CANNES EM BANGLADESH

»Públicado por em mai 24, 2015 | 1 comentário

 

Acho que o Festival de Cannes escolhe os vencedores pelo nome dos diretores: quanto mais complicado é o nome do sujeito, e quanto mais exótico e remoto for o país dele, mais chances tem ele de ganhar. E o que os filmes americanos vão fazer em Cannes, me digam? Há anos que eles não ganham nem um croissant com manteiga rançosa! Aliás, eu pergunto: qual foi o último filme ganhador do Festival de Cannes que você assistiu? Um croissant na manteiga rançosa, com gosto de francês-detesta-tomar-banho, pra quem se lembrar.

(E aqui eu aproveito pra divagar um pouco. Sabe qual era a primeira frase que os travestis brasileiros diziam aos clientes quando estavam no auge lá em Paris? Era: vite, cheri, a la douche!, que, traduzido livremente, significa: “depressa, querido, vai lavar o piru!”)

E agora, voltando ao assunto. Claro, dizem que os americanos vão lá fazer negócios, e estes não têm nada a ver com a competição do festival, mas rendem horrores. De qualquer modo, uma coisa é certa: embora não ganhem merda nenhuma no festival do croissant, os americanos, por derramar por lá uma nota preta, é que o sustentam.

Vejam só como são exóticos os ganhadores e complicados seus nomes nas fotos aí embaixo. Na primeira o húngaro Lazlo Nemes, responsável pelo melhor filme. Na segunda, o twanês Hao Hsiao-Hsien… Cruzes! O melhor diretor. E na terceira Yorgos Lanthimos, grego, que deve ter sido fortemente recomendado pelo Ministro das Finanças do seu país de origem (o tal de Varufakis, que se acha o maior gostosão) ganhador do Prêmio acho que do Júri.

 

 

As chances dos filmes deles serem exibidos aqui nem que seja num remoto Cine Estação? Nenhuma! Já este felomenal Mad Max de Georges Miller… Tá quebrando todas as bancas no mundo inteiro, mas no Festival de Cannes não passava nem pela porta.

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A CULPA É DO MORTO

»Públicado por em mai 21, 2015 | 19 comentários

 

 

VALE A PENA LER DE NOVO

Recebi de um leitor que se assina “Jonas dentro da Baleia” o comentário abaixo. Pela pertinência do mesmo, e porque concordo com ele de A a Z, sem esquecer o  Dabliu e o Ipisilone, eu o republico aqui em cima: vale a pena ler de novo:

Aguinaldo: saí para a night neste fim de semana pensando que, com tanta gente sendo esfaqueada e roubada – pela ordem – nas ruas o movimento estaria fraco. Ledo engano. Em Copacabana, onde me dizem que você mora – mas raramente é visto – as tribos todas de sempre se misturavam, e uma delas é a a dos ladrões e trombadinhas. Parece que as pessoas, que insistem em chamar de Cidade Maravilhosa um lugar onde há mais mortes violentas que em Bagdad, no Iraque, simplesmente resolveram assumir que a vida é assim mesmo e, como você diz, phoda-se. Os jornais de hoje – e os de amanhã e os de depois e depois – noticiarão mais assaltos, mais mortes, mais roubos – na rua e nos cofres públicos – e o povo brasileiro, sem perceber que essa guerra é contra ele, continuará se achando o máximo e correndo em busca do próximo pagode e do próximo chope.

 

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Quem praticou essa violência aí

embaixo pela lei não pode ser preso

nem chamado de “criminoso”

Na última terça-feira uma atriz bastante prestigiada, numa entrevista a um jornal carioca, deixou clara a sua posição contrária à diminuição da maioridade penal para 16 anos e denunciou o que ela vê atualmente no Brasil: “um conservadorismo político apoiando um conservadorismo social, de idéias, de princípios, de valores”. Um dia antes, num jornal paulista, um jovem autor igualmente prestigiado (tanto quanto pode ser prestigiado um autor de livros de ficção) pregou a liberação total das drogas como um dos antídotos para a violência que ora grassa em nossas grandes, médias, pequenas e até mínimas cidades.

Por coincidência, no dia mesmo em que foi publicada a entrevista da atriz, aconteceu aquele caso pavoroso na Lagoa, no Rio de Janeiro, em que um cardiologista, rendido por dois menores quando passeava em sua bicicleta, foi violenta e mortalmente esfaqueado mesmo depois de entregar tudo que levava – incluindo a bicicleta – sem resistência.

Antes de fugir na bicicleta da vítima, um dos menores fez questão de esfaqueá-lo, e com tamanha violência que lhe rasgou o baço, o fígado, o diafragma e o pulmão, após o que montou no veículo e, levando na garupa o colega (se eu escrever cúmplice alguém vai se declarar ofendido, tenho certeza), fugiu tranquilamente pela orla da Lagoa.

 

O cardiologista Jaime Gold, 56 anos na foto acima, não resistiu aos ferimentos e morreu. Foi o quarto caso de pessoas atacadas na orla da Lagoa em um mês. Minha experiência de repórter policial me diz que são grandes as chances de ser o mesmo – eu ia escrever bandido, assassino, meliante, mas como se trata de uma “criança” tenho que dizer “pessoa” que praticou esses – não posso dizer “crimes”, menores não os cometem, vamos chamar de “atos”. Se fosse um maior, poderíamos chamá-lo de “assassino serial”, mas a um menor não se pode fazer tal acusação sem ser tachado de “conservador”, “retrógado”, “desumano” e “impiedoso”.

Pela lei atual – com cuja imutabilidade a prestigiada atriz concorda fortemente – essas “pessoas” que mataram o dr. Jaime Gold não devem ser punidas, pois são irresponsáveis do ponto de vista penal. Não podem ser presas, mas sim, “apreendidas”. Assim, não temos outra saída senão deixar que eles continuem com os ataques até que completem 18 anos e aí se transformem em criminosos de verdade, coisa que agora, mesmo roubando, esfaqueando e matando, por força da menoridade, não são.

Quanto ao escritor e seu artigo pela total liberação da droga, eu gostaria de dizer que o problema da droga, como o próprio nome indica, é a droga, e não quem tenta reprimir o seu comércio. E não haverá liberação que torne a droga, com seus malefícios fartamente comprovados, uma coisa benfazeja, nem o seu comércio um ato tão inocente quanto, por exemplo, a venda de pipocas.

Quem se droga, e se acha no direito de se drogar cada vez mais, acabará com um problema que afetará não apenas a ele próprio, mas a todos que o rodeiam – o vício, Sim, porque a droga vicia… E mata. Mas antes de chegar a esse estágio final provoca um estrago de monta no usuário e naqueles, parentes, amigos, que se vêem na obrigação de ajudá-lo. Por isso a droga nunca é um problema apenas de quem a usa, é de toda a sociedade, que, com ela legalizada ou não, terá sempre de vê-la como ela é realmente – um problema.

Essas pessoas que se dizem contra a redução da maioridade penal e a favor da completa liberação das drogas se consideram “progressistas”, por isso denunciam o “conservadorismo” dos que deles discordam. O que elas não percebem é que o “progressismo” delas foi violentamente atropelado pela realidade dos fatos. A lei que protege os menores até os dezoito anos é do tempo em que as meninas permaneciam donzelas até essa idade. Hoje há meninas de treze anos tendo filhos, algumas aos quinze já foram mães duas vezes – a maioria de crianças sem pais, e não há mais lugar para a inocência que protegia essas criaturas, forçadas pela realidade a se tornarem adultas antes do tempo – e a ter filhos e cometer – vamos dar nomes aos bois, afinal de contas – crimes antes dos dezoito anos.

Sou contra as drogas, porque sei que, mesmo legalizadas, elas continuarão sendo um fardo pesado para os que a consomem ou não. Quanto aos maiores de 16 anos que cometem crimes  – porque não pode ser outra a designação para o ato de matar uma pessoa com tamanha violência, como fizeram com o dr. Jaime Gold, acho sim, pelo sangue frio que revelam em seus atos, que eles têm plena consciência do que fazem, o que os torna responsáveis pelos seus atos. Assim, que me desculpe a prestigiada atriz, criminoso seria apenas passar a mão na cabeça deles em vez de puni-los. (Aguinaldo Silva)

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ELE AMA PARAISÓPOLIS

»Públicado por em mai 18, 2015 | 10 comentários

 

Típico malandro… paulistano. O “Jurandir” de Alexandre Borges em I Love Paraisópolis, se vira como pode – muitas vezes de maneira duvidosa -, mas é figura adorada na comunidade onde vive. Aos 30 anos de carreira e 49 de idade, o ator conjuga bem os tipos galã e cômico. Simpático, articulado e sem fugir a qualquer pergunta, ele fala sobre sua vida, carreira e o casamento de 22 anos com a atriz Júlia Lemmertz. Enquanto na trama das 19h é pai de Danda (Tatá Werneck) e cria Marizete (Bruna Marquezine) desde pequena, na vida real ele é pai de Miguel, de 15 anos, que, por enquanto, pretende ser jornalista esportivo, e da atriz Luiza Lemmertz, de 27, filha do primeiro casamento de Júlia. Romântico inveterado, Alexandre deixa bilhetes, dá presentinhos, flores, e o melhor: é ele quem compra a lingerie – geralmente preta ou branca – para a amada. “Escolho o que sei que ela vai se sentir bem, mas também o que vou gostar de admirar”.  

Entrevista de Simone Magalhães

fotos: Fco. Patrício 

 

Jurandir ganhou seu próprio tema musical na novela (Bon Vivant Maneiro, de Pretinho da Serrinha)…

Tá vendo que coisa chique? (risos)

Diz que “o Juju é 171, mas todo mundo gosta dele”. Um pagode muito animado.

Também achei, e é a cara do personagem. 

Por falar nisso, a inspiração do Jurandir veio do jardineiro Estevão Conceição, de Paraisópolis?

Ele é um exemplo do morador típico da comunidade. Como o Gaudí (apelido de Estevão), que nunca tinha ouvido falar em Antoni Gaudí (arquiteto catalão, falecido em 1926). A história é muito interessante. Tinha roseira ao lado da casa dele, e ela começou a despencar. O Gaudí passou a construir um suporte, com coisas que encontrava no lixo, em torno da roseira. A construção foi aumentando, e tornou-se uma casa meio obra de arte – com pedaços de azulejos, pedras, sucatas. E ela foi crescendo, virando um labirinto, pra ele poder subir até o topo da roseira.

E como ele ganhou o apelido?

Anos atrás, por causa de uma homenagem ao Gaudí, em Barcelona, abriram um concurso mundial para pessoas que foram influenciadas pelos trabalhos dele. Um repórter havia feito uma matéria sobre esse jardineiro, em Paraisópolis, e mandou a foto da casa para o Instituto Gaudí. Eles amaram e convidaram o Estevão para ir a Barcelona.

Imagina a surpresa! Ele nem sabia onde era Barcelona?

Não sabia! E foi conhecer as obras de Gaudí. Quando voltou a Paraisópolis ganhou o apelido, e ficou muito famoso lá.

Essa casa foi a que apareceu nos primeiros capítulos, com milhares de pedaços de azulejos, placas de carros, e uma rampa enorme?

Exatamente!

E seu personagem é famoso como o Gaudí na comunidade?

É um cara que sente orgulho de Paraisópolis, como o Gaudí e a Isolda, interpretada pela Françoise Forton, que faz um trabalho voluntário dando aulas de balé para as crianças. O Jurandir é uma espécie de homenagem a essas pessoas. Ele é uma cria dali.

Mas com tantos exemplos de empreendedores, por que seu personagem não é chegado ao batente?

(risos) Bom… Tem a falta de mercado de trabalho, de uma formação mais específica… Aí, ele faz “bicos”. Transita bem na comunidade, e aposta em brigas de galo, dominó, faz ligação clandestina de TV a cabo, um carretinho aqui, outra coisa ali.

Mas o dinheiro das apostas ele pega da ex-mulher, a Eva (Soraya Ravenle), não é?

Tem todo um passado entre eles. É aquele cara que fica encostado e, por exemplo, se vê aquela peça ali (aponta para um vaso), vende e consegue algum dinheiro. Tanto que ele quebrou o telhado da Eva fazendo a instalação pirata da TV a cabo, comprou as telhas, todo o material, mas na hora de pagar saiu fora. Depois, ganhou uma grana no dominó e pagou tudo. Então, ele vai indo nessa ‘função’ (risos). Joga dominó, cartas, palitinhos, no bicho… Vale tudo. Mas não o vejo como um mau-caráter.

Mesmo separado, ele ainda gosta da Eva. E parece que ela também. O que aconteceu: ele preferiu se afastar ou ela se cansou?

Ela se cansou, porque queria um homem responsável. Mas ainda existe um clima entre os dois.

Você gostaria que houvesse uma redenção do Juju por amor ou você é contra o politicamente correto?

Não sou contra o politicamente correto. Em certos personagens o que conta é o efeito da situação, nesse caso as tentativas de reconquistar a mulher. Acho que a redenção é legal, já que a vida te traz oportunidades diferentes. Pode pintar alguém interessado nela, o Jurandir ficar com ciúmes… Imagino ele tirando a barba, se arrumando e indo procurar emprego no centro de São Paulo. O personagem tem uma estrutura de comédia, mas não sei como se vai mudar ou não até o final. Só sei que gosta muito dela e adora as filhas.

 

Por falar nas filhas, as duas vão em busca do sonho americano e, como muitos brasileiros, acabam se dando mal. Você acha que esse aumento da busca por viver em outros países significa que o Brasil está inviável?

Todo mundo tem seu sonho e deve se arriscar. Eu sempre quis ir pra fora e, aos 24 anos, fui morar no Porto, em Portugal. Vivi lá por um ano e meio. Estudei, fui a festivais de teatro… Foi maravilhoso, tenho grandes recordações, e adoro Portugal. Mas me lembro que houve uma migração muito forte na época do Collor (ex-Presidente Fernando Collor de Mello). Depois, fiz até o filme Terra Estrangeira, do Walter Salles, com a Fernanda Torres, abordando os problemas dos imigrantes. Mas acho que o Brasil viável, sim. Eu batalho no meu trabalho, não adianta ficar esperando só coisas governamentais. Acho que a gente deve se envolver em projetos sociais, ajudar as pessoas. Levantar o nosso nível individualmente para dar uma contribuição forte. Tenho muita fé no Brasil.

Você falou de Portugal com um carinho muito especial.

Eu trabalhei lá com o pianista João Vasco num projeto chamado Poema Bar. Fomos a Berlim, a Colônia e a Paris. E vi como os brasileiros têm saudades, levam uma vida sofrida e a muitos não conseguem voltar. O sonho parte de uma fantasia muito pessoal, mas podem vir as decepções, e, mesmo assim, você não abrir mão, não querer voltar para não ser visto como um fracasso. Mas em Portugal resgata-se um pouco da nossa história, há respeito às leis, às hierarquias, tudo muito organizado, subsídios para o teatro… É um país de que eu gosto muito.

Luiza, filha da Julia, escolheu ser atriz. A última notícia que tive dela é que estava trabalhando em teatro com Zé Celso Martinez. Ela pensa em fazer televisão?Ela  agora está com Antunes Filho. E pensa em televisão, sim.  Mas eu e a Júlia achamos supercerto  ela ter uma base no teatro. Luiza está fazendo sua trajetória. Foi de repente que resolveu investir na profissão, e acho que tudo tem seu momento.

Foi assim com você?

Eu estou envolvido com teatro desde criança. Meu pai (o diretor Tanah Correa) sempre me levava. Comecei a gostar, demorei um pouco a entrar na carreira, mas depois de fazer teatro e cinema veio Guerra Sem Fim (1993), na extinta Rede Manchete. O Paulo José me viu na novela, e me chamou para a minissérie Incidente em Antares (1994), na Globo. E, logo depois, veio Engraçadinha… Seus Amores e Seus Pecados…

Acho que foi o seu boom na TV, não?

Foi. As cenas eram muito marcantes.  Aquela em que meu personagem fica com o da Claudia Raia em cima do carro, na chuva… Falam até hoje (risos). Embora tivesse esse lado do teatro forte em mim, sempre fui  noveleiro.  Meus pais eram separados, e a TV acabou virando minha babá eletrônica. Via desde a Sessão da Tarde até as novelas das seis, das sete, das oito… A primeira vez  em que contracenei com Tarcísio Meira e Francisco Cuoco quase tive um treco (risos).

E, além de galã, acabou investindo em sua veia cômica…

Queria fazer personagens ousados, fugir do estereótipo careta. E fiz uma variedade interessante de tipos na TV. Acho que a comédia, não querendo comparar,  mas lembrando,  tem a ver com o (Marcello) Mastroianni, um lado do humor que passa pela sensualidade, pela humanidade. No meu caso, uma vontade de fazer tipos brasileiros: ‘eu sou assim, mas não consigo ser diferente’, como o Cadinho, de Avenida Brasil. Ele amava as três mulheres, de verdade.

DOIS AMORES, CASAMENTO… OPINIÕES

Você acha que é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo?

Acho que sim, mas deve ser complicado. Eu sou muito de viver o amor, a paixão, de estar focado em alguém.  Existem pessoas que têm relações com outras durante muitos anos, formam uma segunda família que, às vezes, só ficam sabendo quando elas morrem. Ou vivem o amor como uma aventura: passam pela janela e já se apaixonam. Nossa… Acho que tem um pouco de Vinícius de Moraes nisso (risos).

Recentemente, a novela Império mostrou personagens bissexuais. O do José Mayer tinha o consentimento da esposa. Mas o público sempre fica com um pé atrás quando esses assuntos chegam às novelas. O que você acha?

Tudo é possível em relação a sentimentos. São tão complexos os desejos, as vontades. Fico pensando naqueles que passam a vida tentando assumir o que realmente preferem, mas não conseguem. Às vezes é cruel, é triste. E quando a novela mostra isso…  Acho que daqui a dez, 20 anos, vamos olhar o que foi a história para chegar até aquele momento. É preciso quebrar barreiras. Mas quando você pensa que a novela é uma coisa caseira, de pessoas jantando com a família, e que a maioria não consegue explicar às crianças o que está acontecendo, não consegue ou não sabe tocar no assunto, aí pode se tentar entender o porquê de sentimentos de rejeição.

Mas imagina se você tem um personagem que seguirá tal trajetória, com um perfil delineado, e, de repente, sua carpintaria não valeu, tem que mudar o que  imaginou para ele. Não é complicado?

Na novela  tem que estar preparado pra tudo: é um jogo com o público, o único tipo de dramaturgia em que você tem essa interferência tão forte, que pode mudar rumos. E acho interessante: é a obra aberta. Vejo um pouco isso em relação à vida. Em um ano pode mudar tudo na vida de uma pessoa.

Mas essa proximidade do público, estar na casa dele todos os dias, traz fama, sucesso, e o lado ruim: boatos.  Você se chateia com essas repetidas vezes em que falam  sobre separação no seu casamento com a Julia?

Essas coisas não vêm na vocação, no DNA do ator. A fama ou a projeção você vai aprendendo a lidar. Como isso de tirar fotos, dar autógrafos, falar de assuntos pessoais, ouvir que você está bem ou mal num trabalho, gordo ou magro, mais feio, mais bonito… Sempre vão ter opiniões diversas, vão falar da sua vida. Tenho uma carreira de 21 anos na Globo, e já fiz muita coisa. Essa satisfação é maior do que tudo. Nós sempre quisemos ser atores, e batalhamos muito, independentemente de sermos casados, é a dedicação de uma vida inteira… E quando sua vida pessoal fica mais importante do que isso é complicado. Nossa relação tem crises, brigas, discussões como a de todos os casais, mas tem companheirismo, minha admiração muito grande pela Julia, antes mesmo de fazer TV. Nunca fugi de falar sobre esses altos e baixos, mas é cruel no sentido de você ter de ser um padrão, um exemplo, e não poder ter uma relação normal, como todo mundo, porque somos artistas.

 

 

Falando  em exemplo,  artistas acabam servindo como parâmetro, também são para os modismos. Você está com essa barba por causa do Jurandir, mas não é um ubersexual (risos). Acha que a ditadura da moda e da cosmética está invadindo cada vez mais o mundo masculino?

Sempre a moda masculina foi meio sem graça, aquela coisa de terno e gravata. Nos anos 60, os hippies deram uma desbundada e começaram as mudanças, com batas, bolsas. Nos anos 70, calça boca de sino, discotecas… Nos 80, aqueles  mullets, lembra? (risos). Depois, vieram os mauricinhos e por aí foi.  Acho que há um investimento maior agora no público masculino, mais variedades, possibilidades de estilos diferentes.

E quanto aos procedimentos estéticos? Faria?

Não! (pausa longa)

Você ficou meio assustado?

 É que não consigo me imaginar olhando no espelho e me vendo diferente. Tenho medo de colocar botox, essas coisas. Procuro sempre me cuidar, faço limpeza de pele, hidratação, uso filtro solar, hidratante, mas nenhuma substância que mude como cheguei até aqui. Penso sempre que o universo de Shakespeare tem Romeu, Hamlet, Macbeth até chegar ao Rei Lear, papéis para todas as idades (risos). Acho que a Fernanda Montenegro já disse algo semelhante: o ator são as rugas que estão na história dele. E isso vai me dar o estofo, a possibilidade de envelhecer e retratar esse tipo de homem, como é a decadência física pela qual  todos passamos. Só espero conseguir chegar aos 70, 80 anos bem, e no palco.

 

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CHATÔ, O REI DO BRASIL

»Públicado por em mai 18, 2015 | 5 comentários

 

 Fernando Moraes, o autor da biografia de Assis Chateaubriand, diz que o filme de Guilherme Fontes finalmente está pronto, “e quem viu gostou”. E, para provar isso, postou até o trailler de “Chatô, o Rei do Brasil”, que está no You tube, mas vocês também podem ver aí em baixo. Será que agora o filme mais misterioso e complicado de todos os tempos do cinema brasileiro finalmente sai? Vamos torcer pra isso.

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ELIAS GLEISER ESTÁ VIVO

»Públicado por em mai 16, 2015 | 6 comentários

 

 

Para mim ele foi sempre o Jairo da Marinete, personagem que interpretou como ninguém (na foto, com Rosane Gofman) na minha novela “Tieta”. Não que ele não tenha vivido outros personagens marcantes. Era um exímio criador de tipos, tinha um talento raro para valorizar os bordões que os autores lhe davam… Enfim: era um grande ator da velha guarda, mais um que se foi, mas que, se depender de mim e de milhares de telespectadores que o viram atuar nunca será esquecido.

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LISBOA É UMA FESTA MÓVEL

»Públicado por em mai 15, 2015 | 11 comentários

 

Prestem atenção no azul do céu nestas duas fotos entre as quais este texto vai ensanduichado. Dizem os especialistas que não existe outro igual em nenhum lugar do mundo. É o famoso azul do céu de Lisboa, que já mereceu até filme com este nome (do cultuado – mas não por mim – Win Wenders). A capital portuguesa recebe por ano mais turistas que o Brasil inteiro. E, com pouco mais de um milhão de habitantes, vive nestas primavera europeia uma festa móvel, atraindo visitantes que se desviaram do habitual roteiro de férias no Oriente Médio para fugir das guerras, dos sequestros e dos ataques do terrorismo.

 

Leio nos jornais brasileiros que a Casa Daros, inaugurada há poucos meses aí no Rio, será fechada sem maiores explicações. A que eu achei por minha própria conta é a de sempre – a que leva tanta gente a investir pesado no nosso país, e depois deixar tudo pra trás, fechar as portas e ir embora: o Brasil não é para principiantes… E também não é lugar onde a cultura dê filhotes. Praia, carnaval e futebol, tudo bem; mas arte? Programação cultural que permita diversificar e enriquecer os programas dos visitantes? Isso não temos… E a julgar pelo fechamento intempestivo da Casa Daros, até parece que não queremos.

Já Lisboa… Marco Bittencourt me pergunta no facebook se aqui tem um Museu da Ciência. Respondo que tem, sim, querido: e também tem o da Eletricidade, da Água, dos Azulejos, da Arte Antiga, das Navegações Marítimas, das Forças Armadas, do Fado… E, além de muitos outros mais, tem a Fundação Calouste Gulbenkian, o Centro Cultural de Belém com a fantástica, absurda, imensurável Coleção do Comendador Berardo (só Picassos são doze, pelo menos seis de ponta)… Além deste de que agora vos falo: o Museu do Design e da Moda, mais conhecido como MUDE.

 

 


É no MUDE que está agora a coleção de figurinos do cenógrafo Antônio Lagarto. Eu consegui fotografa-la (acima) apesar dos protestos de uma segurança que me seguia aos sussurros de “não é permitido, não pode!”. E é lá que está também a exposição mais dramática que já vi em toda a minha vida – a dos vestidos icônicos de Christian Lacroix… Dentro de uma enorme caixa forte.

Eu disse caixa forte? Isso mesmo, porque o prédio do MUDE, na Rua Augusta, foi a sede de um tradicional banco português, o Totta Açores, hoje Santander Totta. O prédio belíssimo já não funcionava mais como banco e ia ser reformado – e adulterado – quando alguém gritou: “parem as máquinas!” E deu a ideia de deixá-lo como estava, assim, meio arruinado, com as paredes descascadas e o chão por vezes desnivelado, e transformá-lo no Museu do Design – ideia logo encampada por vários colecionadores portugueses que doaram ao MUDE suas coleções e o transformaram numa joia.

Eu disse que tudo ficou meio arruinado no prédio… Menos a sala dos cofres, que é uma verdadeira caixa forte. São milhares; eram alugados aos clientes do banco para que neles guardassem tudo que não podiam manter em casa. Por ali passaram verdadeiras fortunas. Além das salas monumentais dos cofres, existem dezenas de outras, menores, mas com portas à prova de qualquer ataque, dentro das quais os clientes podiam abrir em segurança e a salvo de olhares curiosos seus próprios cofres.

É nesta sala monumental, sempre mergulhada na penumbra, que estão os vestidos de Christian Lacroix. Vê-los neste cenário dramático é uma experiência inesquecível… Que não pude documentar, pois mal saquei da câmara um segurança me pegou pelo braço e avisou: “se tirar fotos eu lhe expulso”.

Nesta manhã em que lá fui o MUDE estava cheio – a entrada, assim como no Centro Cultural de Belém, pasmem, é grátis! E, no meio daquela Babel, que incluía caravanas de asiáticos, era possível ouvir aqui e ali o sotaque brasileiro, o que me deu a impressão de que, se não temos museus que valham a pena, gostaríamos de tê-los.

 

Ah, sim, antes que me esqueça. Nesta minha estadia em Lisboa fui a Óbidos duas vezes, e lá fiquei hospedado neste hotel da foto acima, que é uma verdadeira jóia. É a cidade medieval mais bem conservada em Portugal e cabe inteirinha dentro dos muros de um castelo. Não deve ter mais do que 50 mil habitantes. Mas lá tem onze livrarias, mais que as únicas cinco que pude contar até agora em Copacabana… Uma delas – vejam nas fotos abaixo – dentro de uma igreja… E sim, havia brasileiros lá a folhear livros, o que também indica que, se não temos livrarias, precisamos tê-las.

 

 

 

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SEMPRE TEREMOS PENICHE

»Públicado por em mai 13, 2015 | 10 comentários

 

Fez ontem uma semana que caí feito uma jaca madura em plena rua de Lisboa. “Caí” é pouco:  desabei fragorosa e espalhafatosamente e durante alguns instantes permaneci fora de órbita. Desde então, e até hoje logo depois do almoço, me vi num dilema que atormentou horas, minutos e segundos de todos os meus dias: “vou ou não vou a Paris?” A viagem seria nesta quinta-feira, dia 14, e eu, sujeito a tonturas e tremeliques desde a queda, temia não estar no meu estado mais perfeito para me afastar da minha base na capital portuguesa.

Fco. Patrício, que teve a paciência de ouvir por telefone e por skype minhas dúvidas, ironizou: “ah, ir ou não a Paris… Já pensou se todo mundo tivesse que enfrentar apenas este dilema?” Tudo bem, posso parecer fútil fazendo desta a grande preocupação da minha vida… Mas a verdade é que havia outra, maior e mais importante por trás dela, que era: teria eu alguma sequela ainda não sabida em consequência da queda? E se ela se revelasse só quando eu estivesse flanando na capital francesa? Lisboa é minha terceira casa – o Rio é a primeira, Petrópolis é a segunda. Mas como seria me ver doente, a depender da bondade de estranhos, numa terra estrangeira?

Bom, antes de decidir se ia ou não eu tinha ainda uma semana. O que fazer para me certificar do meu real estado? Trabalhar, é claro. Botar as caraminholas todas para funcionar em regime full time, como sempre faço. Para isso, elaborei rapidamente uma lista de filmes e selecionei dois livros, que deveria consumir, analisar e esmiuçar neste período…

Que acabou sendo glorioso. Vi, noite após noite, episódios de “House of Cards”, “Sherlock) “True Detective” (a segunda temporada da primeira e as primeiras temporadas das duas outras completas) e mais os filmes: “Fox Catcher”, “Any Day Now” “Em Parte Incerta”, “Relatos Selvagens”e as “As Duas Faces de Janeiro”. E li, nos intervalos, os livros “Roth Revisitado”, de Cláudia Roth Pierpont, e “Noturno Chileno”, de Roberto Bolaño. Além disso atuei loucamente no facebook, no twitter e aqui no blog, onde postei vários textos.

 

E assim a semana se passou, a tontura se foi, a dor no alto do coco praticamente sumiu, a vaga sensação de desequilíbrio parou quando mudei de óculos… Mas a dúvida continuou me rondando: vou ou não a Paris, carago… Ou antecipo minha volta ao Brasil e trato de ir ao dr. Denílson? Era a pergunta que me fazia, ainda nesta quarta-feira, enquanto rumava para Peniche, onde fora convidado para almoçar num icônico restaurante de lá, a Tasca do Joel, no qual criaturas como Catherine Deneuve e John Malkovich costumam se sentir em casa. Lá fui, almocei mariscos dignos dos deuses, comi um peixe de nome estranho e caratonha terrível chamado cancarro… E bebi, coisa que vinha evitando fazer desde a queda, Mas bebi memoráveis vinhos brancos, arrematados com um Porto daqueles. E, no final dessa refeição lautesca, finalmente chegara à solução do meu dilema, que é…

Vou viajar sim… E vou me divertir muito!

 

(Na foto acima, após o almoço, com Luís Ferreira, César Ribeiro e o próprio Joel da Tasca inesquecível de Peniche)

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