CARAVAGGIO A QUATRO!

Posted on : 31-08-2012 | By : aguinaldo silva | In : Aguinaldo Silva Digital

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AFOGADO EM ROTEIROS!

Nem eu, com a minha por vezes auto-proclamada megalomania, esperava tanto. Ontem à meia-noite, quando se encerrou o prazo de inscrições, entrou o último concorrente ao nosso I Concurso Nacional de Roteiros… E o total de trabalhos enviados chegou a 407. Para um evento que mereceu a total indiferença da mídia foi um sucesso mais que absoluto… E uma grande fria pra mim e os outros jurados, pois teremos que ler todos os 407 roteiros e escolher aqueles que vão abiscoitar os prêmios de R$ 50 mil, R$ 20 mil e (três de) R$ 10 mil. Agora me digam: vocês acham que vou ficar triste por ter que ler tudo isso? Claro que não! Vou é ficar feliz, por mais uma vez constatar a força do nosso site. Agora é começar a ler e selecionar, e os concorrentes que aguardem, porque de vez em quando darei notícias sobre o andamento dos trabalhos aqui no mesmo.

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O editor-chefe deste espaço virtual incumbiu-me de fazer uma visita à exposição de  Caravaggio no Masp, e assim cobrir um dos grandes eventos atualmente em curso aqui em São Paulo. Lógico que eu disse que ia. Lógico que não fui e lógico que não vou mesmo. Sorry.

(by Davi Vallerio)

Não adianta me convidar pra aniversário em boate de consumação a 100 reais, encontro de jovens babacas de Cristo, prestigiar amigo em peça de teatro underground, casamento longe, ou jantar em dia de paredão do BBB. Se a pessoa é do tipo que fica magoadinha, confunde convite com intimação, vai ouvir um SIM. Digo que vou, que já estou lá sem falta, mas não vou. Não vou, não vou e não vou.

A vida é uma só, e não estou a fim de desperdiçar meu precioso tempo com coisas que não quero fazer. Visitar a exposição de Caravaggio é uma delas. Não que eu não goste desse mestre pintor do chiaro e scuro. Curto muito. Aliás, adoro pintura. É uma das coisas que mais me emociona em exposições. Não suporto esse povo besta pós-dada(e gugu)ísta que acha que é arte um pedaço de tijolo quebrado dentro de um balde cheio de prego em frente a uma tela de led mostrando  eternamente uma torneira que pinga. Pode até ser. Mas é outra coisa que não me causa nada além de um grande bocejo.

A culpa não é do Caravaggio. A culpa deve ser minha. Sou um paulistano atípico. Não tenho fetiche nenhum por pegar filas. Fujo delas como a revolta da vacina fugia do Oswaldo Cruz.

Adoro museu, quando viajei visitei vários, já fiz peregrinação naqueles famosos, maiores que quinze shoppings center juntos, vi até a Monalisa (pequenininha, coitada) encaixada no vidrinho com um monte de japonês em cima. Mesmo assim é lindo e emocionante. Mas museu e praia são duas coisas em que não sou nada democrático. Pra mim quando menos gente melhor.

Praia cheia não dá. Não vou à praia pra fazer dieta de fritura e comer de 15 em 15 minutos o que a filial do camelódromo pé na areia insiste em vender. Não vou comprar canga e óculos barango de sol (se estou na praia é por que já tenho), não vou à praia pra encher a cara, entrar no mar pra tirar o salva-vidas do bronze e sossego dele, não vou à praia pra ouvir os últimos hits da axé music e nem pra quando quiser dar um mergulho ter que desviar  feito um ninja das bolinhas assassinas  do maldito frescobol. Praia boa é praia deserta. De difícil acesso são as melhores. Só vai gente com pique e em forma pra se perder na trilha (se é que vocês me entendem).Velhos e crianças estão fora. Ufa.

Museu cheio é triste também. Ainda mais aqui no Brasil. Lá fora eles são igualmente lotados o ano inteiro. Mas eles são imensos. Salas, salas e mais salas. Se tem a caravana de Tóquio na parte do Egito, dá pra você ir pra ala medieval. Se a área dos barrocos tá lotada de dinamarquesas com o sovaco peludo e papete, você corre pros rococós. As áreas das obras mais famosas do mundo vão estar sempre cheias mesmo. Mas aí você entrega pra Deus, dá uma espiada de longe e diz que conheceu.

Aqui no Brasil é que é froda. Vem meia dúzia de esboço de algum pintor clássico. Pronto. Filas. Gente que nem sabe por que, mas tem que ir. E não tem escapatória. Final de semana vai gente disposta até mesmo a perder desde o Programa do Didi até o Faustão só pra encarar a fila. Dia de semana são ônibus e mais ônibus, igual uma romaria, de crianças e pré-adolescentes daquelas escolas que nem alfabetizam direito, imagina se vão fazer os fofinhos assimilar como foi o rompimento de padrões dos pintores impressionistas do século XIX. É só pra dar trabalho e pra quando você estiver passando na calçada essa criançada do ônibus te xingar de viado e te jogar salgadinho. Posso parecer cruel. Podem ir! Encham os museus de molecada arteira (nem precisa ser pobre não, os riquinhos também tão nem aí pra pintura pendurada na parede). Só não preciso e nem quero estar perto.

Um sonho? Uma solução?  Exposições que funcionem 24 horas. Pronto. Tá com insônia? Quer ver coisa bonita na madrugada? Quer passar horas olhando todas as pinceladas da Medusa Murtola? Quer  encontrar um gostosão  apreciador de arte igual a que Angie Dickinson achou ? (quem não se lembra do plano sequência enorme da fofa caçando este bofe que aparece com ela aí embaixo no Metropolitan Museum, no filme do Brian De Palma Vestida para Matar?)

Aqui, só se fosse de madrugada – e olhe lá – eu iria. Sempre. Acharia fantástico perder noites olhando coisas lindas (estou a falar de arte, queridos, não me levem tão mal).

O único lugar vazio em que não aconselho ir é restaurante. Pois restaurante vazio é restaurante ruim. Bom é cheio e concorrido. Independente do preço. E pra comer bem a gente espera né ? Agora enfrentar três, quatro horas de fila pro Caravaggio, me desculpe, só se estivessem distribuindo as obras do próprio.

É O RACISMO, ESTÚPIDO!

Posted on : 30-08-2012 | By : aguinaldo silva | In : Aguinaldo Silva Digital

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Por conta do absoluto desinteresse oficial em tornar o ensino básico exemplar, criando meios para que escolas e professores melhorem de nível, oficializa-se a precariedade do ensino: a partir de agora 50% dos alunos que chegarem à universidade pública entrarão lá despreparados, no que eu considero um flagrante ato de preconceito contra os que se prepararam, mas, por um azar da Mãe Natureza, nasceram brancos.

Lan House na periferia: na rede só não aprende quem não quer.

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texto de Aguinaldo Silva

Idos de 2007. Estava eu a fazer pesquisas no entorno do bairro carioca de Jacarepaguá com vistas à minha novela Duas Caras, quando me deparei com dois fenômenos correlatos. O primeiro era o das lan houses, que proliferavam pelos becos e vielas locais, com ênfase nas assim chamadas “comunidades” que eu, com essa minha perigosa mania de dar o verdadeiro nome aos bois, insisto em chamar de favelas; o segundo era o Orkut, a rede social que nasceu pra ser séria, mas, dizem que por conta da participação sempre gaiata dos brasileiros – o país chegou a estar em primeiro lugar em número de usuários –, acabou por ser detonada e há muito saiu de moda.

O Orkut eu vi logo que era uma furada e nunca me interessei em participar dele. Mas as lan houses das favelas de Jacarepaguá me fascinaram, e assim, devidamente disfarçado de “pobre”, passei a frequentá-las. Sentia um prazer enorme em ver tantos jovens – e também alguns adultos já cascudos – a taca-tacar freneticamente diante dos computadores, e cheguei a pensar que a inserção digital estava realmenteem curso… Até o dia em que, já íntimo de alguns locais, começei a me debruçar sobre seus ombros pra ver o que digitavam e – cruel decepção! – descobri que não, aqueles jovens não estavam aproveitando as facilidades da internet para complementar seus estudos precários numa escola pública qualquer, quem me dera… Estavam todos a fuxicar no Orkut!

E foi aí que nasceu a frase que andei repetindo exaustivamente na época sem provocar nenhuma reação naqueles a quem me dirigia:

É a educação, estúpido!

Pois se a educação é precária, se as escolas não induzem seus alunos a se educar, se aprimorar, e a utilizar para isso todos os meios – inclusive este mais à mão das lan houses, é claro que eles, sem que alguém os convença sobre a importância da educação e da cultura, em matéria de internet nunca se preocuparão em passar da era pré-jurássica que é a rede de fofocas, intrigas e falta do que fazer do Orkut.

O Orkut morreu de tanto ser inútil; agora o facebook, que tomou o seu lugar, segue pelo mesmo caminho – lotado até o pescoço de milhões e milhões de brazucas fofoqueiros, já está agonizante, embora seus arrogantes proprietários não assumam isso. As lan houses meio que sairam da moda – a nova classe média já tem seus próprios computadores, não precisa mais pagar por minuto pra usar os da loja da esquina… Mas quem disse que alguma coisa mudou no acesso à internet entre as comunidades mais, digamos assim, “carentes”? Nada! Os jovens continuam lá diante dos computadores, a enviar milhares, milhões de fotos absolutamente inúteis graças ao instagram… Mas os que esquecem a fofoca digital por alguns instantes para fazer uma pesquisa escolar ou – pior ainda – investigar por conta própria o que o universo inteiro lhes oferece via rede… Ah, estes são pouquíssimos.

Pois a escola não os orienta pra fazer isso. E quando eu digo “escola”, quero dizer as do ensino fundamental e médio que, de um modo geral, são péssimas, como deixam claro todos os testes feitos com seus alunos. Com raras exceções, essas escolas – principalmente as públicas não orientam seus alunos para nada. E o que faz o governo populista pra resolver isso? Cria uma nova estratégia para o ensino? Não, segue o caminho que lhe garantirá futuros votos – cria cotas. A Presidente da República sancionou anteontem a lei que reserva uma em cada duas vagas nas universidades federais para egressos do ensino público… E para “negros, índios e pardos” (o que quer que isso signifique no Brasil onde todo mundo, em matéria de raça, é misturado).

Ou seja: por absoluto desinteresse oficial em tornar o ensino básico exemplar, criando meios para que escolas e professores melhorem de nível, oficializa-se a precariedade do ensino: a partir de agora 50% dos alunos que chegarem à universidade pública entrarão lá despreparados, no que eu considero um flagrante ato de preconceito contra os que se prepararam, mas, por um azar da Mãe Natureza, nasceram brancos.

Sim a lei das cotas leva a isso: negros, índios e pardos contra brancos, no que uma nova Lei Afonso Arinos precisa chamar – como acontece quando ocorre o contrário – de racismo. E o pior é que, alem de oficializar o racismo (se você for branco, sua vaga na universidade estará sempre em perigo), ela nivela o ensino superior por baixo, ao decidir que, para ingressar nele, o que menos importa agora é o mérito.

E se a frequência aos bancos da universidade pública deixa de depender da aplicação, do esforço pessoal, do mérito, então para que melhorar a qualidade das escolas públicas do ensino médio ou fundamental?  Não vale mais a pena! E nesse caso, terei que mudar meu grito de guerra e declarar que a partir de agora não é mais a educação que importa, pois…

É tudo uma questão de raça, estúpido!

(A nova classe média comprou seus próprios computadores e deixou pra trás a era de ouro das Lan Houses)

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A VOZ DE QUEM PAGA A CONTA

Muita gente já foi ouvida sobre essa questão das cotas raciais no ensino público: políticos, educadores, representantes das ONGs devotadas ao trabalho de inserção social de “negros, pardos e índios”, estudantes que, de um modo ou de outro, pertenceriam a um desses grupos étnicos e seriam beneficiados… Mas nunca soube de alguém que se desse ao trabalho de saber a opinião dos que, mesmo tendo se preparado desde o jardim da infância para ter acesso ao melhor ensino superior – o das universidades públicas -, tivesse a partir de agora este acesso ameaçado por pertencer ao grupo amaldiçoado dos “brancos”. Por isso resolvi pedir a um deles que emitisse num texto sua opinião de parte diretamente interessada nos resultados futuros da chamada da Lei de Cotas. E a escolhida foi Carolina Michels, 17 anos, ora cursando o 2º ano do ensino médio num dos melhores colégios privados do Rio de Janeiro. No texto abaixo ela deixa claro o que pensa a respeito.

As cotas para ingresso de vestibulandos em universidades públicas aumentam a cada ano, e a presidente Dilma acaba de assinar uma lei que reserva 50% das vagas para estudantes da rede pública, negros, índios e filhos de bombeiros. Será isso uma forma de investir na educação? Melhorá-la ou piorá-la? Ou seria uma forma de preconceito? 

                O argumento utilizado é somente um; dar oportunidade àquelas pessoas que não a tiveram durante sua vida escolar. Só que criar cotas para eles não é a solução, e sim o maior erro. O que deve ser feito é melhorar o ensino básico, a qualidade das escolas públicas nos ensinos médio e fundamental. Deve-se investir desde o início, para que estes estudantes tenham as mesmas chances, ou até maiores, que os estudantes de escola privada, já que segundo a Constituição brasileira, a escola é dever do Estado e direito de todos. Só que uma escola qualquer – com professores grevistas, falta de merenda, de recursos e de atividades extraclasses – não é direito de ninguém. Deve-se melhorar a instituição pública brasileira como um todo, e não só esperar que os egressos das escolas do ensino médio façam bonito no Ensino Superior, já que muitos dos que passam pelas cotas não possuem conhecimento intelectual necessário para avançar nos estudos, acabam ficando pra trás, e a maior parte, por conta das dificuldades enfrentadas, nem chega a se formar. Então do que adianta dar vagas aqueles que não tiveram antes os meios para aproveitá-las?

                A questão do negro é ainda mais complicada, já que dar cotas a eles é o mesmo que dizer que não teriam a mesma capacidade intelectual de estudantes de outra raça/cor. Todos os seres humanos são iguais, e não há raça ou cor de pele que defina a inteligência ou superioridade de ninguém. Reservar vagas especiais para eles acaba criando uma forma de racismo desnecessário, e uma questão que nunca esteve significativamente presente no Brasil. 

                As vagas para os índios fazem ainda menos sentido, já que o que se valoriza neles e se procura manter é justamente sua cultura diferente, que não pode ser “adaptada” para caber nos limites de um exame vestibular. Portanto, as dos índios são vagas “guardadas” inutilmente e que de novo criam um tipo de preconceito, já que mais uma vez, o que se estaria sugerindo é a inferioridade intelectual de determinado grupo socio-cultural. 

                Como estudante, acho um absurdo e uma tremenda falta de consideração com as pessoas que estudam e se esforçaram a vida inteira para conseguir um lugar em uma faculdade de peso, que perdem sua vaga para aqueles que, provavelmente, por falta de preparo anterior – que deveria ser ministrado pelas escolas que cursaram – não terão condições de aproveitar  plenamente a oportunidade que se lhes oferece. 

                A pior parte disso tudo é que não são só as faculdades federais que aderiram ao sistema de cotas; as estaduais, como a UERJ, e algumas privadas como a PUC, também adotaram as cotas para uma porcentagem, menor que a das federais, de cotistas. 

                O ensino público e a educação no Brasil só vão melhor com infra-estrutura e investimentos na base, desde o maternal até o ensino superior, passando pelo ensino fundamental, e principalmente, o ensino médio, que qualificam os alunos e estudantes para as faculdades e cursos técnicos.

                Enquanto isso, aguardamos ansiosamente por uma posição do governo diante de tudo isso, e também diante das constantes greves no ensino público. Esperamos que pequenas mudanças começem a surgir para que possamos alimentar esperanças e ter orgulho de dizer que vivemos em um país justo que, na educação e no ensino, faz realmente de tudo para que seus jovens sejam os mais qualificados e preparados para a vida possíveis. (Carolina Michels)

 

Felomenal! Tô certo ou tô errado?

Posted on : 29-08-2012 | By : aguinaldo silva | In : Aguinaldo Silva Digital

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Assim como os figurinos utilizados na TV ditam a moda nas ruas brasileiras, os bordões e gírias, quando bem explorados, ficam literalmente na boca do povo por muito tempo mesmo depois do término de uma novela ou de um programa. Alguns, de tão fortes e bem empregados, são incorporados à linguagem cotidiana e atravessam diferentes gerações.

“Pára! Congela! Ovulei!”

(texto de André Luis Cia)

 

Dois dos maiores ícones do entretenimento no Brasil, os apresentadores Abelardo Barbosa, o folclórico Chacrinha e Silvio Santos, podem ser considerados  os pais ou precursores das expressões populares que tornaram-se conhecidas em todo país. São deles, por exemplo, as célebres frases e ditos: “Quem quer dinheiro?”, “Terezinhaaaa!”, “Quem quer bacalhau?”, dentre outras que eles lançaram e viraram uma marca pessoal de cada um, alçando-os ao posto de grandes comunicadores de massa. 

A teledramaturgia também sempre se beneficiou dos bordões para caracterizar determinado personagem ou núcleo dentro de uma trama. Quem por acaso não se recorda do Sinhôzinho Malta (Lima Duarte), em “Roque Santeiro”, balançando as pulseiras e falando: “Tô certo ou tô errado?”

Mas se por um lado parabenizo muitas inserções; de outro, faço também o papel de advogado do diabo. De nada adianta um autor/roteirista criar um bordão inteligente ou original se o ator que for interpretá-lo não tiver carisma, ou melhor, fôlego, para segurar e sustentar aquele termo durante a exibição de toda a trama.

Na minha opinião talvez, a mais chata de todas as expressões criadas até hoje foi a  do ator Claudio Heinrich, o Dado, de  “Malhação”, na primeira temporada. “Bonito isso né? Eu li num livro!”. Neste caso, o que mais irritou é que o ator não tinha mais falas independentes, ou seja, ele virou refém da sua própria expressão.  Era como se todas as suas cenas necessitassem do bordão como uma muleta. Isso acabou cansando, e acho que a direção e os autores deveriam ter consertado esse erro eliminando ou diminuindo o seu uso.

Mas esse é o único exemplo que me desagradou, porque a grande maioria, geralmente, acerta na escolha. Retomemos o exemplo clássico de Roque Santeiro. Se Lima Duarte fazia jus ao seu Sinhôzinho Malta em todos os sentidos – da perfeita composição da personagem ao bordão famoso, sua companheira de cena, a viúva Porcina, magistralmente defendida por Regina Duarte (na foto abaixo), quase enlouquecia, no bom sentido, a atriz Ilva  Ninõ quando gritava pelo seu nome: “Miiiiiiiiiiiina”. Era realmente hilário vê-las em cena, principalmente quando Mina chegava assustada após os gritos da patroa ensandecida.

Por falar em química, uma dupla que chegou de mansinho e que conquistou o público e também a crítica foram os talentosos atores Rodrigo Santana e Thalita Carauta, que interpretam as amigas Valéria e Janete no “Zorra Total”,  num dos quadros de maior sucesso dos últimos anos, e que trouxe um frescor para o programa de humor de linguagem tradicional. O  termo “Ai como eu tô bandida”, falado por Valéria, virou hit instantâneo, assim como as sacadas e trejeitos de Janete. A cumplicidade e o carisma da dupla rendeu e ainda rende momentos ótimos de um humor que não é gratuito.

Coube a saudosa atriz  Mara Manzan (na foto acima), falecida em 2009, um dos bordões mais comentados  da TV e que até hoje é lembrado pelos brasileiros. Sua personagem, a engraçada suburbana Odete, era frequentadora assídua do Piscinão de Ramos, no Rio de Janeiro e almejava aparecer nas colunas sociais. Ela provocava gargalhadas toda vez que dizia: “ Cada mergulho é um flash”. Por conta do grande sucesso, seu papel ganhou destaque no “O Clone”.

“Mistééério”, “Upa lá lá”, “É nos trinques”,  “Sua quenga” – frase “cuspida” por Perpétua, aliás Joana Fomm (na foto acima) -, “Tribufu”, “Salve Aleluia salve”, “Eta le lê”… Com o relançamento de “Tieta” em DVD, quem viu vai rever, e quem ainda não viu, terá oportunidade de se deliciar com estes e outros termos usados incansavelmente pelos personagens da novela. Ao lado de Roque Santeiro, Tieta foi a recordista em número de expressões populares que emplacaram na nossa TV.

O que é mais interessante no caso de Tieta é que mesmo depois de 20 anos de sua exibição ainda ouvimos muitos desses bordões nas ruas. Tenho uma tia, por exemplo, que vive brincando de chamar as pessoas que ela não gosta de tribufus – numa alusão direta ao termo usado na trama de Aguinaldo Silva.   

A novela “Fina Estampa”  trouxe para o público uma das personagens mais carismáticas dos últimos anos: o mordomo Crô Valério.  Divertido, alegre e imune ao mau humor, o núcleo de Crô ganhou destaque na trama a ponto de “roubar” muitas cenas do núcleo principal.  De todas os personagens da nossa dramaturgia, acredito que Crô é líder em número de expressões que atingiram e conquistaram o público, e que ainda hoje são comentadas. “É pior que todas as pragas do Egito juntas”, “Ai, não. Para”, “Obrigado, Pitonisa de Tebas, mil vezes obrigado”,  “Sua anã de jardim”, “Ovulei”,  “Arrasou”. Estas e outras expressões repercutiram tão bem que Crô saiu da novela, mas sobreviverá no cinema numa história só sua. Imagino que muitos outros bordões vão surgir por aí para entrar nessa galeria.    

Nas atuais novelas “Avenida Brasil” e “Cheias de Charme”, as expressões também fazem sucesso e estão na boca do povo.  “Ariranha” é uma das mais conhecidas, e frequentemente  usada para atingir  a personagem Suelen, da talentosa atriz Isis Valverde. Já “curica”, “empregue-te” e “patroete” foram incorporados ao vocabulário de muita gente graças à trama das 19h.

Bem, se eu quisesse poderia enumerar muitas outras expressões que ficaram famosas graças à TV, mas optei em fazer uma brincadeira juntando as que ainda não foram citadas no meu artigo numa única conversa.Os bordões estão em negrito. Leiam abaixo porque o “tempo ruge e a Sapucaí é grande”:

Hoje eu acordei rosa chiclete. Também pudera. Comprei um modelito que vai abalar Bangu! Tudo isso porque eu sou chique de doer. Eu sou chique bem e não quero fazer feio nessa festa. Vai ser um babado geral. Tudo mara. Epa, epa, epa, mas o pau vai entortar se aparecer alguma periguete  com algo parecido com o meu vestido. Comigo não tem brinquedo não.  Se eu tô falando é porque eu me conheço. Eu só abro minha boca quando tenho certeza. Tem que ter catiguria pra competir comigo. Pena que nem todo mundo é igual né?  Tem muita gente por aí que é a verdadeira treva”.

 

 

“Gorila depilada! Zoiudo! Anã de Jardim!”

 

SALVE GLÓRIA!

Posted on : 27-08-2012 | By : aguinaldo silva | In : Aguinaldo Silva Digital

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Em 2001, dez anos antes da “nova classe média” fazer uma visita às Casas Bahia e esvaziar todo o seu estoque, ela seguiu pela Avenida Brasil, foi parar no subúrbio de Ramos e lá situou um dos núcleos principais de sua novela O Clone, até hoje a prova mais exacerbada e excelente de que, quando se fala em autor de telenovelas “populares”, ela é a pioneira. Quem é ela? Gloria Perez; popular e guerreira, um dos ícones da televisão brasileira, nosso único Emmy Internacional no gênero, uma grande dama que já enfrentou mil batalhas, mas está sempre pronta para novas lutas. Durante mais de três horas ela conversou com nossa repórter Simone Magalhães e se submeteu com extrema paciência às lentes do fotógrafo Francisco Patrício. Leiam, vejam as fotos e repitam conosco – que somos seus fãs absolutos: salve Glória!

texto: Simone Magalhães

fotos: Fco. Patrício

Não foi à toa que Glória Perez escolheu São Jorge para dar nome à sua nova trama, Salve Jorge, que estreia dia 22 de outubro, às 21h, na Rede Globo. “Quando falo de São Jorge na novela estou falando do mito, do guerreiro, que está dentro de todos nós.” E disso essa acreana de 63 anos e personalidade forte entende bem. Enfrentou o assassinato da filha Daniella Perez há 20 anos, a morte do filho Rafael, um linfoma na tireóide, mas não se rendeu. Colocou toda a inspiração em seus folhetins, sempre sinônimos de sucesso. Adepta de temas polêmicos, ela trata na próxima novela das nove do tráfico internacional de pessoas, com gravações feitas na Turquia, e de como os moradores do Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, ganharam em autoestima, depois da pacificação da comunidade, em 2010. Mas não fica por aí, não. Glória tem muito o que contar nesta entrevista exclusiva. Deliciem-se!

 O MOTE

Por que você optou por centrar sua novela no tráfico internacional de pessoas?

Eu, geralmente, fico muito atenta àqueles temas invisíveis para as pessoas. Como o das crianças desaparecidas (Explode Coração, 1995) e o dos drogados (O Clone, 2001), do ponto de vista delas. Não da polícia, dos psicólogos, dos médicos, de quem as trata. E esse era mais um tema invisível. Eu andava pelo aeroporto e via aqueles cartazes sobre o tráfico de pessoas, e pensava: ‘Quem presta atenção nisso?’. Muita gente age como se não existisse. Comecei a falar com pessoas nas reuniões em que ia, e elas diziam que era lenda urbana.

Qual é o perfil das vítimas em potencial?

São meninas simples, que não falam nenhuma língua estrangeira, nem sabem o que é uma embaixada. Essa coisa da crise no exterior não bate tanto nas pessoas aqui. Elas pensam no dólar, no euro, acham que vão resolver a vida em seis meses, comprar uma casa. Geralmente, as pessoas que fazem a negociação são próximas. É aquela vizinha, que expõe a própria vida, conta que foi, voltou e comprou casa, carro. No caso da novela será a Wanda (Totia Meirelles). E, quase sempre, a menina tem uma amiga que se interessa em ir também. Elas já chegam no exterior com uma dívida muito grande: as roupas, a comida, alojamento e tudo mais.

Você vai falar em tráfico de bebês e de órgãos também?

De órgãos, não. Falarei do tráfico de bebês, de mulheres que vão trabalhar e da exploração daquelas que são escravizadas. Mesmo as que são traficadas para sexo são enganadas. Quando saem daqui sabem que o trabalho será fazer programa, mas não sabem que serão escravizadas.

Algumas escravizadas conseguem voltar ao Brasil, mas muitas, não.

Tem várias maneiras de voltar. Mas você imagina as condições… Alcoólatras, destruídas, sem nada. Elas não querem voltar tão derrubadas, diante dos parentes, das vizinhas. Têm vergonha de dizer o que aconteceu. E também porque sabem que a família foi fotografada, pesquisada, e temem represálias. A pessoa fica amordaçada! Eles jogam muito com isso, com o medo delas. Eu li que as mais fáceis de serem levadas são as africanas. O traficante só precisa ameaçá-la que vai atuar sobre o vodu. Você já as têm nas mãos pela crença.

Elas são drogadas?

Muitas usam drogas. Elas próprias procuram, para suportar esse tipo de pressão. Ou eles injetam, muitas vezes, pra matá-las.

Como são escolhidas para cada local de prostituição?

São distribuídas pela aparência. O Brasil é mais um celeiro. Mas se fosse aqui, umas iriam para Vila Mimosa; outras para Copacabana, outras para um bordel de luxo.

E o tráfico de bebês? Como acontece?

Na década de 80, principalmente, milhares de bebês brasileiros foram traficados para a Europa. Tenho feito entrevistas com pessoasem Israel. Agora, encontrei mais um na Suécia, e outro na França. Em Israel, eles se reuniram, formaram uma comunidade para tentar localizar as famílias aqui, porque, em geral, os documentos de adoção são falsos. É toda uma rede envolvida, uma máfia mesmo. Corrupção também de agentes de polícia, juízes, muita gente. Pra pegar uma criança no hospital, tem que ter o médico, a enfermeira, um juiz que assine aquilo. Tem que ter pessoas em muitas áreas. 

Por que essa busca? Eles pensam em voltar?

Pode ser para qualquer coisa. Em geral, estão bem, felizes, eles sabem que foram adotados, mas não conhecem as circunstâncias. E querem achar a família biológica, têm necessidade de descobrir sua origem. Eles procuram sentir o Brasil pela música, pelos filmes, a maioria tem a bandeira do Brasil, aprendem português. Uma menina me falou: ‘É difícil você olhar no espelho, e não se parecer com ninguém’. De um modo geral há dificuldade para adoção em Israel, aí tem uma intermediária dizendo que no Brasil é fácil.

 

COMPLEXO DO ALEMÃO

 

E por que resolveu ligar essa trama ao Complexo do Alemão?

Fiquei muito impressionada com a pacificação do Alemão. É encravado na cidade, mas estava tão à parte. E é imenso! Quando se falava naquele lugar, o que vinha à cabeça era Elias Maluco, a terrível morte do Tim Lopes… Você só pensavaem bandidos. Eume impressionei muito, quando houve a pacificação, de ver que começaram a enxergar as pessoas. Hoje, penso na Adriana da empadinha, no livreiro, que até publicou um livro agora, traduzido para o espanhol. Queria levar isso para o público.

Recentemente, houve novos confrontos, duas pessoas morreram. Você acredita na pacificação definitiva ou é só uma maquiagem para 2014 (ano da Copa, no Brasil)?

Não levo muita fé no jeito como está sendo feita a pacificação. Porque se você não prende o bandido, ele não vai tirar carteira de trabalho: ele vai se mudar pra outro lugar. Não sei se dá pra dizer que é só uma maquiagem. Pode ser um ponto de partida, mas que não é eficiente. Eficiente é você entrar mesmo, limpar mesmo, prender quem tem que prender.

Você vai falar sobre a atuação do Exército?

Começo a novela com a entrada do Exército no Alemão. Mesmo que tenha sido incompleta, a pacificação abriu um caminho muito grande, deixou fluir a esperança dessa população. Quando você conversa com as pessoas do Alemão, sente o resgate do amor próprio, que é muito importante. Agora podem aparecer, cobrar cidadania que o Estado lhes deve. Abriram-se as comportas, mas não se venceram todas as barreiras. Tem um rapaz, conhecido como ”fotógrafo do Alemão”, que ficou muito abatido na época do tráfico, porque só falavam da comunidade como se  houvesse apenas bandidos. No workshop que fizemos, ele levou um jornal, com uma foto enorme e a manchete era: ‘O inferno é aqui’.  Aquilo doía na alma dele. Agora, os moradores estão vibrando. Todos os profissionais vão aparecer na novela, a Adriana da empadinha, o livreiro, o fotógrafo. Vou retratar a população, mas, na verdade, é uma novela.

 

PERSONAGENS

Sua protagonista, a Morena (Nanda Costa), mora no Alemão e vai ser aliciada. Seu par romântico, Theo (Rodrigo Lombardi) também mora lá?

Não. Ele é oficial da cavalaria, que entra no Alemão.

Então é o príncipe encantado, que chega a cavalo, para salvar a mocinha?

 É…(risos). Digamos assim.

Lívia (Claudia Raia) é a chefe da quadrilha, que conta com Irina (Vera Fischer) e  Russo (Adriano Garib). Você pode falar um pouco mais sobre isso?

Lívia é a grande vilã da história.  Tem duas faces: uma legal, e outra, não. Ela promove desfiles, pode contratar uma modelo e mandar pra fora do Brasil, lançar outras. Mas tem o lado B. Umas vão para trabalhar, outras para o tráfico. A Irina é gerente da boate, ela fica no exterior, e o Russo, o chefe da segurança, que vai lidar diretamente com as meninas.

A ex-top model Antonia (Letícia Spiller) separa-se do marido, Celso (Caco Ciocler), e, sem saber, vira ‘laranja’ de um dos negócios da Lívia, que conheceu nos tempos de modelo. Ela vai lutar pela posse da filha. Será uma situação complicada, não?

No caso da Antônia, vamos falar também sobre alienação parental. 

(Nota do ASD: “Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este”. Mais detalhes no http://www.alienacaoparental.com.br/lei-sap). 

Você pretende mostrar o amor entre uma mulher e um homem de culturas diferentes com a brasileira Bianca (Cleo Pires) e o turco Zyah (Domingos Montagner)?

Um pouco mais do que cultura: são pessoas completamente diferentes. Ela é uma mulher do mundo, estava sempre viajando, ficava maisem Nova York. Chegaà Turquia e dá de cara com aquele cara rústico, que mora numa caverna. Imagina? (risos)

Pelo jeito as histórias paralelas também são bem interessantes.

Gosto de fazer tramas paralelas fortes. Tem que descansar a trama central senão fica muito repetitivo. Em novela é como na vida, a gente gosta de uns e não gosta de outros. Então, tem para todos os gostos. A novela é uma hora por dia. Não conseguiria ficar falando da mesma coisa. Depois, todas as tramas paralelas se amarram na central.

E Eva Todor, como em suas outras novelas, não vai faltar…

Que figura maravilhosa é a dona Eva! Ela vai ser uma alcoviteira. Além daquela vitalidade toda,  tem uma coisa que eu adoro: sempre me pergunta se tem romance nas personagens dela. (risos)

Além da Eva, teremos Neusa Borges e Vera Fischer, que estão sempre nas suas tramas.

Há pessoas que dizem bem o seu texto. E a gente acaba incorporando.

Você traz de volta Lisandra Souto, Monique Curi e Narjara Turetta, e como um dos galãs o ator Ivan Mendes, da temporada 2011 de Malhação. É importante essa mescla?

Acho que sim. Além dos já consagrados, a gente também vê atores no teatro, o produtor de elenco, que tem indicações, os testes, a Malhação.

E uma curiosidade de muita gente: Thammy Gretchen terá envolvimento afetivo com alguma personagem feminina?

Tammy fará uma escrivã da polícia e a sexualidade dela não estaráem questão. Nãohaverá envolvimento afetivo.

CLASSE C

Você acredita numa nova classe C ou a inventaram nas novelas?

Óbvio que houve uma escalada da classe C, que está tendo mais acesso ao consumo. Mas ela sempre foi nosso público, nós sempre falamos pra classe C. Sempre fui uma autora popular.  Quando eu falava que queria Zeca Pagodinho, diziam: ‘Lá vem a Gloria Perez com Zeca Pagodinho’, que era brega, e hoje todo mundo adora. Não tenho que mostrar a classe C pra ter sucesso. A diversão das classes C, D, E sempre foi a novela. 

(Ela chama sua fiel escudeira, a caxiense Ritinha, para pedir um café, e brinca que ela entende de classe C. Pergunto se onde ela mora todo mundo fala gritando, principalmente à mesa. Ela diz que “tem muita gente escandalosa, mas não é todo mundo, não”.  E as moças usam roupas como as da Suellen (Ísis Valverde)? “Ah, usam! Se tiver minissaia, short ou calça comprida, elas preferem a minissaia”).

GLÓRIA – E olha que disso a Ritinha entende: ela vende roupas! Vestido lá? Só se for embalado à vácuo! (risos) Mas se você pensar, legging todo mundo usa. Só que a gente coloca com uma blusa comprida, lá preferem os tops. A classe C sempre foi o nosso público. Isso de supervalorização é uma maluquice. O negócio é que a classe A está, cada vez mais, assumindo que vê TV. Antes, tinha aquela história de “estava passando pela sala e dei uma olhadinha” (risos).

Quando você faz uma novela pensa nas classes dos personagens? Ricos, pobres, remediados?

Ah, claro. Como vou retratar a vida , fazendo esse recorte? Eu penso no mundo. Geralmente, trago alguém de lá pra cá (do exterior). Só sei enxergar assim.

E você sempre busca colocar tribos diferentes, como os góticos, os rockers…

Tem gente que só enxerga o bairro onde mora. Eu enxergo o mundo. Acho que isso tem a ver com o Acre, uma terra de aventura. Iam pra lá ver se ficavam ricos com a borracha, ou fugindo de algum lugar. Meu avô paterno, italiano, veio para São Paulo. Mas como era anarquista, acabou indo para o Acre, e casou-se com a minha avó. Vinha gente de todos os lugares. Abri os olhos para um mundo múltiplo, colorido, convivi com a diferença. O Acre era muito aberto para o mundo. Até histórias ‘de novela’ ou histórias excepcionais, lá eram muito comuns. Como essa coisa de reencontro de pais e filhos, depois de muito tempo. Várias pessoas que iam, moravam durante 30 anos, e depois se sabia que tinham família em outro lugar. Era muito interessante tudo isso. Eu via acontecer o tempo inteiro.

Por isso você queria estudar História?

Sempre tive paixão por História.

Para ser historiadora ou lecionar?

Os dois. Comecei sonhando em ir para o Egito, fazer escavações, saber sobre os faraós… Acabei na História do Brasil (risos). História te dá a noção do tempo, de cada tempo, da sucessão dos tempos. Isso influi no seu jeito de olhar. Você não vê com os olhos de hoje, nem do ponto de vista de sua própria cultura ou de sua própria situação social. Sua visão de mundo se aprimora numa determinada direção. Eu fiz o Mestrado, mas não defendi a tese. Quando ia defendê-la, apareceu a Janete (Clair) e eu optei por ela.

Você queria escrever novelas também?

Sempre. Queria fazer História e novelas. Mas não tinha TV no Acre. Eu ouvia as novela pelo rádio, O Direito de Nascer, Jerônimo, o Herói do Sertão. Quando fui para Brasília terminar os estudos,  trabalhava de dia e estudava à noite. Depois, passei no vestibular para a UNB, mas não tinha História. Fiz três anos de Direito na UNB e fazia Filosofia à noite. Só dava para ver alguns capítulos, quando não tinha aula. Nossa, me lembro de uma novela com a Nívea Maria, em que a chamavam: “Tula, minha pequenina Tula” (O Preço de Uma Vida, 1965/1966). Lembro da Leila Diniz, que ficou presa num porão e jogaram ácido no rosto dela. Aquelas coisas de Glória Magadan.(risos).

Em 1968, invadiram a UNB, você desistiu dos cursos e veio morar no Rio, com seu noivo, o engenheiro Luiz Saupiquet Perez (falecido em 1994). No ano seguinte, casou-se. Você trabalhava nessa época?

Nunca fiquei em casa, sempre trabalhei. Com 18 anos fiz concurso para a Câmara dos Deputados. Quando vim para o Rio consegui transferência, trabalhei na representação do Senado e na do Ministério da Justiça, onde fui recepcionista. Ih, fiz um montão de coisas (risos). Aí, em 1970, nasceu a Dani (Daniella). Em 72, o Rodrigo. E depois fui fazer História. O Rafinha (Rafael) nasceu em 77.

Você sempre buscou o que queria?

Sempre fui muito curiosa do mundo, acho que isso é uma característica forte do escritor, como vestir várias peles. Adoro conhecer gente diferente. Eu era aquela criança que adorava ouvir histórias dos mais velhos. Não gosto de me encerrar num ambiente só.  

Você é daquelas que num restaurante, num lugar com muita gente, presta atenção no que está sendo dito?

Presto (risos). É uma coisa horrível, mas você acaba ouvindo boas histórias. É a curiosidade sobre o ser humano, difícil não ter.

E quando as pessoas vão embora, e a gente não sabe como terminou, dá vontade de ir atrás!

Exatamente(risos). Aí, você já cria uma história, um passado para elas. É muito engraçado.

NOVELISTA

 

Em 1983, Janete Clair a convidou para colaborar em Eu Prometo. Ela estava com câncer, faleceu, e você continuou a trama sozinha. Aliás, porque você sempre trabalha sozinha?

Porque não sei fazer essa divisão de cenas, ter reuniões com colaboradores, eu não sei fazer escaletas… Admiro muito quem consegue tudo isso. Eu fico em pé ali (aponta para a bancada da cozinha americana, na qual está um laptop), olhando para o mar, a história vem na minha cabeça e eu escrevo. Minha imaginação só se solta diante de uma página em branco. É alguma ligação que tenho que fazer com meu interior. Quando meus filhos eram pequenos, escrevia à noite, porque  precisava de silêncio. Agora escrevo de manhã, nesse lugar maravilhoso (seu escritório, num flat de frente para o mar de Copacabana).

Sempre escreve em pé?

Em pé ou encostada num banco alto.

E, como era para Janete Clair, as notícias de jornal são inspiração para você também?

Jornal é uma grande fonte de inspiração. Bom, trabalho sozinha entre aspas: tenho três pesquisadoras… Ah, não, nessa novela são quatro (Sandra Regina, que também é coreógrafa, Julia Laks, Malga di Paula e Berna Ayat). As primeiras entrevistas sou eu quem faz, acompanhada pelas pesquisadoras. Elas entendem o que quero, depois é só telefonar e pedir as informações que preciso. Mas elas leem os capítulos assim que ficam prontos e me dizem o que acham. Se pararem de ler para tomar um cafezinho é mortal: tem que pegar o capítulo e devorar. Tem que ler direto (risos).

Você se emociona vendo alguns capítulos no ar?

Já me emocionei, sim, muito. Em vários capítulos e situações. Por exemplo, eu me lembro em América, quando fiz as entrevistas, tinha o rapaz que ia fazer a travessia para os Estados Unidos com a irmã, interpretada pela Bete Mendes, que foi picada por uma cobra e não podia mais andar. Ele não queria deixá-la, mas também não adiantaria nada: a irmã ia agonizar ali e morrer. Resolveram dar um tiro na cabeça dela, para que não sofresse mais. Ele viu. E, depois, resolveu tentar a travessia de novo.

Por falar em América, você ficou irritada por não ter ido ao ar o beijo gay, entre Junior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro)?

Irritada, não. Diria frustrada. Foi gravado sete vezes e estava lindo. Mas também tem uma coisa, todas as emissoras do mundo escolhem o que vai ao ar. Seria ingenuidade minha ficar irritada. Era um romance, não uma pegação! E fizemos um beijo tipo de cinema, na década de 50: romântico.

Suas novelas são marcadas pelas campanhas (doação de órgãos, contra as drogas, crianças desaparecidas, inserção do esquizofrênico na sociedade, entre outras). Agora, contra o tráfico internacional de pessoas. Você acha que as novelas devem ter sempre merchandising social?

Acho que faz quem quer. Se não fizer parte da história que a pessoa quer contar, não deve ter. Não acho que o público assista pra ver isso. Se o folhetim não fizer sucesso, a campanha vai passar despercebida. Você faz a campanha, e mostra que existem casos como aquele. Em Explode Coração (1995), a história da criança desaparecida se misturava a depoimentos verdadeiros.  Mas acho que as pessoas querem sonhar. Pra mim é essencial sonhar. Você pode mostrar a realidade, mas tem que alimentar as fantasias. Se não é documentário.

Mas as novelas estão cada vez mais realistas.

A função do autor é de entretenimento. Se junto disso vier outra coisa, ótimo. O que busco sempre nas minhas campanhas é se tiver depoimento real, incorporo.  Não fica uma coisa que afasta você do folhetim, e ainda reforça o sentimento. Mas não acho que isso seja medida de sucesso pra novela nenhuma. A fórmula do sucesso, pra mim, é contar uma história que diverte, envolve e emociona. É hipnotizar o público. E você tem que ter audácia, não tem que ter medo de inventar. A novela não é feita pra educar ninguém: é feita pra divertir. 

PERDAS

E foi essa audácia que a levou recolher mais de 1 milhão de assinaturas para transformar o homicídio qualificado em crime hediondo e fazer justiça no caso do assassinato da Daniella, há 20 anos, por Guilherme de Pádua e Paula Thomaz?

Foi uma bela campanha. Ninguém sabia que na Constituição brasileira tinha esse recurso de que o povo podia fazer uma lei. Um advogado me disse: ‘Você não vai fazer’. E eu disse: ‘Vou conseguir’. Em três meses conseguimos 1 milhão e 300 mil assinaturas. Isso numa época sem internet, sem redes sociais. Se não fosse essa lei, a Suzane Von Richthofen já estava na rua, e o casal Nardoni estaria saindo em 2013.

Você também conseguiu evitar a venda do livro escrito pelo Guilherme de Pádua.

Consegui. Uma coisa é liberdade de expressão, outra é liberdade de difamação. Movi um processo contra a UOL e o jornalista, que falou mal de América, e, no meio da crítica, debochou da morte da minha filha. Ganhei um belo dinheiro e fiz uma distribuição entre as três babás que cuidaram da Dani. Hoje, elas têm casa própria.

Em algum momento, no auge do seu sofrimento, você pensou na pena da Talião: ‘Olho por olho, dente por dente’, fazer justiça?

Recebi muitas cartas de pessoas se oferecendo para isso. Teve uma em que o remetente dizia que se eu falasse tal palavra  na TV, ele não amanheceria. Mas eu nunca disse, nem vou dizer.  E não gostaria mais de falar sobre isso. Desse indivíduo prefiro nem falar. Holofotes em cima dessas pessoas, não.

Dez anos depois da morte da Daniella, você perdeu outro filho, o Rafael, de 25, com uma infecção intestinal generalizada. Como você conseguiu sobreviver a tudo isso?

O Rafinha nasceu com um problema genético grave. Só tinha um outro caso na América do Sul com o mesmo problema, mas o médico nunca quis me mostrar, porque não sabia se o Rafinha ia ficar além ou aquém desse único parâmetro.  Ele disse que, dificilmente ele passaria da adolescência. Eu procurava acreditar que não ia acontecer, mas já tinha essa condenação desde o início. Rafinha era um menino muito especial. Era assim como alguém à meia-luz. Entendia de computação e escrevia crônicas maravilhosas sobre futebol. E tinha uma lentidão para outra coisas. Fiz muitas amizades na vida por causa dele. Como ele tinha uma consciência muito grande de seus problemas, não queria que falássemos sobre o assunto, e fazia tudo para tentar superá-los. Sempre tive muito cuidado em não me referir ao problema dele. Rafinha tinha uma força de vontade admirável. Ele não queria se sentir diferente. Depois que não conseguiu mais acompanhar a escola comum, botei uma professora de inglês. Ele era muito especial.

Hoje, você tem o Rodrigo, de 39 anos , pai do Henrique e da Maria Eduarda. Além de ser supermãe sempre, você canalizou toda sua afetividade nele?

Eu acho que encho o saco, como toda mãe. Não existe mãe que o filho não ache que esteja exagerando (risos). Conversamos muito, saímos com as crianças, eles estão sempre por perto. Além disso, sou muito apegada à filha do Raul (Gazolla, viúvo de Daniella Perez), a Rani. Pra mim, no coração, ela é minha neta também. Outro dia, fui na primeira apresentação de teatro dela. Raul está bem, casado com uma moça, já tem uns nove anos.

Em 2009, você descobriu um linfoma na tireóide, fez a cirurgia para retirá-lo e ficou curada. Como foi pra você enfrentar essa situação?

Estava no meio da novela (Caminho da Índias), quando, uma noite, fui me arrumar para sair e, na frente do espelho, ‘pulou’ uma coisa, que parecia um caroço, no meu pescoço. Sempre tive problema de tireóide e fui logo ao médico. Ele disse que eu tinha que tirar a tireóide. Foi uma operação muito simples: entraria num dia, sairia no outro. Mas quando ele fez a biópsia, viu que havia um linfoma na tireóide. Você ouve a palavra câncer como uma condenação à morte. Como se você tivesse que se retirar da sua casa, da sua vida, sem tempo de deixar as coisas arrumadas. Pensei: vou morrer e não arrumei tudo. Como sou muito prática, minha angústia era saber quanto tempo de vida ainda teria. Fiquei espantada ao conversar com o médico, com a quantidade de gente que se curava daquele problema. Perguntei se deveria entregar a novela. Ele disse que não, que tinha grandes chances e que o tratamento também dependeria de mim, de manter a chama acesa. Eu disse: ‘Se depender de mim, vou viver’. Aí, acordei o meu São Jorge! (risos). Depois da retirada do linfoma, fiz seis sessões de quimioterapia, só por precaução – com meu laptop no colo, escrevendo a novela. Não tive aquelas reações horríveis que muitas pessoas têm. Às vezes, tinha enjoo, perdi cabelo, mas nada demais. Cheguei a perguntar o que poderia ter levado àquele linfoma. Eu tive hipertireoidismo – por isso tenho um olho mais saltado – e, desde muito jovem, fui submetida a um tratamento com radio. Pode ter sido isso. Ou não.

 

A GUERREIRA E O GUERREIRO

Embora estivesse enfrentando esse problema sério você teve uma grande felicidade em 2009…

Pois é! Ganhei o Emmy internacional na categoria melhor novela, por Caminho da Índias. Foi importante, até porque começamos a concorrer há muito pouco tempo.

Toda essa força tem apoio em alguma religião?

Fui criada no catolicismo, casei-me na igreja, meus filhos foram batizados… Mas não sou praticante. Eu tenho um comportamento cristão, acho que essa é a minha religião. Não acho que Deus seja aquela figura de barba branca. É a força que move tudo. E não sou de rezar.

Nem pra São Jorge pedindo que dê tudo certo?

Acho ele um santo muito bonito, muito interessante. São Jorge é o santo da polícia e do bandido. Muito carismático, porque é realmente popular. É a força guerreira que está personificada naquele mito. Quando falo de São Jorge na novela estou falando do mito, do guerreiro, que está dentro de todos nós.

Mas, em geral, suas personagens femininas já ‘nascem’ com essa força.

Gosto de mocinhas que não são bobas, que cometem erros, também. Elas têm que ter atitude.

Você acompanha todas as fases do processo até a novela entrar no ar. A escolha das músicas, por exemplo…

Participo de tudo. O autor tem que participar, sim. Não que seja obrigação. Mas, por exemplo, a música é fundamental. Ela preenche o espaço de uma cena. É bom procurar que tudo dê certo. Se for um sucesso, é de todo mundo. Mas o fracasso é só seu.

O Ibope é uma preocupação constante?

Somos como Sherazade com a espada do sultão em cima da cabeça (risos). O Ibope é uma exigência, que a gente tem também. Se contamos uma história, ficamos decepcionados se não tivermos uma resposta positiva. A gente faz novela buscando agradar ao público. Eu já sofro essa pressão por mim. É uma grande responsabilidade e sempre será cobrado do autor.

E qual é o seu termômetro? Os grupos de discussão?

Não preciso esperar pela opinião desses grupos. Você sente se a novela está indo bem no seu prédio, na sua rua. As minhas pesquisadoras até hoje me trazem o que ouvem na fila do banco, nas lojas..

Durante a trama você tem vida? Sai, se diverte?

Procuro ter. Não consigo perder o contato com a vida, não. Pra mim é muito ruim. Escrevo até a noite, depois saio. Vou ao cinema, ao teatro, à (gafieira) Estudantina, da qual sou madrinha, danço uns boleros, uns sambas. Eu me divirto(risos).

 

NA SELVA DE SÃO PAULO!

Posted on : 25-08-2012 | By : aguinaldo silva | In : Aguinaldo Silva Digital

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LA DIECKMANN VÔA MAIS ALTO!

 

 

Sabem quem é essa das fotos, a voar na cama elástica feito uma campeã de ginástica olímpica, numa forma física de deixar qualquer madrinha de bateria roendo os beiços de tanta inveja? Ninguém menos que a lindinha Carolina Dieckman! Além de grande atriz, ela mostra que está em plena forma física, tal como já estava em “Fina Estampa”, e como estará em “Salve Jorge”, a novela de Glória Perez que estreará em outubro. Te mete com ela pra ver só: Carol pode tudo!

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Andar a noite por São Paulo não é para os fracos. Nem para os covardes ou para os corajosos. Sabe aquele papo de gente que tá no mato, e quando você esta passando perto de um bicho que pode te atacar, vem com: “não fica com medo que o bicho sente!”? Na selva da cidade grande essa conversa não se aplica. Não é por exalar auto-confiança que você estará livre de dos arrancadores de carteira (“batedores” é muito Charles Dickens, hoje em dia a coisa esta mais MMA); basta estar ali na hora e no local certo pra eles e errado pra você… E aí phudeu.

(by Davi Vallerio)

 

Se você tem cara de rico ou faz questão de sair com todos os seus gadgets que custam mais de mil reais, não seja otário de ficar por ai, todo pimpão, andando a pé na rua. Seja de dia, de tarde, de noite, no onibus, no metrô, na padaria ou na igreja. Nos Jardins ,por exemplo, tem quadrilhas especializadas em enxergar um Rolex a 30 metros de distancia, e de algum jeito eles vão tirá-lo de você… Com ou sem o seu braço.

Perguntaram-me pra dizer se dá pra andar de madrugada pelas ruas de São Paulo. Vou falar de experiências próprias, e me desculpem se vou decepcioná-los. Graças a Deus nunca fui vítima de sequestro relâmpago, lampadada na cabeça ou abuso policial (que pra mim, dependendo do abuso, estou no aguardo). Olha. São Paulo é enorrrme. Bairros e bairros classe AAA à ZZZL, ZN… Deixemos esses bairros pra lá, já que eu, na maioria deles, nem sei chegar. Nos concentramos especificamente na zona central e adjacências (que realmente é onde interessa,onde as coisas acontecem 24 horas por dia e pra onde você, caro visitante, deve se locomover).

A avenida Paulista é o ponto alto. De um lado, descendo, temos os famoso Jardins e os bairros nobres. Do outro lado, Bela Vista e Consolação, desembocando na região do centro, que seria a praça da Sé, Republica, Luz (que à noite mais parece o clipe Thriller do Michael Jacson, com milhares daqueles mortos-vivos do crack). Tirando Higienópolis, que também é pra esse lado e que é um bairro A (reduto dos ricos circuncidados), digamos que esse é o lado B da cidade (vide mapa abaixo). 

A famosa rua Augusta a 120 por hora termina no lado chique, cruza toda a Paulista e começa ali no balacobaco (nome de novela cafona da Recópia, querendo correr atras do prejuízo). Agora esse lado B da Augusta e da Paulista esta sendo chamado de Baixo Augusta. Antes era reduto exclusivo das garotas de vida fácil e tinha milhares de saunas e botecos chinfrins. Agora gays, punks, emos, hipsters e o diabo a quatro dividem cada metro quadrado de calçada imunda frequentando esses mesmos botecos chinfrins (achando o máximo da contracultura) quase sempre (ou quase nunca) pacificamente. Essas historias de coió nos gays, nos punks, nos mendigos são sempre nessa área ou quando as vítimas estão saindo de lá.

Sim, por que não basta beber até cair, rabiscar o corpo inteiro com tinta que nunca mais sai e enfiar um monte de piercings no corpo em que sua mãe passou talquinho  com tanto carinho.  Pra ser macho de verdade tem que se incomodar com o visual ou a opção sexual alheia. Aliás, tem que se incomodar também com esse tipo de gente que mais parece mostruário do circo do inferno. E se você, caro leitor, estiver passando ali, sim, pode sobrar pra você. A rua é estreita, o povo ocupa todos os espaços e as garrafas tendem a voar de vez em quando.

Não sou do tipo que acha que o mundo vai de mal a pior. Que a violência está alarmante e cada Jornal Nacional me traz a certeza que o apocalipse está para chegar. Acho que o mundo sempre foi violento. Tanto hoje como 200, 300, 1200 anos atrás. Tanto faz se você queimava vivo alguém que roubava um punhado de sal, uma mulher que acreditava virar um gato preto ou alguém que te alcaguetou pra polícia ou que não te pagou aquela pedra de crack – a violência é a mesma. Barbaridade sempre existiu, o que não existia antigamente era o Datena. Mas eu acho realmente que a juventude anda mais nervosa. Só se drogar, entrar em coma alcoólico ou pegar alguma DST pra alguns não tem mais a menor graça. Tem gente que vai à rua só pra brigar. Essa é a graça.

Acabando de vez com o efêmero sonho de paz e amor no final dos anos 60, Dennis Hopper e Peter Fonda em Easy Rider  (na foto acima) ensinaram ao mundo inteiro como se aspirava aquele pozinho branco que deixava as pessoas se sentindo poderosas; o pessoal acreditou mesmo que a cocaína era o que há, e de lá pra cá a coisa descambou. Se nos anos 70, 80, 90 o pó era coisa pra rico, nos anos 2000 pra cá a classe C, antes de sua ascensão às Casas Bahia,  já ascendia no mundo da cocada branca. Misturado com álcool, com milhares de anos de repressão sexual e pressões econômicas e sociais de vários tipos, a coisa não tinha como ser boa.

É ai que mora definitivamente o perigo. É ai que você pode dar o grande azar da sua vida cruzando com alguém nesse estado. E geralmente será de noite, de madrugada. Os crackeiros oferecem perigo, porém menos. São semi-zumbis. Qualquer moedinha pra eles serve. O perigo maior, como nos filmes de morto-vivo do George Romero, é mesmo a quantidade (zumbi de filme antigo não corre nem te avança, você morre por que tem um monte em cima de você. Pessoal do crack é meio assim também). O perigo é a turma da cocaina. Onde há cocaína, há gente nervosa, egocêntrica e querendo mostrar pra todo mundo como elas são melhores que você. E se por um segundo elas sentirem que você é melhor que elas (ou mais livre, ou só diferente, sei lá) vão ter que te destruir.

Ladrões de carteira, de celular agem mais cedo, na saida do trabalho, metrô lotado, começo da noite. Eles precisam de aglomeração pra se dispersar. Você só vai ficar mesmo sem seu dinheiro e depois ter a dor de cabeça de tirar segunda via de documento. Agora,ladrão louco é que é o problema. Infelizmente muitos desses, a maioria, se drogam pra assaltar (dizem que o “barato” dá coragem). São esses que cometem aquelas loucuras que a gente vê nos jornais sanguinolentos por ai (arrastam crianças, atiram na sua cabeça, alucinados, achando que você vai sacar uma bazuca e estourar a cabeça deles).

Na madrugada é que tem todos os tipos de gente louca. Se você está andando de madrugada pela rua, boa coisa é que você não é. Boa coisa você não quer fazer, você não presta… Mas como eu amo não prestar, as pessoas que prestam são capazes de coisas terríveis! Já andei muito por São Paulo à noite, sempre a pé (não sei dirigir, não sei nem onde acende o carro). Já perpetrei muita coisa que faria a mulher de branco e o cadeirudo parecer a Sandy cantando Dominique, mas sempre evitei passar perto de gente drogadona, e quando foi inevitável eu os tratei com respeito. Sim. Macaco velho trata todo mundo com respeito. Inclusive quem pode te fazer mal. Nesse caso não é questão de exalar confiança pro bicho não te atacar. É que, se o encontro é inevitável, a melhor coisa é que o louco de pó ache que você é inferior a ele (ou igual, aí seria ainda melhor).

Respeite, disfarce, e tente se desvencilhar logo, óbvio. Não quer dizer que você vai sempre sair  ileso. Muitas vezes só sua aparência já é motivo pra infeliz pessoa se sentir agredida por você. Mas se você está de madrugada na rua, assuma as consequências… E seja feliz. Se tem a pretensão de ser dramaturgo ou algo do gênero, viva a vida. Cometa loucuras, circule entre as pessoas.A vida é feita de riscos e ninguém tá ileso a nada, aqui em São Paulo ou no raio que o parta. Graças a Deus nunca me aconteceu nenhuma surpresa desagradável nessas minhas (antigas, hoje tenho preguiça) andanças noturnas pelas ruas de Sanpa. Agora, surpresas boas… Se eu pudesse contá-las aqui, juro que não ia decepcionar ninguém. Quem sabe não farei isso num próximo texto?…