
by LARA ROMERO
(enfim, uma crítica que não é cricrítica)
Não é de meu tempo a primeira versão de GABRIELA com Sônia Braga (atriz não tem idade, né? Crítica loira piauiense muito menos!), entonces vou deixar pros melhores (e piores, risos fifi) esse negócio de comparar alho com bugalho, Sônia com Juliana e Walcyr com Walter (Georger Durst). Cruz credo! Haja W!
No início era o verbo … e balas pra todo lado. A apresentação do Coronel Ramiro Bastos foi chato-didática, previsível porém suficiente. Well, a escuridão desequilibrada, a maquiagem SUPOSTAMENTE rejuvenescedora (traduzindo, malfeita, mal feita e mau-feita) do Fagundes e, algo que não soube indentificar, destoava do conjunto: bem sei que o êxtase é ofertado a poucos (Irmãos Coragem, A Gata comeu, Vale Tudo, Roque Santeiro, Guerra dos sexos, Tieta, etc) mas esperava, no mínimo, suspiros de aprovação.
Abre parêntesis. Gosto demais do Fagundes como vilão. Antoninho pode quase tudo (ele não é o Tony Ramos, né?) mas na pele do vilão é imbatível. E a maquiagem envelhecedora, risos, foi bemfeita, bem feita e bem-feita, risos que-p*rra-esse-acordo-ortográfico. Fecha parêntesis.
E eis que do serão árido e estorricado brota um sorriso aliviado e o tao almejado suspiro de aprovação.

A cena da apresentação de Gabriela, notadamente a primeira parte, é de encher os olhos: luz que cega, calor que desespera, miséria crua e semi-nua (óbvio, e a macharada agradece), o ótimo enquadramento e a nova mobilidade das camaras, a expressão facial e corporal do Tio Sílvio (fico devendo o nome do ATOR talentosíssimo), a voz do sertanejo acompanhada da contraditória embora verdadeira teimosia dos que nada tem a perder, a esperança. Entrei em VIDAS SECAS do mestre Nelson Perreira dos Santos (assistam), passeei pelo CANGACEIRO (Lima Barreto, assistam também) e visitei DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (Glauber Rocha, assistam again de novo, of course)..
Se o resto não prestasse, ainda assim sairia no lucro. Felizmente o resto cumpriu o mandamento nº 1 das novelas: provocar no telespectador a vontade de assistir o próximo capítulo.
GABRIELA ETC E TAL
- IVETE SANGALO: Sotaque perfeito. Faz uma Maria Machadão que canta (e com grandes chances de encantar). Atrai zum-zum-zum, disse-me-disse, holofotes e anunciantes. Querem mais o quê, suas cobrinhas vaidosas, sua Photoshop vencido e sua minhoca elefante?
- MARCELO SERRADO: Voz de macho. Queixo de macho. Caminhar de macho. Pose de macho. Macho de 1900 e antigamente. AI PÁRA! O Valcirrrrr (ou o diretor ou o manda-chuva de plantão) correu atrás do talento comprovado em Fine Pedigree – para noooossa alegriiiiia.
- SEU NACIB, ops, HUMBERTO MARTINS: Talento. Homem (mais testoterona, risos). O Charmoso que agrada, o que não é lindo e nem precisa. Escolha perfeita.
- FIGURINOS E CENOGRAFIA: dos pobres, dos ricos, na Caatinga, na cidade etc. PALMAS PRO POVO DA TÉCNICA. Elas e eles merecem.

- MÚSICA: Thank god não estragaram o tema de abertura com besteiras pseudo modernas. De resto, vamos esperar a apresentação de todos os personagens e das tramas com seus respectivos fundos musicais. Porém os nomes citados na imprenssa já anunciam good news.
- MEU CHAMEGO, MEU IOIO, MEU IAIA, ADORO: Miss Pirangi (o ator Gero Camilo).
- PROXIMO ÍDOLO DAS MADURAS, DAS BEM DURAS, risos, e DA TIA ODOSINA: O Clemente (Daniel Ribeiro), aquele que “fez mal”, que “descabaçou” a Gabriela. Tão duvidando? Pois olhem o homem aqui, limpinho da Silva: http://tvg.globo.com/novelas/gabriela/Bastidores/noticia/2012/06/conheca-o-jagunco-que-vai-sacudir-o-coracao-de-gabriela-no-inicio-da-trama.html
- OBS PESSOAL: A linda cena na Caatinga e no sertão nordestinos, que mencionei lá em riba, foi ambientada no “Parque Nacional da Serra das Confusoes” (na altura do município de Bom Jesus, Sul do Piauí) e no Parque Nacional Serra da Capivara (sudeste do Estado do Piauí, ocupando áreas dos municípios de São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias). Conheço essas paragens de cabo a rabo e de cor e salteado. Lindas, intensas e somente para fortes.
- SALVE Laura Cardoso, José Wilker, Ary Fontoura, Mauro Mendonça, Chico Diaz, e Bete Mendes. AH e SALVE LAURA CARDOSO AGAIN DE NOVO!
REMAKE OU NÃO REMAKE: EIS A QUESTAO

Nem melhor, nem pior – apenas intrometida e saliente. Quem? Minha amiga Myrian, mais paraguaia que a Perla das antigas e que mandou dizer o seguinte:
- “eu assisto novelas brasileiras desde sempre. O remake de TI TI TI foi bom e deu ibope. O remake do ASTRO foi bem bom e deu ibope. O remake de GABRIELA parece que vai ser bom. O remake de GUERRA DOS SEXOS quem sabe pode ser bom. Mas vamo deixar de enrola-enrola e botá esse bando de roteiristas pra trabalhar, né DONA GLOBO? E quem nao quiser que faça fifin, em minúsculas mesmo! (lembrando que tem gente boa doida pra entrar na PLIN PLIN e com ideias novinhas em folha)“
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MAS NÃO SE MATAM CAVALOS?

Depois de oito temporadas e 177 episódios (eu não perdi nenhum!) House acaba na quinta-feira, às 22 horas, aqui no Brasil, sempre no Universal Channel. O seriado teve altos e baixos, mas seus fãs mais fiéis, aqui e no resto do mundo, garantiram as altíssimas audiências. Nos últimos tempos eu via mais por dever de ofício que por diversão, achava que a personagem já tivera a espinha quebrada pelos roteiristas e não era mais a mesma, mas enfim… O Dr. Gregory House foi um sucesso desde o primeiro instante (estreou aqui no dia 14 de abril de 2005). Mas o título deste último episódio – “Everybody dies”, todo mundo morre) é a prova evidente de que mesmo uma criatura onipotente como o médico pra quem a morte era uma inimiga a ser combatida de todas as formas também encontra o seu amargo fim.

À guisa de consolo, daqui a pouco, às 22 horas, no Warner Channel, estréia a sequela de Dallas, o primeiro seriado de televisão que eu vi quase todo. É, como eu disse, uma sequela, pelo que eu li a respeito os roteiristas tentaram modernizar, ou atualizar a história, e para isso lhe deram até toques ecológicos desses que serão discutidos inutilmente na tal de Rio + 20. Mas J. R. e Bobby Ewing estarão lá, e o que é melhor, vividos pelos atores originais, Larry Hangman (que na vida real sobreviveu até a um transplante de fígado) e Patrick Duff, embora a velha rixa tipo Caim e Abel entre os dois aconteça agora entre seus filhos. Assim, mais uma vez cruzaremos a porteira do rancho Southfork para bisbilhotar a vida de uma das famílias mais barraqueiras da televisão de todos os tempos. E atenção, quem acha que não vai valer a pena que se acautele. Em sua estréia nos Estados Unidos, na quarta-feira passada, Dallas teve 7 milhões de telespectadores; foi a maior audiência da estréia de uma série de tevê esse ano… E eu já botei pra gravar.
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ÍNDIO QUER (MAIS) APITO!
Eu disse no twitter que não tinha sobrado índios nas aldeias, de tantos que tinham vindo para essa tremenda boca livre que é a Rio + 20, e teve gente que, em resposta, quis até me capar por causa disso. São os que acham que, por conta de tudo o que aconteceu na época da descoberta e da colonização (quando o Brasil sequer existia), temos uma dívida eterna para com os índios e devemos saudá-la escancarando a porta de quantos cofres sejam possíveis em Brasília e distribuindo com eles todo tipo de benesses.
O resultado dessa política de má consciência aí está. Existem 502 mil supostos e presuntivos índios no Brasil. Digo supostos e presuntivos porque índio não é só quem vive em ocas – tem muita gente que batalha em todas as frentes como cidadãos brasileiros, mas, se a gente for fazer um teste de DNA, no fim de contas também são índios… Embora prefiram ser apenas pessoas em vez de pertencer a alguma tribo.
Mas voltemos: como eu disse, existem 502 mil índios no Brasil segundo o censo… E a essa altura eles já são donos de 13,2% do território nacional, divididos em várias reservas indígenas, às quais os órgãos governamentais encarregados de proteger essa ínfima parte da população brasileira não vê a hora de acrescentar mais e mais territórios. O resultado disso é que hoje em dia já cabem a cada índio 224,5 hectares do território nacional… E eles, deitados em suas redes, agradecem.
Mas não me cabe discordar de políticas governamentais – a mim e a vocês só nos cabe pagar impostos. E não sou eu que vou aqui contestar o direito adquirido de cada índio vivo aos seus 224,5 hectares de terra brasileira – o que eu quero é mostrar que, quando disse que tinha índios demais na Rio + 20, eu estava certo. Por isso, leiam a matéria abaixo, publicada hoje na Folha de São Paulo on line, e vejam que, dito pela boca dos próprios defensores dos índios, eu estava certo:
“Nem porco come isso aqui. Se comer morre”, gritava Uaratã pataxó, mostrando uma marmita de péssima aparência (arroz, feijão preto, macarrão e um pedaço de gordura) que, segundo ele, estava estragada e sendo servida aos índios que participam da Cúpula dos Povos, evento paralelo à Rio+20, no Aterro do Flamengo.
“Quem dá isso aqui não tem amor à vida. O índio é vida”, dizia o pataxó, do alto de um palco. A seu lado, um colega de outra tribo filmava tudo com um smartphone. Na plateia, cerca de uma centena de pessoas, atraídas pelo discurso. Os índios se revezavam ao microfone, afirmando ter passado mal por causa da comida estraga e reclamando por não terem tido atendimento médico.
“Esse é o Brasil sem fome: comemos comida estragada”, disse uma índia.
Os próprios representantes da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), responsável pelos índios presentes na Cúpula dos Povos (e por sua alimentação), reconheceram que cerca de 400 quentinhas estavam estragadas.
“Já estamos resolvendo a situação da comida. Não conhecemos as empresas aqui no Rio. A que contratamos não tinha condições de atender a demanda. Já mudamos de fornecedor, hoje à noite já vai ser servido por outra empresa”, disse Kretã, um índio kaingang, membro da Apib.
Segundo ele, além da falta de estrutura da empresa contratada para servir a comida (que ele não soube nomear), o excesso de índios também prejudicou a organização.
“Houve um acordo entre as organizações indígenas, cada uma traria um certo número de participantes. Seriam 1.100 indígenas, que ficariam no Sambódromo, mas chegaram 1.700. Não tínhamos estrutura”, disse Kretã.
Por fim, o representante da Apib disse que nesse tipo de evento os índios costumam montar um restaurante local, com cozinha coletiva, mas que a Prefeitura do Rio não permitiu tal estrutura no Aterro (cujos jardins são tombados pelo Iphan).
“Amanhã (18) bem cedo vamos à prefeitura para pedir a liberação da cozinha comunitária, para fazermos um restaurante aqui. Não tem como servir direito 1.700 quentinhas por refeição.”
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A CENSURA É UMA MERDA
A convite da revista Veja e do Jornal da ABI produzi recentemente os dois textos abaixo, que já foram publicados e, de certa forma, estão interligados. O primeiro, parte de uma reportagem de capa da revista sobre abuso sexual contra crianças, dá minha visão pessoal sobre esse ato de violência nefando que eu mesmo sofri na adolescência; o segundo, por conta da proibição em 1975 de Dez Histórias Imorais, um dos meus livros, aborda a questão da censura nos anos de chumbo da ditadura, mas transcende essa época para chegar aos dias atuais e falar da nova forma de censura, tão odiosa quanto a daqueles tempos, a do politicamente correto.
Tanto a Veja como o Jornal da ABI foram além de onde a vista alcançava na abordagem dos dois temas e assim produziram dois documentos primorosos. No caso do jornal, há na matéria várias preciosidades, entre elas o fac simile parecer do censor que aconselhou a proibição do meu livro, e que eu também publico abaixo. Quem quiser ler a matéria completa no jornal pode acessar este link: http://www.readoz.com/publication/read?i=1049976
A MARCA DA PANTERA
“Levei 54 anos para confessar que, após fugir de uma sessão de bullying no colégio – que se transformou num quase linchamento -, ainda fui vítima de abuso sexual por parte daquele que, supostamente, me defendeu e abrigou. Por isso, entendo que milhões de adultos que tenham igualmente sofrido abuso quando crianças não o confessem jamais. Afinal, o predador sexual mais perigoso não é o que está na rua, e sim o que convive com essas crianças e adolescentes, às vezes dentro da própria casa, e que usa todo tipo de artifício para alcançar seus objetivos, incluindo o carinho e a amizade. Uma coisa eu sei: por mais que criemos uma barreira entre nós e a agressão – que inclui oi absoluto silêncio sobre o assunto -, somos suas eternas vítimas, pois ficamos marcados para sempre por ela e a carregamos, como um sinal invisível, uma espécie de marca da pantera, pela vida afora.”
UMA ESTRANHA VERGONHA

“Aqui em Portugal, onde estou neste momento, não tenho condições de dizer em que ano “Dez Histórias Imorais” foi publicado. Talvez no final dos anos 60, ou bem no começo dos anos 70 (N. da R.: a primeira edição é de 1967, uma brochura de tamanho pequeno, com 148 páginas. Houve ainda uma segunda edição em 1969). Era um livro de contos que, sem maiores pretensões, reunia minhas primeiras histórias, escritas ainda na adolescência. O título foi idéia do editor, Hermenegildo Sá Cavalcanti, da Gráfica Record, o mesmo que me informou sobre a proibição do livro.
“Foi proibido por quê?” – eu perguntei na época, e ele não soube responder. Não havia ninguém de plantão para responder aos desmandos praticados pelos censores da ditadura. Nenhum deles explicou até hoje porque fui preso na noite do dia 5 de novembro de 1969, levado para a Ilha das Flores e lá “abandonado” por 70 dias.
“O que senti na época, e o que sinto agora, quando recordo esses episódios? Vergonha. Uma estranha vergonha, que não consigo explicar. Não vergonha de mim, ou de alguma coisa que tenha feito, mas vergonha do que “eles fizeram. A censura é uma violência eu sei, isso deve ser dito mil vezes, mas pra quem a sofre ela é principalmente vexaminosa. “Dez Histórias Imorais” nem era um livro que valesse o esforço dos censores, não tinha nada que justificasse a proibição, além do título, que era só um chamariz para o seu conteúdo.
“Hoje, dizem que os tempos mudaram. Mas eu sinto que uma nova forma de censura se abate sobre nós, e ela é tão abjeta quanto a da ditadura. É a censura do politicamente correto, que aos poucos vai moldando até a linguagem das pessoas, decidindo o que ela podem dizer, para chegar ao estágio final de dizer o que elas podem pensar. O que eu sinto quando sou afetado por esta nova censura? O mesmo que senti nas muitas vezes em que fui atingido pela outra: vergonha. Não de mim, nem do que tenha feito, mas de quem se dá a esse trabalho infame de decidir pelos outros.”
Abaixo, o fac simile do parecer do censor, devidamente assinado e datado, no qual ele decide pela proibição do meu livro de contos.
