VOU ALI, JÁ VOLTO

»Públicado por em ago 27, 2016 | 6 comentários

 

Olho pela janela do hotel, mas não reconheço o mundo lá fora. Fico todo apalermado por conta do fuso horário, durmo e acordo sempre antes ou depois da hora e chego a uma conclusão não sei se boa ou má: neste ano da graça de 2016 estive sempre em trânsito. Só para citar meu itinerário de julho e agosto: Rio, aquela cidade serrana, São Paulo, novamente o Rio, Lisboa, Óbidos, acho que Paris, mas não estou bem certo – penso que andei sonhando -, novamente Lisboa e agora… De novo caio na estrada, ou melhor, arrumo as malas e parto a caminho do aeroporto para outra viagem longa: neste domingo amanheço em São Paulo.

 

Minha amiga Bernie Piters, de quem decidi escrever a biografia não autorizada, ela mesma uma cidadã do mundo, resume esta minha inquietação numa frase:

“Você tem alma de cigano”.

Digo a ela que os ciganos não são o único povo andarilho, embora eu tenha conhecido alguns deles de passagem, quando era pequeno, na minha cidadezinha lá no Nordeste profundo.

De qualquer modo, tenha ou não a alma cigana, eu adoro viajar… Mas detesto fazer malas. O pessoal politicamente correto que não me leia nem me ouça, mas bom mesmo era quando se viajava de trem ou de paquete e se levava sempre um criado de quarto. Ah, como era boa aquela época de Downton Abbey em que pessoas nos vestiam ou desvestiam enquanto contavam a última fofoca surgida no andar de baixo…

Hoje, não. Em alguns hotéis existe um mordomo de luvas que vem arranjar nossas malas – em troca de uma bela gorjeta -, mas eu nunca chamo um deles para me prestar este serviço, pois noto que sempre arrumam minhas malas com um certo nojo. Talvez não seja nojo. Mas de qualquer modo é um ar, digamos, snob a ponto de, quando ele nos chama de “senhor” a palavra parecer ofensiva.

De qualquer modo, como sempre acontece, divago. O que eu queria dizer é que este foi um ano de grandes realizações para mim, e também de mudanças – não espirituais, mas físicas. Resolvi trocar – com grandes, imensas vantagens, diga-se de passagem – minha casa na serra por outra em São Paulo, onde não preciso andar mais de cem metros para encontrar um cinema, uma galeria de arte ou um teatro.

A partir de agora divido meu tempo por três urbes: o Rio de Janeiro pós-olímpico-mas-sempre-mais-do-mesmo, Lisboa (ah, velha cidade…) e a esfuziante, coruscante, fervilhante São Paulo. Neste momento tudo me parece bem, aliás, ótimo, mas sei que em breve minha alma cigana começará a me perguntar: até quando?

 

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“TURNO DA NOITE” DE NOVO

»Públicado por em ago 26, 2016 | 1 comentário

 

Como diria meu amigo português lá do Alentejo: apois é! Mais um vídeo promocional de “Turno da Noite”, o meu livro. Como vocês sabem, todos eles foram gravados na sala de minha casa, portanto, embora pareça, este ambiente não é um cenário de novela das 21h da Rede Globo. Se o livro, depois de tanta badalação, está vendendo? Acho que sim, pois a editora me comunicou que antes mesmo das noites de autógrafos eles tiveram que fazer uma nova tiragem. Melhor que isso só se eu ganhasse o Prêmio Jaboti… Ou, pelo menos, o Prêmo Jaboticaba.

 

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NASCIDOS PARA PERDER

»Públicado por em ago 24, 2016 | 2 comentários

 

Devo ser mesmo uma pessoa esquisita. Moro na praia há 32 anos e há 20 não ponho sequer os pés na areia, quanto mais na água. Detesto o verão, vivo a perseguir o inverno, e para isso tenho que mudar de país e de hemisfério a cada seis meses. E  adorei a segunda temporada de “True Detective” quanto até o poderoso chefão da HBO, que produziu a série, veio a público pedir desculpas pelas falhas e a má qualidade da mesma.

 

Porém… Gostar ou não gostar é sempre muito vago. É preciso explicar porque uma coisa e não outra. Daí que, antes que me perguntem, vou logo dizendo porque gostei da segunda temporada de “True Detective”: porque ela é… Vou usar a palavra que me parece mais apropriada: ela é suja.

O que aconteceu com o cinema de um modo geral? Os filmes ficaram limpinhos e cheirosos demais. Tudo é muito bem explicado e certinho. E por mais anárquico que seja o filme, nele sempre há lugar para o politicamente correto, que acaba esculhambando com tudo. Vou dar um exemplo: se uma personagem tem problemas, é porque sofreu abusos – em geral meio nebulosos – quando era criança. É aquela velha e surrada história dos agravos passados, que explicam tudo, até a psicopatia, nos filmes de hoje.

Este processo de “limpeza”, que acabou com o velho e bom cinema, começou a ser usado perigosamente no que, por enquanto, existe de mais politicamente incorreto em matéria de audiovisual: as séries de tevê. Aqui e ali aparece uma explicação para o mau caráter de algum personagem. Vejam o caso de “Better Call Saul”, por exemplo. Como o sujeito podia deixar de virar um mau caráter depois de tudo que o canalha do irmão advogado fez contra ele? Saul não é safado porque é safado, não… É safado porque o irmão não lhe deixou outra alternativa na vida.

O “show runner” acima, e Rachel McAdams,a detetive de consciência torta, abaixo 

Em “True Detective 2″, Nic Pizzolatto, a Glória Perez dos shows runners (porque escreve tudo sozinho), fez a detetive Brezerides (Rachel McAdams) ser molestada quando criança… E declarar anos depois que o pior que lhe aconteceu na vida não foi isso, mas sim, o fato de que, ao entrar no carro com aquele desconhecido, a menina que ela era, mesmo sabendo o perigo que corria, sentiu orgulho de si mesma… E gostou disso.

“True Detective 2″, na verdade uma versão nova e meio mal ajambrada do magnífico “Chinatown” de Polansky, tem várias novidades desse tipo… E a maior delas é que, desde o episódio piloto deixa claro uma verdade insofismável: no final são os heróis que vão perder.

Por quê?

Porque nasceram para tal. A trajetória de cada um indica isso – são perdedores natos. E os que vencem sempre são os bandidos cuja competência é inquestionável e por isso estão aí, tomando conta de nós e do mundo em que vivemos. O único destes que acaba mal é Frank, o mafioso vivido por Vince Vaughn… porque se dá o luxo, imaginem, de ter problemas de consciência – que seria de nós se o diabo pensasse em procurar um analista?

Sim, há o caso discutível do personagem Paul Woldrugh (Taylor Kistsch), que morre meio gratuitamente quase no final… Depois de matar – pouca gente percebeu isso – o amante a quem rejeitava, mas a quem não resistia, depois que este passou para o outro lado. Woldrugh, um gay jamais assumido, vê na gravidez da namorada e no casamento com esta a salvação de sua lavoura… E quando é morto pelas costas enquanto,  já ferido, se arrasta pelo chão dizendo “não, não, não!” de mim pelo menos não mereceu sequer uma lágrima.

Claro, “True Detective 2″, não é “Os Sopranos”, ao qual sempre que a gente lá volta perde o fôlego. Mas merece ser revisto algum dia, quando não pelo magnífico, requintadíssimo trabalho de Colin Farrel no papel do Detetive Velcoro (na foto abaixo), o maior perdedor de todos.

Detalhe final: embora o chefão da HBO tenha assumido a responsabilidade pelo “fracasso” da série e isentado o show runner de qualquer culpa não dou a Nic Pizzolatto essa colher de chá… Mas lhe dou um conselho: na próxima vez vê se deixa esse teu ego enorme de lado e chama um belo time de colaboradores… Eles vão te ajudar muito.

 

 ÚLTIMAS PALAVRAS

Ah, sim, uma triviazinha pra terminar. Em matéria de frases memoráveis ditas antes de morrer, a que Gene Hackman pronuncia depois de mortalmente baleado por Clint Eastwood em “Os Imperdoáveis” é a que eu prefiro: “mas que merda, eu estava construindo uma casa, porra!”

 

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EXCLUSIVO: MARINA RUY BARBOSA FALA SOBRE ‘JUSTIÇA’

»Públicado por em ago 23, 2016 | 5 comentários

(Foto: reprodução/TV Globo) 

Se ainda havia dúvidas sobre o talento de Marina Ruy Barbosa, elas caíram por terra após a exibição da minissérie ‘Justiça’, estreia de ontem na TV Globo.

Interpretando Isabela, assassinada pelo próprio noivo, Marina deu provas mais que suficientes de que alcançou o ápice na carreira, com maturidade, profissionalismo e talento.

Não foram cenas fáceis. Teve sexo, traição, violência…

E Marina tirou tudo de letra. Sem dublê, que fique claro!

O público reconheceu o talento da atriz e o nome dela ficou entre os assuntos mais comentados do Twitter.

Hoje, Marina falou com exclusividade ao ASDigital numa entrevista a Virgílio Silva.

A ideia era que gravasse um vídeo, mas ela está descansando numa fazendo no interior de Goiás, onde a internet não funciona muito bem.

Foram apenas cinco perguntas. As respostas, via whatsapp, foram transcritas a seguir exatamente como chegaram.

A estreia de ‘Justiça’ foi um sucesso. Sua personagem, Isabela, foi um dos grandes destaques do primeiro capítulo. Foi um desafio interpretá-la?

Claro! Aliás, todos os meus personagens são desafiadores. O dia em que eu não me sentir desafiada, algo estará fora do lugar. Mas sobre Isabela, ela veio em um momento especial da minha trajetória como atriz. Primeiro porque me permitiu estar ao lado de profissionais com quem a troca foi muito rica. Autora, diretor, equipe, elenco, um time e tanto. Isabela é uma personagem que reflete uma maturidade profissional que me deixa muito feliz. É mais uma etapa nesse meu caminho de muito trabalho, muita dedicação e entrega. Interpretar diálogos tão afiados assinados pela (autora) Manuela Dias sob o olhar e a orientação do genial (diretor) Villamarim me modificou artisticamente.

Você gravou cenas de sexo e violência. Teve dublê em alguma dessas cenas?

Não! Justiça é um prato cheio para um ator. Eu não iria abrir mão de nenhuma etapa deste trabalho, tão intenso, tão profundo. Isabela é a soma disso tudo.

A cena da morte de Isabela, apesar da violência, foi uma das mais belas já realizadas na TV. Foi difícil pra você gravar a sequência?

Obrigada! Fico feliz em ver esse resultado. Justiça exigiu uma entrega absoluta do início ao fim. Foi uma cena delicada, trabalhosa e que precisou de uma sintonia entre todos que estavam no set. Quase um balé! Tínhamos as marcações e as emoções. E precisávamos fazer os dois funcionarem pra valer, de verdade.

Em que patamar você inclui Isabela no rol de seus personagens?

Não sou mãe e não tenho irmãos, mas tenho a certeza de que nenhuma mãe consegue dizer qual é o filho preferido, rsrs.

Qual sua expectativa para o próximo personagem na novela de Aguinaldo Silva? Já sabe algo sobre ela?

Sendo o Aguinaldo, vou de olhos fechados. Essa é uma parceria que levo para a vida! Amor, admiração e gratidão!

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É NO PAPEL QUE COMEÇA TUDO

»Públicado por em ago 23, 2016 | 7 comentários

 

Atenção, candidatos ao nosso concurso de webséries, aprendam com Mestre Carlos Manga (na foto abaixo): “um filme é bom quando consegue passar 50% do que estava no roteiro”

Embora o prazo de entrega vá até 5 de setembro já começam a pipocar aqui na redação as primeiras sinopses candidatas ao nosso concurso de webséries. Como vocês sabem, podem se candidatar como autores-roteiristas os que participaram das minhas Master Classes 3 e 4 e, como atores das webséries escolhidas para ser gravadas, alunos do Curso de Atuação que organizei e patrocino lá no Theatro Net.

Mesmo fazendo parte do júri que selecionará as sinopses candidatas à segunda fase do concurso –  nesta primeira serão escolhidas três sinopses de cada gênero (humor e suspense), ainda não me aventurei a dar uma olhada nos trabalhos dos primeiros candidatos. Fá-lo-ei apenas depois que as inscrições se encerrarem, mas já vou dando um conselho aos concorrentes: não se candidatem se não tiverem uma boa história… Pois a boa história é o começo de tudo, e o que vem depois – elenco, direção, edição e sonorização é apenas consequência.

Guardo até hoje um ensinamento que me foi proporcionado por Carlos Manga, grande e muitas vezes injustiçado cineasta do velho (e bom) cinema jurássico brasileiro. Estava eu a escrever um roteiro para um filme dos Trapalhões que ele ia dirigir e, na sexta vez em que me disse: “está uma merda!” E me mandou reescrever tudo de novo, eu reagi, já irado:

“Manga, é só um filme dos Trapalhões!”

Ao que ele me respondeu:

“Mas você deve escrevê-lo como se o fizesse para Merrill Streep e Al Pacino.”

E explicou: “um filme é bom quando consegue captar 50% do que estava no roteiro. Por isso, para que o filme seja pelo menos bom, o roteiro tem que ser o melhor possível. É no papel que começa tudo, e alguém só é um bom roteirista se levar isso em conta”.

Grande Carlos Manga. Excelente lição de quem sobre cinema entendia de tudo. Essa história aconteceu nos idos de 1990, quando eu já era um roteirista, digamos assim, reconhecido… Mas fui humilde o bastante para aprender a lição e segui-la pelo resto da vida.

Assim, quando escrevo novela, ou minissérie, ou série (gênero para o qual espero poder dedicar o resto dos meus dias a partir de 2020) vejo cada cena como a mais importante de todas. Nada é para encher linguiça ou apenas de passagem. Cada palavra de cada cena ou diálogo é essencial e, para chegar até ela, mergulho fundo e vou até o osso.

Aí vocês dirão, como eu tolamente disse a Manga a propósito do roteiro dos Trapalhões:

“Mas é apenas um concurso de webséries!”

Sim, é… Mas vocês devem encarar o trabalho como se estivessem  a serviço de Spielberg.

Continuem mandando sua sinopses, mas antes caprichem, vão fundo, procurem até chegar no osso… E quem sabe nos reencontraremos no final do concurso?

Boa sorte a todos (Aguinaldo Silva)

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GANHAMOS O OURO OLÍMPICO

»Públicado por em ago 22, 2016 | 7 comentários

 

Como pudemos nós brasileiros, com a fama que temos de ser dispersivos, desorganizados e irresponsáveis produzir uma festa de tal porte? 

 

 

Mesmo sendo as Olimpíadas em boa parte na frente da minha casa em Copacabana, mais uma vez eu preferi vê-las como vi as quatro últimas: de longe, pela televisão. Não sei, é possível que seja esquisitice minha, mas eventos como a Copa do Mundo, as Olimpíadas, a entrega dos Oscars, Emmys e outros que tais são mais encantadores quando vistos na telinha – que, aliás, fica maior a cada dia, e em lares mais abastados já tem status de tela de cinema.

Assim, dias antes da festa de abertura, cujos pontos altos, para mim, foram Paulinho da Viola cantando a capela o Hino Nacional, e Gisele Bundchen, graças a Deus, desfilando num andamento diferente daquele que Fernando Meireles preferia – porque quem sabe tudo sobre desfilar é ela e não ele – eu já estava a sete mil quilômetros de distância, na minha casa aqui em Lisboa, pronto para ver como seria a nossa festa olímpica aí no Rio.

Claro, eu estava longe, mas muito apreensivo, já que minha casa fica em Copacabana e, portanto, no epicentro de qualquer terremoto, incluindo as ações terroristas que os mais pessimistas previam. A julgar pelas previsões destes, quando voltasse encontraria eu o bairro que escolhi para viver meus últimos dias em escombros?

Melhor não pensar nisso. Mesmo porque, dias depois de ter chegado em Lisboa, estava eu junto com alguns amigos a traçar um polvo a lagareira num restaurante quando, de repente… “A terra tremeu!” – disse eu a eles, que me responderam: “ah, deixa-te de frescuras”. Continuamos a comer, mas logo depois a televisão pendurada na parede deu a notícia com grande estardalhaço: tinha acabado de ocorrer um terremoto, com a magnitude de 4.1 na escala Richter e epicentro no litoral de Peniche… Onde eu tinha almoçado no dia anterior!

Enquanto isso, no Brasil, Rio de Janeiro, Copacabana..

A essa altura, depois de ver tudo que foi possível das olimpíadas, incluindoa abertura e o encerramento, já posso dizer com o maior orgulho: gente, que festa foi essa? Como pudemos nós brasileiros, com a fama que temos de ser dispersivos, desorganizados e – por que não dizer? – irresponsáveis – produzir uma festa de tal porte?  Claro, houve senões, mas o importante mesmo é que, tal como se diz a propósito da escola de samba do Salgueiro, sem ser a melhor ou a pior, essa olimpíada foi diferente…

 E isso é que fez a diferença. Até a piscina cuja cor mudou do azul celeste para o verde vômito da noite para o dia e  virou noticia no mundo inteiro deu, vamos dizer assim, cor ao nosso espetáculo. Só nós, brasileiros, brazucas, brasinhas, brasilinos ou tantos outros apelidos que adotemos somos capazes de pegar um limão meio passado e fazer dele uma deliciosa caipirinha. E isso é o que foi essa olimpíada – uma deliciosa caipirinha que a generosidade e a alegria às vezes excessiva e pegajosa do nosso povo serviu para o mundo inteiro.

Estamos de parabéns, e dou minha mão à palmatória. Quando vi aquela arena monumental construída ali no Leme para os jogos de vôlei de praia, pensei comigo mesmo:

“Quando todo mundo começar a sambar e gritar aí em cima essa engenhoca monstruosa vai desabar!”

 

 

Mas, mea culpa, o que aconteceu foi outra coisa. A engenhoca, ocupada pelos cariocas (seria melhor dizer brasileiros) transfigurou-se, explodiu em cores e, ao por do sol – que nos ajudou mandando a chuva para bem longe – virou um dos mais belos cartões postais já vistos na história deste evento que se realiza em algum lugar do mundo a cada quatro anos.

Como já disse antes, estou falando do que vi na televisão. Mas, repito, é na televisão que sempre se vê a melhor olimpíada. E para mim, de todas as que vi na televisão esta foi a mais peculiar de todas. Porque foi uma festa universal sem deixar de ser cem por cento brasileira.

 

UM HOMEM PARA

TODAS AS ESTAÇÕES 

 

No meio destes dias plenos de belas notícias, uma me deixou triste: a morte de Jean-Marie Faustin Godefroid Havelange, o João Havelange da CBD e da FIFA de quem vocês tanto ouviram falar durante décadas, e que começou sua carreira no desporto em 1936, quando disputou pelo Brasil provas de natação nas olimpíadas de Berlim. Uma figura emblemática pela qual sempre tive grande admiração e que, aos cem anos, escolheu para encerrar sua vida o momento certo – uma olimpíada, onde pode se dizer que ela começou. Na foto acima, tirada em 1036, João Havelange está no convés do navio que levou os atletas brasileiros para disputar as Olimpíadas de Berlim. Ele fazia parte de nossa equipe de natação.

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ATÉ O ÚLTIMO POKÉMON

»Públicado por em ago 20, 2016 | 1 comentário

 

Mais uma vez, Clint Eastwood manda bala

 

Numa entrevista à revista Esquire, Clint Eastwood, o último dos grandes cineastas americanos ainda em atividade, comentou tudo que queria e talvez alguma coisa que não quisesse, e com isso deu muito o que falar. Segundo ele, os jovens de hoje – os chamados millennials - não passam de uns idiotas que só se preocupam em caçar pokémons e entrar na fila para comprar o mais novo celular… Tudo isso enquanto o mundo em torno deles é desmontado com precisão quase cirúrgica e está cada vez mais próximo de se transformar naquela selva tenebrosa que já foi um dia.

Clint, à maneira do herói que encarnou tantas vezes no cinema, é impiedoso. Diz que colocar flores, acender velas e despejar orações pelos mortos em atentados é apenas dar sinal de fraqueza, declara que “toda gente está ficando cansada do politicamente correto e do beijo na boca, e conclui:

“Esta (repito: a dos millennials) é mesmo uma geração de merda na qual todo mundo só pensa em botar paninhos quentes”.

 

Se eu concordo com Clint? Em grande parte sim. Principalmente quando ele critica essa mania de rezar, chorar, botar flores e acender velas para as vítimas de atentados, em vez de dar a única resposta que os radicais entendem, que é: mandar bala. Lá dos seus bunkers, ao ver aquelas imagens em suas televisões de ultimíssima geração, os que preconizam a violência sem tréguas contra os infiéis devem morrer de rir dessa versão pós-moderna do flower power. Enquanto os homens bombas se explodem e espalham pelo ar as suas e as nossas estranhas, nós respondemos com aquele antigo chororô de paz e amor que nunca deu em nada.

 

E quanto aos millenials que ficam dias na fila para comprar o novo gadget da Apple ou saem pelo mundo a fora a caçar pokémons… Clint está certíssimo, sim… Eles não passam de uns merdas. E no dia em que tiverem que enfrentar os exércitos de aloprados do califado, descobrirão que têm o traseiro gordo demais para encarar uma guerra… e entregaão de bandeja tudo que ainda lhes resta.

Clint, é claro, apoia Donald Trump. Afinal, os dois são da velha e boa Terra de Marlboro. Nesse ponto discordamos. Sei que parecerá estranho o que vou escrever agora, mas Trump (cuja estátua nua – abaixo – causou furor esta semana nos Estados Unidos) não passa de um filhote albino de Hugo Chavez. Por isso, ao contrário do grosso dos correspondentes do jornalismo brasileiro no exterior, que nem se preocupam em disfarçar o ódio que sentem pela Hillary, prefiro a Ms Clinton. Não porque, se eleita, ela vá além do feijão com arroz de sempre da política externa americana… Mas é justamente desse velho e bom feijão com arroz que o mundo anda precisando. (Aguinaldo Silva)

 

Porém…

Por causa de Clint Eastwood, sai do meu propósito aqui, que era reproduzir, sem identificar o autor, uma carta que um militante gay dos anos 70 me enviou a propósito dessa história sobre todo mundo andar atrás do pokémon… É uma carta bem humorada…Mas seu autor, sempre brincando, se sai muito bem em sua tentativa de opor, àquela geração que caçava pokémons de carne e osso, com essa de agora – mais uma vez: os tais millenials - para a qual nada é realmente verdadeiro e o mundo não passa de um brinquedo. Leiam a carta abaixo, e meditem sobre o que há de profundo por trás do seu tom ameno.

 

CAÇANDO POKÉMONS NOS ANOS 70

Ontem (acima)… E hoje (abaixo) 

 

Meu caro Aguinaldo Silva:

Não vejo qual a novidade em correr atrás de Pokémons. Eu e meus amigos fizemos muito isso nas ruas do Rio de Janeiro… Nas décadas de 60 e 70! Você sabe, Pokémon adora mulher. Mas, naquela época, pra dar uma bimbada numa delas o coitadinho tinha que casar, ou então… Sair pelas madrugadas em busca de quem os caçasse e lhes desse um substituto para aquilo que as mulheres não lhes davam… E estes éramos nós, os velhos e bons rapazes alegres desta maravilhosa cidade!

Aliás, não só no Rio de Janeiro, mas em todas as cidades deste imenso Brasil, pessoas como eu, nas noites em que a iluminação noturna era fraca e às vezes até apagava, saíamos para a grande caçada ao Pokémon sedento de sexo…

Caçada esta que nunca, mas nunca mesmo, terminava em vão. Era só ter um pouco de paciência, e logo um de nós encontrava encostado num poste, ou atrás de uma moita, um Pokémon disposto a tudo. Em geral ele nos comia. Mas às vezes acontecia o contrário e éramos nós quem devorava o pobre bichinho de alto a baixo … E de um modo ou outro íamos todos para casa saciados – o Pokémon por ter encontrado um substituto para as mulheres em geral inalcansáveis e nós, porque reafirmávamos nossa condição de caçadores e predadores natos.

Hoje em dia só o pessoal de esquerda se considera porta-voz de tudo que aconteceu nas décadas de 60 e 70… Mas, em geral, eles só falam de uma coisa: da repressão política. É um tal de “tortura nunca mais” e “me dá minha indenização mensal porque eu também fui preso”… Como se tudo fosse apenas uma questão de dinheiro.

Pois eu lhe digo, Aguinaldo Silva, que as décadas de 60 e 70, pelo menos do ponto de vista de costumes, foram as menos reprimidas que já tivemos, e isso não é pouco. Valia tudo, mas tudo mesmo, inclusive caçar e também ser caçado pelos Pokémons que surgiam feito vampiros em cada esquina, tão famintos que às vezes, como não tem tu, vai tu mesmo, devoravam até uns aos outros.

Lembro-me de uma vez em que, num gesto de raras coragem e ousadia fui parar no alojamento de Pokémons que guardavam as instalações da Escola Superior de Guerra no antigo Palácio Monroe – ficava ali na Cinelândia. E lá, num ataque de incontrolável voracidade, tracei-os todos de tal forma e com tamanha rapidez e eficiência, que depois fui por eles carregado em triunfo até o outro lado da calçada.

Não vou negar que tenha havido uma brutal repressão política naqueles anos. Não vou nem mesmo duvidar que presos como Dilma Roussef e José Genoíno, mesmo sofrendo os piores tormentos, não tenham deixado escapar sequer um gemido, quando mais o nome de um companheiro ou o endereço de um aparelho já vazio. Tenho-os como heróis daquilo a que se propuseram… E os respeito.

Porém respeito mais ainda os que faziam sua própria revolução nas ruas: nós, os Pokémons de todos os sexos possíveis e imagináveis, caçadores e caçados, que levávamos até as últimas consequências a tarefa de ensinar ao povo a máxima de Bertolt Brecht segundo a qual “o que é certo não é certo, as coisas não são o que parecem”. E não cito Brecht à tôa, já que ele era um dos ícones da esquerda na época. E eu, enquanto caçava e abatia Pokémons pelas madrugadas afora, era simpatizante da esquerda e dessa forma um dos seus inocentes úteis.

Assim, para encerrar esta carta – que, espero, você não a publique neste seu saite infame – eu lhe digo, Aguinaldo Silva. Caçar Pokémons agora é interessante, sem dúvida… Mas em matéria de interesse passa longe daquela época, quando nós não apenas podíamos caçá-los, como, bem ali atrás da moita, sermos comidos por eles ou, melhor ainda…Comê-los! (O autor prefere não ser identificado)

 

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