o pão e a mortadela. A loja da água Hydrolitol, capaz de soltar os intestinos mais teimosos. O restaurante Capela, que hoje existe em outro local e a cujo nome foi acrescentado um “Nova”. As leiterias Bol e Brasil, o território neutro das madrugadas onde se reuniam em paz todas as tribos – bandidos, polícias, malandros, cafetões, travestis e prostitutas… Além de jornalistas.

Em plena ditadura, embora o terror se manifestasse a todo momento, as pessoas viviam o instante com uma sofreguidão única. Afinal, eram os anos 60 e 70, e apesar de tudo a ordem universal era: “cortem as amarras!” E isso nós, os noturnos cidadãos da Lapa, já fazíamos.

Hoje caminho por este território que não existe mais e me pergunto:

“Quem são essas pessoas que por aqui transitam? Por que são elas que hoje povoam minhas ruas, embora não façam parte de minhas lembranças?”

Porque a Lapa não essa falsa de agora, mas a que eu conheci naquela época, me embalou e me criou. E foi por ter vivido intensamente nela que cheguei onde estou agora.

 

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“TURNO DA NOITE”, VIDEO1

»Públicado por em jul 20, 2016 | 3 comentários

 

Júlia Lemmertz,

emocionante,

lê trecho do meu livro.

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