Em 2001, dez anos antes da “nova classe média” fazer uma visita às Casas Bahia e esvaziar todo o seu estoque, ela seguiu pela Avenida Brasil, foi parar no subúrbio de Ramos e lá situou um dos núcleos principais de sua novela O Clone, até hoje a prova mais exacerbada e excelente de que, quando se fala em autor de telenovelas “populares”, ela é a pioneira. Quem é ela? Gloria Perez; popular e guerreira, um dos ícones da televisão brasileira, nosso único Emmy Internacional no gênero, uma grande dama que já enfrentou mil batalhas, mas está sempre pronta para novas lutas. Durante mais de três horas ela conversou com nossa repórter Simone Magalhães e se submeteu com extrema paciência às lentes do fotógrafo Francisco Patrício. Leiam, vejam as fotos e repitam conosco – que somos seus fãs absolutos: salve Glória!

texto: Simone Magalhães
fotos: Fco. Patrício
Não foi à toa que Glória Perez escolheu São Jorge para dar nome à sua nova trama, Salve Jorge, que estreia dia 22 de outubro, às 21h, na Rede Globo. “Quando falo de São Jorge na novela estou falando do mito, do guerreiro, que está dentro de todos nós.” E disso essa acreana de 63 anos e personalidade forte entende bem. Enfrentou o assassinato da filha Daniella Perez há 20 anos, a morte do filho Rafael, um linfoma na tireóide, mas não se rendeu. Colocou toda a inspiração em seus folhetins, sempre sinônimos de sucesso. Adepta de temas polêmicos, ela trata na próxima novela das nove do tráfico internacional de pessoas, com gravações feitas na Turquia, e de como os moradores do Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, ganharam em autoestima, depois da pacificação da comunidade, em 2010. Mas não fica por aí, não. Glória tem muito o que contar nesta entrevista exclusiva. Deliciem-se!
O MOTE
Por que você optou por centrar sua novela no tráfico internacional de pessoas?
Eu, geralmente, fico muito atenta àqueles temas invisíveis para as pessoas. Como o das crianças desaparecidas (Explode Coração, 1995) e o dos drogados (O Clone, 2001), do ponto de vista delas. Não da polícia, dos psicólogos, dos médicos, de quem as trata. E esse era mais um tema invisível. Eu andava pelo aeroporto e via aqueles cartazes sobre o tráfico de pessoas, e pensava: ‘Quem presta atenção nisso?’. Muita gente age como se não existisse. Comecei a falar com pessoas nas reuniões em que ia, e elas diziam que era lenda urbana.
Qual é o perfil das vítimas em potencial?
São meninas simples, que não falam nenhuma língua estrangeira, nem sabem o que é uma embaixada. Essa coisa da crise no exterior não bate tanto nas pessoas aqui. Elas pensam no dólar, no euro, acham que vão resolver a vida em seis meses, comprar uma casa. Geralmente, as pessoas que fazem a negociação são próximas. É aquela vizinha, que expõe a própria vida, conta que foi, voltou e comprou casa, carro. No caso da novela será a Wanda (Totia Meirelles). E, quase sempre, a menina tem uma amiga que se interessa em ir também. Elas já chegam no exterior com uma dívida muito grande: as roupas, a comida, alojamento e tudo mais.
Você vai falar em tráfico de bebês e de órgãos também?
De órgãos, não. Falarei do tráfico de bebês, de mulheres que vão trabalhar e da exploração daquelas que são escravizadas. Mesmo as que são traficadas para sexo são enganadas. Quando saem daqui sabem que o trabalho será fazer programa, mas não sabem que serão escravizadas.
Algumas escravizadas conseguem voltar ao Brasil, mas muitas, não.
Tem várias maneiras de voltar. Mas você imagina as condições… Alcoólatras, destruídas, sem nada. Elas não querem voltar tão derrubadas, diante dos parentes, das vizinhas. Têm vergonha de dizer o que aconteceu. E também porque sabem que a família foi fotografada, pesquisada, e temem represálias. A pessoa fica amordaçada! Eles jogam muito com isso, com o medo delas. Eu li que as mais fáceis de serem levadas são as africanas. O traficante só precisa ameaçá-la que vai atuar sobre o vodu. Você já as têm nas mãos pela crença.
Elas são drogadas?
Muitas usam drogas. Elas próprias procuram, para suportar esse tipo de pressão. Ou eles injetam, muitas vezes, pra matá-las.
Como são escolhidas para cada local de prostituição?
São distribuídas pela aparência. O Brasil é mais um celeiro. Mas se fosse aqui, umas iriam para Vila Mimosa; outras para Copacabana, outras para um bordel de luxo.
E o tráfico de bebês? Como acontece?
Na década de 80, principalmente, milhares de bebês brasileiros foram traficados para a Europa. Tenho feito entrevistas com pessoasem Israel. Agora, encontrei mais um na Suécia, e outro na França. Em Israel, eles se reuniram, formaram uma comunidade para tentar localizar as famílias aqui, porque, em geral, os documentos de adoção são falsos. É toda uma rede envolvida, uma máfia mesmo. Corrupção também de agentes de polícia, juízes, muita gente. Pra pegar uma criança no hospital, tem que ter o médico, a enfermeira, um juiz que assine aquilo. Tem que ter pessoas em muitas áreas.
Por que essa busca? Eles pensam em voltar?
Pode ser para qualquer coisa. Em geral, estão bem, felizes, eles sabem que foram adotados, mas não conhecem as circunstâncias. E querem achar a família biológica, têm necessidade de descobrir sua origem. Eles procuram sentir o Brasil pela música, pelos filmes, a maioria tem a bandeira do Brasil, aprendem português. Uma menina me falou: ‘É difícil você olhar no espelho, e não se parecer com ninguém’. De um modo geral há dificuldade para adoção em Israel, aí tem uma intermediária dizendo que no Brasil é fácil.
COMPLEXO DO ALEMÃO
E por que resolveu ligar essa trama ao Complexo do Alemão?
Fiquei muito impressionada com a pacificação do Alemão. É encravado na cidade, mas estava tão à parte. E é imenso! Quando se falava naquele lugar, o que vinha à cabeça era Elias Maluco, a terrível morte do Tim Lopes… Você só pensavaem bandidos. Eume impressionei muito, quando houve a pacificação, de ver que começaram a enxergar as pessoas. Hoje, penso na Adriana da empadinha, no livreiro, que até publicou um livro agora, traduzido para o espanhol. Queria levar isso para o público.
Recentemente, houve novos confrontos, duas pessoas morreram. Você acredita na pacificação definitiva ou é só uma maquiagem para 2014 (ano da Copa, no Brasil)?
Não levo muita fé no jeito como está sendo feita a pacificação. Porque se você não prende o bandido, ele não vai tirar carteira de trabalho: ele vai se mudar pra outro lugar. Não sei se dá pra dizer que é só uma maquiagem. Pode ser um ponto de partida, mas que não é eficiente. Eficiente é você entrar mesmo, limpar mesmo, prender quem tem que prender.
Você vai falar sobre a atuação do Exército?
Começo a novela com a entrada do Exército no Alemão. Mesmo que tenha sido incompleta, a pacificação abriu um caminho muito grande, deixou fluir a esperança dessa população. Quando você conversa com as pessoas do Alemão, sente o resgate do amor próprio, que é muito importante. Agora podem aparecer, cobrar cidadania que o Estado lhes deve. Abriram-se as comportas, mas não se venceram todas as barreiras. Tem um rapaz, conhecido como ”fotógrafo do Alemão”, que ficou muito abatido na época do tráfico, porque só falavam da comunidade como se houvesse apenas bandidos. No workshop que fizemos, ele levou um jornal, com uma foto enorme e a manchete era: ‘O inferno é aqui’. Aquilo doía na alma dele. Agora, os moradores estão vibrando. Todos os profissionais vão aparecer na novela, a Adriana da empadinha, o livreiro, o fotógrafo. Vou retratar a população, mas, na verdade, é uma novela.
PERSONAGENS

Sua protagonista, a Morena (Nanda Costa), mora no Alemão e vai ser aliciada. Seu par romântico, Theo (Rodrigo Lombardi) também mora lá?
Não. Ele é oficial da cavalaria, que entra no Alemão.
Então é o príncipe encantado, que chega a cavalo, para salvar a mocinha?
É…(risos). Digamos assim.
Lívia (Claudia Raia) é a chefe da quadrilha, que conta com Irina (Vera Fischer) e Russo (Adriano Garib). Você pode falar um pouco mais sobre isso?
Lívia é a grande vilã da história. Tem duas faces: uma legal, e outra, não. Ela promove desfiles, pode contratar uma modelo e mandar pra fora do Brasil, lançar outras. Mas tem o lado B. Umas vão para trabalhar, outras para o tráfico. A Irina é gerente da boate, ela fica no exterior, e o Russo, o chefe da segurança, que vai lidar diretamente com as meninas.
A ex-top model Antonia (Letícia Spiller) separa-se do marido, Celso (Caco Ciocler), e, sem saber, vira ‘laranja’ de um dos negócios da Lívia, que conheceu nos tempos de modelo. Ela vai lutar pela posse da filha. Será uma situação complicada, não?
No caso da Antônia, vamos falar também sobre alienação parental.
(Nota do ASD: “Considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a sua autoridade, guarda ou vigilância para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este”. Mais detalhes no http://www.alienacaoparental.com.br/lei-sap).
Você pretende mostrar o amor entre uma mulher e um homem de culturas diferentes com a brasileira Bianca (Cleo Pires) e o turco Zyah (Domingos Montagner)?
Um pouco mais do que cultura: são pessoas completamente diferentes. Ela é uma mulher do mundo, estava sempre viajando, ficava maisem Nova York. Chegaà Turquia e dá de cara com aquele cara rústico, que mora numa caverna. Imagina? (risos)
Pelo jeito as histórias paralelas também são bem interessantes.
Gosto de fazer tramas paralelas fortes. Tem que descansar a trama central senão fica muito repetitivo. Em novela é como na vida, a gente gosta de uns e não gosta de outros. Então, tem para todos os gostos. A novela é uma hora por dia. Não conseguiria ficar falando da mesma coisa. Depois, todas as tramas paralelas se amarram na central.
E Eva Todor, como em suas outras novelas, não vai faltar…
Que figura maravilhosa é a dona Eva! Ela vai ser uma alcoviteira. Além daquela vitalidade toda, tem uma coisa que eu adoro: sempre me pergunta se tem romance nas personagens dela. (risos)
Além da Eva, teremos Neusa Borges e Vera Fischer, que estão sempre nas suas tramas.
Há pessoas que dizem bem o seu texto. E a gente acaba incorporando.
Você traz de volta Lisandra Souto, Monique Curi e Narjara Turetta, e como um dos galãs o ator Ivan Mendes, da temporada 2011 de Malhação. É importante essa mescla?
Acho que sim. Além dos já consagrados, a gente também vê atores no teatro, o produtor de elenco, que tem indicações, os testes, a Malhação.
E uma curiosidade de muita gente: Thammy Gretchen terá envolvimento afetivo com alguma personagem feminina?
Tammy fará uma escrivã da polícia e a sexualidade dela não estaráem questão. Nãohaverá envolvimento afetivo.
CLASSE C

Você acredita numa nova classe C ou a inventaram nas novelas?
Óbvio que houve uma escalada da classe C, que está tendo mais acesso ao consumo. Mas ela sempre foi nosso público, nós sempre falamos pra classe C. Sempre fui uma autora popular. Quando eu falava que queria Zeca Pagodinho, diziam: ‘Lá vem a Gloria Perez com Zeca Pagodinho’, que era brega, e hoje todo mundo adora. Não tenho que mostrar a classe C pra ter sucesso. A diversão das classes C, D, E sempre foi a novela.
(Ela chama sua fiel escudeira, a caxiense Ritinha, para pedir um café, e brinca que ela entende de classe C. Pergunto se onde ela mora todo mundo fala gritando, principalmente à mesa. Ela diz que “tem muita gente escandalosa, mas não é todo mundo, não”. E as moças usam roupas como as da Suellen (Ísis Valverde)? “Ah, usam! Se tiver minissaia, short ou calça comprida, elas preferem a minissaia”).
GLÓRIA – E olha que disso a Ritinha entende: ela vende roupas! Vestido lá? Só se for embalado à vácuo! (risos) Mas se você pensar, legging todo mundo usa. Só que a gente coloca com uma blusa comprida, lá preferem os tops. A classe C sempre foi o nosso público. Isso de supervalorização é uma maluquice. O negócio é que a classe A está, cada vez mais, assumindo que vê TV. Antes, tinha aquela história de “estava passando pela sala e dei uma olhadinha” (risos).
Quando você faz uma novela pensa nas classes dos personagens? Ricos, pobres, remediados?
Ah, claro. Como vou retratar a vida , fazendo esse recorte? Eu penso no mundo. Geralmente, trago alguém de lá pra cá (do exterior). Só sei enxergar assim.
E você sempre busca colocar tribos diferentes, como os góticos, os rockers…
Tem gente que só enxerga o bairro onde mora. Eu enxergo o mundo. Acho que isso tem a ver com o Acre, uma terra de aventura. Iam pra lá ver se ficavam ricos com a borracha, ou fugindo de algum lugar. Meu avô paterno, italiano, veio para São Paulo. Mas como era anarquista, acabou indo para o Acre, e casou-se com a minha avó. Vinha gente de todos os lugares. Abri os olhos para um mundo múltiplo, colorido, convivi com a diferença. O Acre era muito aberto para o mundo. Até histórias ‘de novela’ ou histórias excepcionais, lá eram muito comuns. Como essa coisa de reencontro de pais e filhos, depois de muito tempo. Várias pessoas que iam, moravam durante 30 anos, e depois se sabia que tinham família em outro lugar. Era muito interessante tudo isso. Eu via acontecer o tempo inteiro.
Por isso você queria estudar História?
Sempre tive paixão por História.
Para ser historiadora ou lecionar?
Os dois. Comecei sonhando em ir para o Egito, fazer escavações, saber sobre os faraós… Acabei na História do Brasil (risos). História te dá a noção do tempo, de cada tempo, da sucessão dos tempos. Isso influi no seu jeito de olhar. Você não vê com os olhos de hoje, nem do ponto de vista de sua própria cultura ou de sua própria situação social. Sua visão de mundo se aprimora numa determinada direção. Eu fiz o Mestrado, mas não defendi a tese. Quando ia defendê-la, apareceu a Janete (Clair) e eu optei por ela.
Você queria escrever novelas também?
Sempre. Queria fazer História e novelas. Mas não tinha TV no Acre. Eu ouvia as novela pelo rádio, O Direito de Nascer, Jerônimo, o Herói do Sertão. Quando fui para Brasília terminar os estudos, trabalhava de dia e estudava à noite. Depois, passei no vestibular para a UNB, mas não tinha História. Fiz três anos de Direito na UNB e fazia Filosofia à noite. Só dava para ver alguns capítulos, quando não tinha aula. Nossa, me lembro de uma novela com a Nívea Maria, em que a chamavam: “Tula, minha pequenina Tula” (O Preço de Uma Vida, 1965/1966). Lembro da Leila Diniz, que ficou presa num porão e jogaram ácido no rosto dela. Aquelas coisas de Glória Magadan.(risos).
Em 1968, invadiram a UNB, você desistiu dos cursos e veio morar no Rio, com seu noivo, o engenheiro Luiz Saupiquet Perez (falecido em 1994). No ano seguinte, casou-se. Você trabalhava nessa época?
Nunca fiquei em casa, sempre trabalhei. Com 18 anos fiz concurso para a Câmara dos Deputados. Quando vim para o Rio consegui transferência, trabalhei na representação do Senado e na do Ministério da Justiça, onde fui recepcionista. Ih, fiz um montão de coisas (risos). Aí, em 1970, nasceu a Dani (Daniella). Em 72, o Rodrigo. E depois fui fazer História. O Rafinha (Rafael) nasceu em 77.
Você sempre buscou o que queria?
Sempre fui muito curiosa do mundo, acho que isso é uma característica forte do escritor, como vestir várias peles. Adoro conhecer gente diferente. Eu era aquela criança que adorava ouvir histórias dos mais velhos. Não gosto de me encerrar num ambiente só.
Você é daquelas que num restaurante, num lugar com muita gente, presta atenção no que está sendo dito?
Presto (risos). É uma coisa horrível, mas você acaba ouvindo boas histórias. É a curiosidade sobre o ser humano, difícil não ter.
E quando as pessoas vão embora, e a gente não sabe como terminou, dá vontade de ir atrás!
Exatamente(risos). Aí, você já cria uma história, um passado para elas. É muito engraçado.
NOVELISTA

Em 1983, Janete Clair a convidou para colaborar em Eu Prometo. Ela estava com câncer, faleceu, e você continuou a trama sozinha. Aliás, porque você sempre trabalha sozinha?
Porque não sei fazer essa divisão de cenas, ter reuniões com colaboradores, eu não sei fazer escaletas… Admiro muito quem consegue tudo isso. Eu fico em pé ali (aponta para a bancada da cozinha americana, na qual está um laptop), olhando para o mar, a história vem na minha cabeça e eu escrevo. Minha imaginação só se solta diante de uma página em branco. É alguma ligação que tenho que fazer com meu interior. Quando meus filhos eram pequenos, escrevia à noite, porque precisava de silêncio. Agora escrevo de manhã, nesse lugar maravilhoso (seu escritório, num flat de frente para o mar de Copacabana).
Sempre escreve em pé?
Em pé ou encostada num banco alto.
E, como era para Janete Clair, as notícias de jornal são inspiração para você também?
Jornal é uma grande fonte de inspiração. Bom, trabalho sozinha entre aspas: tenho três pesquisadoras… Ah, não, nessa novela são quatro (Sandra Regina, que também é coreógrafa, Julia Laks, Malga di Paula e Berna Ayat). As primeiras entrevistas sou eu quem faz, acompanhada pelas pesquisadoras. Elas entendem o que quero, depois é só telefonar e pedir as informações que preciso. Mas elas leem os capítulos assim que ficam prontos e me dizem o que acham. Se pararem de ler para tomar um cafezinho é mortal: tem que pegar o capítulo e devorar. Tem que ler direto (risos).
Você se emociona vendo alguns capítulos no ar?
Já me emocionei, sim, muito. Em vários capítulos e situações. Por exemplo, eu me lembro em América, quando fiz as entrevistas, tinha o rapaz que ia fazer a travessia para os Estados Unidos com a irmã, interpretada pela Bete Mendes, que foi picada por uma cobra e não podia mais andar. Ele não queria deixá-la, mas também não adiantaria nada: a irmã ia agonizar ali e morrer. Resolveram dar um tiro na cabeça dela, para que não sofresse mais. Ele viu. E, depois, resolveu tentar a travessia de novo.
Por falar em América, você ficou irritada por não ter ido ao ar o beijo gay, entre Junior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro)?
Irritada, não. Diria frustrada. Foi gravado sete vezes e estava lindo. Mas também tem uma coisa, todas as emissoras do mundo escolhem o que vai ao ar. Seria ingenuidade minha ficar irritada. Era um romance, não uma pegação! E fizemos um beijo tipo de cinema, na década de 50: romântico.
Suas novelas são marcadas pelas campanhas (doação de órgãos, contra as drogas, crianças desaparecidas, inserção do esquizofrênico na sociedade, entre outras). Agora, contra o tráfico internacional de pessoas. Você acha que as novelas devem ter sempre merchandising social?
Acho que faz quem quer. Se não fizer parte da história que a pessoa quer contar, não deve ter. Não acho que o público assista pra ver isso. Se o folhetim não fizer sucesso, a campanha vai passar despercebida. Você faz a campanha, e mostra que existem casos como aquele. Em Explode Coração (1995), a história da criança desaparecida se misturava a depoimentos verdadeiros. Mas acho que as pessoas querem sonhar. Pra mim é essencial sonhar. Você pode mostrar a realidade, mas tem que alimentar as fantasias. Se não é documentário.
Mas as novelas estão cada vez mais realistas.
A função do autor é de entretenimento. Se junto disso vier outra coisa, ótimo. O que busco sempre nas minhas campanhas é se tiver depoimento real, incorporo. Não fica uma coisa que afasta você do folhetim, e ainda reforça o sentimento. Mas não acho que isso seja medida de sucesso pra novela nenhuma. A fórmula do sucesso, pra mim, é contar uma história que diverte, envolve e emociona. É hipnotizar o público. E você tem que ter audácia, não tem que ter medo de inventar. A novela não é feita pra educar ninguém: é feita pra divertir.
PERDAS

E foi essa audácia que a levou recolher mais de 1 milhão de assinaturas para transformar o homicídio qualificado em crime hediondo e fazer justiça no caso do assassinato da Daniella, há 20 anos, por Guilherme de Pádua e Paula Thomaz?
Foi uma bela campanha. Ninguém sabia que na Constituição brasileira tinha esse recurso de que o povo podia fazer uma lei. Um advogado me disse: ‘Você não vai fazer’. E eu disse: ‘Vou conseguir’. Em três meses conseguimos 1 milhão e 300 mil assinaturas. Isso numa época sem internet, sem redes sociais. Se não fosse essa lei, a Suzane Von Richthofen já estava na rua, e o casal Nardoni estaria saindo em 2013.
Você também conseguiu evitar a venda do livro escrito pelo Guilherme de Pádua.
Consegui. Uma coisa é liberdade de expressão, outra é liberdade de difamação. Movi um processo contra a UOL e o jornalista, que falou mal de América, e, no meio da crítica, debochou da morte da minha filha. Ganhei um belo dinheiro e fiz uma distribuição entre as três babás que cuidaram da Dani. Hoje, elas têm casa própria.
Em algum momento, no auge do seu sofrimento, você pensou na pena da Talião: ‘Olho por olho, dente por dente’, fazer justiça?
Recebi muitas cartas de pessoas se oferecendo para isso. Teve uma em que o remetente dizia que se eu falasse tal palavra na TV, ele não amanheceria. Mas eu nunca disse, nem vou dizer. E não gostaria mais de falar sobre isso. Desse indivíduo prefiro nem falar. Holofotes em cima dessas pessoas, não.
Dez anos depois da morte da Daniella, você perdeu outro filho, o Rafael, de 25, com uma infecção intestinal generalizada. Como você conseguiu sobreviver a tudo isso?
O Rafinha nasceu com um problema genético grave. Só tinha um outro caso na América do Sul com o mesmo problema, mas o médico nunca quis me mostrar, porque não sabia se o Rafinha ia ficar além ou aquém desse único parâmetro. Ele disse que, dificilmente ele passaria da adolescência. Eu procurava acreditar que não ia acontecer, mas já tinha essa condenação desde o início. Rafinha era um menino muito especial. Era assim como alguém à meia-luz. Entendia de computação e escrevia crônicas maravilhosas sobre futebol. E tinha uma lentidão para outra coisas. Fiz muitas amizades na vida por causa dele. Como ele tinha uma consciência muito grande de seus problemas, não queria que falássemos sobre o assunto, e fazia tudo para tentar superá-los. Sempre tive muito cuidado em não me referir ao problema dele. Rafinha tinha uma força de vontade admirável. Ele não queria se sentir diferente. Depois que não conseguiu mais acompanhar a escola comum, botei uma professora de inglês. Ele era muito especial.
Hoje, você tem o Rodrigo, de 39 anos , pai do Henrique e da Maria Eduarda. Além de ser supermãe sempre, você canalizou toda sua afetividade nele?
Eu acho que encho o saco, como toda mãe. Não existe mãe que o filho não ache que esteja exagerando (risos). Conversamos muito, saímos com as crianças, eles estão sempre por perto. Além disso, sou muito apegada à filha do Raul (Gazolla, viúvo de Daniella Perez), a Rani. Pra mim, no coração, ela é minha neta também. Outro dia, fui na primeira apresentação de teatro dela. Raul está bem, casado com uma moça, já tem uns nove anos.
Em 2009, você descobriu um linfoma na tireóide, fez a cirurgia para retirá-lo e ficou curada. Como foi pra você enfrentar essa situação?
Estava no meio da novela (Caminho da Índias), quando, uma noite, fui me arrumar para sair e, na frente do espelho, ‘pulou’ uma coisa, que parecia um caroço, no meu pescoço. Sempre tive problema de tireóide e fui logo ao médico. Ele disse que eu tinha que tirar a tireóide. Foi uma operação muito simples: entraria num dia, sairia no outro. Mas quando ele fez a biópsia, viu que havia um linfoma na tireóide. Você ouve a palavra câncer como uma condenação à morte. Como se você tivesse que se retirar da sua casa, da sua vida, sem tempo de deixar as coisas arrumadas. Pensei: vou morrer e não arrumei tudo. Como sou muito prática, minha angústia era saber quanto tempo de vida ainda teria. Fiquei espantada ao conversar com o médico, com a quantidade de gente que se curava daquele problema. Perguntei se deveria entregar a novela. Ele disse que não, que tinha grandes chances e que o tratamento também dependeria de mim, de manter a chama acesa. Eu disse: ‘Se depender de mim, vou viver’. Aí, acordei o meu São Jorge! (risos). Depois da retirada do linfoma, fiz seis sessões de quimioterapia, só por precaução – com meu laptop no colo, escrevendo a novela. Não tive aquelas reações horríveis que muitas pessoas têm. Às vezes, tinha enjoo, perdi cabelo, mas nada demais. Cheguei a perguntar o que poderia ter levado àquele linfoma. Eu tive hipertireoidismo – por isso tenho um olho mais saltado – e, desde muito jovem, fui submetida a um tratamento com radio. Pode ter sido isso. Ou não.
A GUERREIRA E O GUERREIRO

Embora estivesse enfrentando esse problema sério você teve uma grande felicidade em 2009…
Pois é! Ganhei o Emmy internacional na categoria melhor novela, por Caminho da Índias. Foi importante, até porque começamos a concorrer há muito pouco tempo.
Toda essa força tem apoio em alguma religião?
Fui criada no catolicismo, casei-me na igreja, meus filhos foram batizados… Mas não sou praticante. Eu tenho um comportamento cristão, acho que essa é a minha religião. Não acho que Deus seja aquela figura de barba branca. É a força que move tudo. E não sou de rezar.
Nem pra São Jorge pedindo que dê tudo certo?
Acho ele um santo muito bonito, muito interessante. São Jorge é o santo da polícia e do bandido. Muito carismático, porque é realmente popular. É a força guerreira que está personificada naquele mito. Quando falo de São Jorge na novela estou falando do mito, do guerreiro, que está dentro de todos nós.
Mas, em geral, suas personagens femininas já ‘nascem’ com essa força.
Gosto de mocinhas que não são bobas, que cometem erros, também. Elas têm que ter atitude.
Você acompanha todas as fases do processo até a novela entrar no ar. A escolha das músicas, por exemplo…
Participo de tudo. O autor tem que participar, sim. Não que seja obrigação. Mas, por exemplo, a música é fundamental. Ela preenche o espaço de uma cena. É bom procurar que tudo dê certo. Se for um sucesso, é de todo mundo. Mas o fracasso é só seu.
O Ibope é uma preocupação constante?
Somos como Sherazade com a espada do sultão em cima da cabeça (risos). O Ibope é uma exigência, que a gente tem também. Se contamos uma história, ficamos decepcionados se não tivermos uma resposta positiva. A gente faz novela buscando agradar ao público. Eu já sofro essa pressão por mim. É uma grande responsabilidade e sempre será cobrado do autor.
E qual é o seu termômetro? Os grupos de discussão?
Não preciso esperar pela opinião desses grupos. Você sente se a novela está indo bem no seu prédio, na sua rua. As minhas pesquisadoras até hoje me trazem o que ouvem na fila do banco, nas lojas..
Durante a trama você tem vida? Sai, se diverte?
Procuro ter. Não consigo perder o contato com a vida, não. Pra mim é muito ruim. Escrevo até a noite, depois saio. Vou ao cinema, ao teatro, à (gafieira) Estudantina, da qual sou madrinha, danço uns boleros, uns sambas. Eu me divirto(risos).

