GENTE, A CHAPA FERVEU!

»Públicado por em jul 2, 2015 | 0 comentário

 

fotos: Fco. Patrício

Cumpri minha promessa e ontem à noite fiz uma longa viagem de duas horas aqui de Copacabana ao Recreio dos Bandeirantes para participar do programa do Léo Dias na rádio FM 0 Dia, pois uma mão lava a outra: ele veio aqui em casa e me deu uma entrevista polêmica, eu fui lá e dei uma entrevista ainda mais polêmica a ele, Antônia Fontenele e Dedé Galvão, além dos ouvintes da rádio… E todos me fizeram perguntas indiscretíssimas, às quais eu respondi sendo mais indiscreto ainda. A chapa ferveu, gente, como sempre acontece quando vários boquirrotos se encontram – e quanto estes boquirrotos são também jornalistas de ponta ela ferve mais ainda. A entrevista completa está no vídeo abaixo. Tem mais de uma hora, mas eu aconselho a vocês que o vejam todo, nem que seja em capítulos; vale a pena, pois nunca antes se falou tanto e tão sinceramente sobre a televisão e a fama. Enquanto conversávamos, Fco. Patrício documentava este momento histórico tirando as fotos que publicamos acima e logo abaixo do vídeo.

 

…E vejam o making off aqui embaixo

e mais embaixo ainda, na galeria.

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MEMÓRIA DO JORNAL DE VEADOS

»Públicado por em jun 28, 2015 | 5 comentários

 

Num dia de março de 1978 entrei no restaurante Cesare, ali no Posto Seis, Copacabana, comi um filé a Chateaubriand regado a duas caipirinhas, e depois caminhei até um prédio da Avenida Copacabana onde morava um certo João Antônio Mascarenhas, e lá me reuni com dez jornalistas gays que me esperavam para discutirmos a criação de um jornal, ahn, uhn… enfemisticamente “dedicado às minorias sem voz”, mas que acabou sendo o que foi: com muito orgulho, um jornal de veados.Três meses depois, em junho do mesmo ano, há exatos 37 anos, saía o primeiro número de “Lampião da Esquina”, que durou três anos, enfrentou dois processos na Justiça Federal – pela Lei de Imprensa vigente na época – e que, com o passar do tempo, se tornaria um clássico da imprensa alternativa brasileira, ainda hoje festejado e elogiado. A história deste “órgão da imprensa” é contada de forma resumida nos dois videos abaixo. Quem aparece no segundoi é outro dos fundadores do Lampião da Esquina, o escritor João Silvério Trevisan.

 

Por que volto a falar agora do Lampião? Primeiro porque me dei conta que já se passaram 37 anos desde que editamos o seu primeiro número, isso no auge da ditadura, e sob a permanente vigilância do então Ministro da Justiça, Armando Falcão, supostamente um homofóbico, embora, quanto a isso, houvesse na época sérias controvérsias… E porque decidi escrever um livro sobre essa grande aventura que foi criar, editar e por em todas as bancas um jornal de veados na época menos apropriada para tal feito.  Aguardem, pois vou inovar: publicarei o livro em capítulos na internet.

 

 

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ONTEM É HOJE OU É AMANHÃ?

»Públicado por em jun 26, 2015 | 10 comentários

 

Já se foi a época em que o tempo

apenas passava. Agora ele voa!

“Por que você matou o comendador, carago?!” 

 

“O tempo passa, o tempo voa, mas a poupança Bamerindus continua numa boa”. Lembram? Claro que não; este era o refrão de um comercial do tempo antiquíssimo em que a tevê era feliz e não sabia. A poupança e o Bamerindus já eram. A felicidade dos altos índices de audiência já não bate mais à porta da tevê aberta. Mas o tempo, ah, este continua a passar e a voar cada vez mais rápido. Tanto que ontem eu estava debruçado na minha varanda a observar extasiado os fogos do Reveillon em Copacabana e hoje… Já estamos quase em julho, a apenas seis meses de outro fim de ano em que todo mundo acha que vai começar do zero, sem querer perceber que tudo continuará a mesma merda!

Mas deixemos a vida dos outros e nos concentremos só na minha. Nesses seis meses de 2015 que passaram diante dos nossos olhos à velocidade do relâmpago, o que fiz eu dela? Ah, tanta coisa! Pra começar, fiz 71 anos… E aproveitei a data para renovar meus votos de só parar de trabalhar no dia da minha morte, se Deus quiser ainda distante. Terminei Império, a novela… Mas ela não terminou. Continua viva, já que até agora a pergunta que mais escuto quando saio às ruas é:

“Por que você matou o comendador, carago?”

E o que mais? Caí espetacularmente num beco de Lisboa após uma noite lauta de comidas e bebidas; Fiquei meio balançado por conta da queda, tive que fazer uma ressonância magnética do meu precioso cérebro ao fim da qual a neurologista anunciou que, apesar da violência do tombo, nenhuma das novelas que ainda vou escrever escapou pela abertura dos meus ouvidos…

E ainda: ganhei os prêmios de melhor autor e melhor novela da revista Contigo, graças – vou falar nela de novo – a Império, que também foi a campeã da noite no Prêmio Extra, mas no Prêmio Quem não ganhou nem um biscoito dormido, numa acintosa esnobada ao nosso trabalho, o que nos leva à pergunta que não quer calar: quem saiu perdendo com isso, a novela campeoníssima de todos os prêmios ou a coitadinha da revistinha?

E ainda: tal como Cauby cantou e cantou, posso dizer que, neste meio ano, ninguém jamais como eu trabalhou assim… Embora devesse estar de férias. Na modernização das instalações da Casa das Senhoras Rainhas, meu hotel boutique em Óbidos, Portugal: na criação da Casa Aguinaldo Silva de Cultura em Petrópolis, que vai de vento em popa: na releitura e reescrita de uma antiga minissérie, que pretendo transformar numa mininovela só pelo prazer de também bombar no horário das 23 horas: num livro que reúne matérias policiais que escrevi nos meus velhos tempos de jornalista.

 

Na Casa das Senhoras Rainha em Óbidos, Portugal (acima) e na Casa Aguinaldo Silva de Cultura em Petrópolis, Rio de Janeiro.

Ou seja: estou como sempre estive nos últimos trinta anos – a mil por hora. Aqui no blog, no facebook, no twitter, na minha coluna dominical no Extra… Lendo três livros ao mesmo tempo, vendo todos os seriados que me caem às mãos… Vivo. Vivaldo. Vivaldino. Vivíssimo!

Claro, minhas pernas que durante anos abalaram Paris já não são as mesmas, e eu não ousaria pô-las de fora no palco do Moulin Rouge, pois ia parecer um personagem decadente de filme de Fellini. Mas as caraminholas… Dizem que a gente vai perdendo neurônios com o passar dos anos, mas os que ficam valem pelos de meia dúzia de garotos espinhentos e punheteiros. Acho que os meus, inquietos como são, na verdade valem por uma dúzia dos mesmos.

Enfim, o tempo passa, o tempo voa, e eu continuo numa boa, aliás, ótima! E que assim seja enquanto Deus queira.

Agora me dêem licença, que vou trabalhar mais um pouquinho. (Agonildo Salva)

 

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CAUBY, A ETERNA LENDA

»Públicado por em jun 24, 2015 | 6 comentários

 

Ele está lá, sentado entre os dois músicos,

e olha para a platéia como se pensasse:

“eu não vou conseguir!” Mas, quando solta a voz…

Sim, ainda é o eterno Cauby.

texto: Simone Magalhães

fotos: Fco. Patrício

Abrem-se as cortinas. Mais de 600 pessoas batem palmas, gritam, se emocionam ao ver no palco do Theatro Net-Rio, na noite de ontem (23/06), o sempre “professor” Cauby Peixoto, aos 84 anos. Discreto – para seus padrões de roupas brilhantes de shows -, ele veste um paletó com desenho de flores em preto e branco, camisa e calça pretas, além da gravata borboleta prateada. Está sentado em uma poltrona, e tem a seu lado a mesinha com um arranjo de orquídeas, um copo d`água e a capa do CD que está lançando, Cauby sings Nat King Cole. À frente, um suporte para partituras, no qual estão as páginas com as letras das canções daquela noite – a memória não tem sido boa companheira. Mas o auxílio luxuoso dos excelentes pianista Daniel Bondaczuk e  violonista Ronaldo Rayol suprem qualquer esquecimento. E, em quase três horas de show, Cauby é o Nature Boy da canção de Nat: um menino numa noite mágica, que ensina que o mais importante na vida é amar e ser amado.

 

A expectativa era ouvir dez músicas do novo trabalho do ídolo, mas ele fez uma mescla de canções dos seus 64 anos de carreira. E o ar um tanto cansado – mas animado por ver a casa cheia, a fidelidade de suas fãs, e as palmas constantes e contagiantes – não o impediu de emocionar o público com grandes e antigos sucessos. Pelo contrário. E ele cantou, cantou, cantou… Indo de Unforgettable até o encerramento, com a plateia o acompanhando em Carinhoso e Ave Maria no Morro. Por vezes, a memória o traiu, chegando a repetir que iria tentar “transformar todas essas músicas lindas de Nat King Cole em CD”. Para mais tarde mostrar o novo trabalho e dizer: “Aqui está o disco comigo e o Nat na capa. Tem músicas lindas, vocês podem comprar”. Em alguns momentos, ele parecia um menino feliz com o retorno dos espectadores em carinho, ria, jogava beijinhos, disse que havia “mulheres muito bonitas” à sua frente:

“Ontem (dois dias de espetáculo) foi uma felicidade total, o público aplaudiu sempre todas essas músicas lindas”, comentou Cauby, antes de se desmanchar em Noche de Ronda e no bolerão Tres Palabras. E era notório que o ‘menino’ Cauby queria sentir ali, naquele palco, exatamente as tais três palavras: Como me gustas!

As músicas e o tempo passando (ou voltando?), e o público embalado pelo carisma, pela voz e pelas lembranças já não percebia eventuais desafinos ou esquecimentos. Queria reviver Conceição, se emocionar com Até Quem Sabe, Dindi, Esse Seu Olhar, People, e os mega sucessos do início de  carreira Blue Gardenia e A Pérola e o Rubi. O violonista foi além de acompanhar divinamente as músicas tocando e cantando alguns trechos: ele dava continuidade ao show. “E aí, Cauby, você gosta de conversar comigo? Gosta de conversar comigo?”, insistiu, num momento em que o ‘Professor’ parou para admirar e buscar toda a energia positiva que vinha da plateia. “Gosto, claro”, acabou respondendo. E o músico encaminhou: “Vamos cantar aquela que todo mundo adora”.

Já nos primeiros acordes o cantor seguiu interpretando. “Vamos fazer uma do Johnny Alf?”, e veio a lindíssima Eu e a Brisa. Cauby se emocionou. E essa emoção parecia percorrer as mais de 600 pessoas que lotavam o teatro. “Então, vamos fazer mais uma do Johnny Alf, tá bem?”, perguntou o violonista. E introduziu Ilusão à Toa. Nisso, Cauby já tinha deixado sua “cola” pra lá, estava cantando o que vinha do coração, do jeito que chegava à garganta, com pura emoção.

“Ontem, o público pediu uma que acabou não dando tempo para fazer. Vamos fazer hoje?”, instigou Ronaldo. E o cantor foi com tudo em Tarde Fria. Ele pontuava os finais das canções com “música linda!”, “ê, que saudade!”, “vocês são demais” e – o desde sempre – “obrigado, minhas fãs!”. Parecia que ele fortalecia sua saúde, que tem andado frágil, com o carinho do público, com a certeza de quem estava ali o amava. E, às vezes, parecia se admirar com as ovações, com “lindo!”, com “Cauby, te amo!”, e com pessoas levantando para aplaudi-lo antes mesmo de terminar as músicas.

 

Uma emoção tão grande que, como outros,  não consegui conter as lágrimas. Misto de lembranças, saudades, de volta no tempo dos LPs de Cauby Peixoto na vitrola que ficava num móvel enorme na sala da minha infância; de mamãe contando de suas idas à Rádio Nacional, levando muitas cotoveladas e empurrões, para ver o ídolo; do meu pai explicando que os ternos do cantor eram somente alinhavados para que pudessem ser rasgados com facilidade pelas fãs que o agarravam nas ruas (técnica de marketing de seu empresário de tantos anos, Edson Di Veras), das minhas tias que se derretiam com Moon River e queriam ser chiques como Audrey Hepburn, em Bonequinha de Luxo…

Todos já se foram. Mas Cauby prometeu no fim do espetáculo: “Eu vou vir sempre aqui! Vou voltar. Sei que vocês gostam de mim, e eu amo vocês. ‘Saudade, torrente de paixão, emoção diferente que aniquila a vida da gente…’. Vou voltar pra matar a saudade. Obrigado querido público, obrigado minhas fãs!”. E, depois de Granada, fecharam-se as cortinas. Mas a emoção e a expectativa da volta, com certeza, todos levaram para casa.

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O HOMEM QUE TOCA O TERROR

»Públicado por em jun 21, 2015 | 14 comentários

 

Léo Dias, o terror dos chiques,

famosos e nem tanto, abre o jogo.

 fotos de Fco. Patrício

vídeo: Carlos Berbel e Benny Cazim

 

 

Pense no mais execrável de todos os insultos. Pensou? Pois bem, pode estar certo que,  pelo menos no meio artístico, algum dia alguém o usou contra Leonardo Antônio Dias, ou Léo Dias (nas fotos acima), o mais temido e odiado de todos os assim chamados “jornalistas de celebridades” – aqueles que se especializaram em notícias nas quais revelam o que nem sempre os famosos querem que seja divulgado. Uma das perguntas mais repetidas no meio (entre aspas) “artístico” é: já viu o que o Léo Dias publicou hoje? E pode estar certo que, em algum lugar, alguém o estará xingando de isso, aquilo, e mais aquilo outro. Mas Léo segue em frente, impávido. Acha que este é seu dever de jornalista – mostrar que os reis e as rainhas em geral estão nus ou, pelo menos, de calças nas mãos. “Essa gente é muito mimada”, ele diz, “tem um séquito que os paparica e protege”. Se o jornalismo que ele e seus pares fazem é discutível? Muitos acham que sim. Quanto a mim, tenho sérias dúvidas quanto a isso, já que, em geral, o que Léo Dias publica acaba se provando verdadeiro, tirando uma certa ênfase que faz parte do seu estilo. Por isso resolvi entrevistá-lo, embora essa decisão tenha surgido de uma quase brincadeira. Durante a entrega do prêmio Contigo eu ia passando no assim chamado red carpet quando ele perguntou: “você me daria uma entrevista?” Eu respondi que sim, e rebati na bucha: “e você, me daria uma?” Léo também respondeu que sim, e eu considerei isso um compromisso que agora cumpro. O resultado dessa nossa conversa, sem cortes ou barreiras, é o vídeo abaixo. Vejam e revejam. Léo Dias é seguro e articulado sabe defender o que faz, e para isso usa argumentos que nos fazem pensar sobre a extrema fragilidade e o real valor dessa coisa que se convencionou chamar de “fama”. (Aguinaldo Silva)

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TUDO É TÃO LINDO NO BALÉ

»Públicado por em jun 18, 2015 | 4 comentários

 

Ivan Vassiliev e Yekaterina Shipulena acima e abaixo: dois gênios do Bolshoi. fotos: Fco. Patrício

Já presenciei noites memoráveis no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. E a desta terça-feira, 17, graças a teimosia de Miriam Dauelsberg, a visionária presidente do Instituto Dell´Arte, foi uma delas. Graças à insistência de Miriam, que, segundo as palavras dela própria, “encheu a paciência dos russos durante meses”, os dirigentes do Balé Bolshoi permitiram que algumas estrelas da famosa companhia viajassem até o Brasil para uma temporada que vai cobrir apenas Rio e São Paulo e começou ontem no Rio com a apresentação de um dos seus musts - o balé Spartacus.

Eu não ia ao Municipal há alguns anos, decepcionado que andava com o entorno do teatro. Desde então, tudo piorou. Até os cambistas, que antigamente se vestiam decentemente e agora, de bermudões e camisetas, se confundem nos trajes com os execráveis flanelinhas que, na Avenida Rio Branco e na Rua 13 de Maio, pululam por entre os carros. Cheguei meia hora antes, às 19h30m, para encontrar o amigo Mário Borriello, que trazia os ingressos, e me deparei com a multidão de espectadores espremida nos degraus da escadaria que leva às portas do teatro, à espera que estas abrissem e com visível medo dos que os observavam lá embaixo. Pois qualquer carioca com um mínimo de experiência de vida sabe que, num lugar público como este, um arrastão pode acontecer a qualquer momento, e aí… Adeus carteiras, jóias, relógios e celulares.

Borriello chegou, as portas se abriram, as pessoas trataram de entrar o mais rapidamente possível – nós inclusive. E lá dentro, fiz a constatação: o teatro, agora restaurado, continua lindo. Em meio ao público, reconheci os velhos aficionados de sempre, poucas pessoas com menos de 40 anos e, ao contrário do que acontece nas noitadas do Metropolitan Opera House, por exemplo, nenhuma criança. Isso significa que não há renovação de público no Municipal, o que nos faz prever para a música erudita, a ópera e a dança clássica no Rio de Janeiro um triste futuro.

 

Com Mário Borriello acima, e abaixo, com Miriam Dauelsberg e Serguei Akopov, o embaixador da Rússia.


É verdade que o espetáculo, além da expectativa de rever o Bolshoi e conhecer suas novas estrelas, me deu outra grande alegria: ouvir a Orquestra Sinfônica de Barra Mansa, a quem coube, nessa estréia com o balé Spartacus, executar a música de Katchaturian. “Entreguei as partituras há dois meses, e eles ensaiaram feito loucos”, disse Miriam. E o resultado desse esforço dos músicos de Barra Mansa foi nunca menos que brilhante.

Quanto a Spartacus… Eu já tinha visto o balé em 1986, dançado pelo mesmo Bolshoi, numa época em que ele ainda era um dos exemplos mais impactantes da influência do chamado “realismo socialista” na dança soviética. A história do escravo que não se conforma com sua condição, organiza um exército de descamisados e inicia uma guerrilha contra os seus senhores romanos era um prato feito para a propaganda comunista.

Agora que o comunismo sumiu do mapa – a não ser nos dois museus temáticos, Cuba e a Coréia do Norte, que continuam aí para que se possa fazer estudos antropológicos sobre o assunto -, já se pode ver Spartacus com outros olhos. É possível entendê-lo, por exemplo, como uma glorificação da virilidade. Não é a toa que o vilão da história, mais que o imperador romano, seja Aegina, a cortesã que está por trás dele e atua nas sombras – uma mulher, portanto -, nessa noite de estréia dançada de forma hipnótica por Yekaterina Shipulina, um gênio da dança, na velha tradição do balé soviético.

Mas, graças ao desempenho de Ivan Vassiliev, que viveu o papel título, Spartacus também pode ser visto como uma leitura da história de todas as angústias masculinas. O escravo-herói de Vassiliev é ao mesmo tempo explosivamente viril e rigorosamente intimista. O bailarino, outro gênio da dança russa, passa isso de modo muito claro, e com um vigor que eu só tinha visto antes em Nureyev, de cuja genialidade ele se aproxima.

Foi uma noite linda. Os três atos – e as três horas – que dura o balé passaram com uma rapidez incrível. O tema de amor, cujos acordes se ouve durante todo o balé, que depois explode no grande pas des deux - e que eu cantarolo obsessivamente há pelo menos trinta anos, executado pelos músicos de Barra Mansa, me trouxe muitas lembranças de passados – e frustrados – amores e me levou às lágrimas.

 

No intervalo do primeiro ato fui visitar esta lutadora que é Miriam Dauelsberg no seu camarote e pude notar sua visível alegria. Sim, foi uma noite de gala, tivemos direito a grande solos num espetáculo inesquecível do qual Míriam foi a grande, luxuosa regente.

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MACUNAÍNA SAI DO ARMÁRIO?

»Públicado por em jun 16, 2015 | 4 comentários

 

E se o autor de “Macunaína” fosse

“gay” – alguma coisa muda?

 

Nesta época de comunicação virtual em que e-mails e whatsapps cruzam o ar com velocidade maior que a do raio a famosa carta do melodrama – de preferência escrita a mão -, zelosamente guardada durante anos e cujo conteúdo, finalmente revelado, é capaz de mudar o destino de personagens e revirar tramas, sim, a carta ainda tem o seu valor. Que o digam os personagens prestes a ter suas imagens mudadas a partir da abertura de uma delas nesta quinta-feira – a que o modernista hoje nada moderno Mário de Andrade escreveu para o poeta Manoel Bandeira na qual, supostamente essa única vez e escrito de seu próprio punho, revelou sua condição de homossexual.

Uma pausa para lembrar outra história. Lembro-me da reação do meu amigo Guilherme Peixe Espada na noite em que me flagrou em pleno Texas Bar, na zona de prostituição do Recife, a folhear um exemplar de Macunaima em cuja contracapa havia uma foto do autor: “quem é esse?” – Peixe Espada me perguntou, e eu lhe respondi: “Mário de Andrade, o autor do livro”. Ao que meu amigo, depois de olhar a foto com mais atenção, comentou: “mas que pintosa!”

E agora voltemos à carta. Sempre fui contra essa história de obrigar as pessoas supostamente gays a sair do armário nem que seja na marra. Até discuti o tema em “Império”, através do personagem de José Mayer, que é gay, mas luta até o fim pelo seu direito de manter este assunto apenas na esfera pessoal. Por isso, se Mário de Andrade era ou não homossexual não me interessa; o que me interessa é a obra que ele deixou… E esta, por mais generosos que sejam aqueles que o incensam, a não ser por Macunaína, é datada, artificial e sem a importância que lhe atribuem. Essa é a minha opinião, mas sei que sobre o tema haverá violentas controvérsias.

 

Mário de Andrade (acima) escreveu a famosa carta para Manoel Bandeira (abaixo), que resolveu mantê-la em segredo

 

Agora, quanto à carta em que Mário afinal põe o pescoço pra fora do armário e abre o jogo para Manoel Bandeira, bem… Parece que há um complô, iniciado pelo poeta a quem foi dirigida a missiva há quase 70 anos, para que o conteúdo dela não seja revelado… Complô do qual participou a Fundação Casa de Ruy Barbosa, a quem o acervo de Bandeira foi doado, com o apoio dos parentes de Mário, os quais parecem considerar que tal revelação, ainda mais escrita do próprio punho, seria prejudicial à imagem do “príncipe” do modernismo.

Volto ao comentário de Guilherme Peixe Espada. Imagens falam por si. E as muitas que existem de Mário, bem… Fazem meu gaydar disparar a mil por hora. Mário era sim, o que meus amigos heterossexuais supostamente progressistas chamariam de “ahn, uhn, muito afetado”… E Guilherme, curto e grosso, chamaria de “pintosa”.

Está legal, afetado, pintosa… Tudo bem, Oscar Wilde também o era, mas negou até o instante em que processou o homem que o acusou de ser homossexual – essa palavra nem existia na época – e aí foi desmascarado. No caso de Mário de Andrade, portanto, a pergunta, que sempre se colocou, porém apenas discretamente cochichada, agora afinal terá uma resposta…

E aí voltamos à carta, o elemento essencial de todo melodrama, diante de cujo peso os e-mails e os whatsapps não passam de lágrimas derramadas sob a chuva. A Controladoria Geral da União mandou que ela seja aberta imediatamente. A Fundação Casa de Ruy Barbosa pensou em recorrer, mas voltou atrás, talvez porque tenha concluído que isso seria o mesmo que se recusar a fazer um teste de DNA: a negativa seria considerada prova de que a suspeita é verdadeira.

Assim, nesta quinta-feira, tal como naquele capítulo de novela em que A Carta é aberta e faz explodir a audiência, a missiva que Mário de Andrade endereçou a Manoel Bandeira e era mantida em segredo por quase 70 anos será finalmente aberta. Se nela o primeiro confessar ao segundo que “era” será uma vitória de quem? Dos ativistas que não hesitam em arrancar pessoas do armário só para jogá-las no abismo? Da literatura brasileira, que ganhará mais um escritor para fazer companhia à parca meia dúzia daqueles menos medrosos que já se assumiram?

Não, eu não sei se alguém vai ganhar alguma coisa com isso. Talvez apenas os herdeiros dos direitos autorais dos livros de Mário – embora sejam contra a abertura da carta -, pois, por conta deste súbito interesse em relação à sexualidade do parente, certamente durante algum tempo ele venderá mais livros.

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