HERÓI, VILÃO… O QUÊ?

» Públicado por em jul 14, 2014 | 11 comentários

Tchan tchan tchan tchan: quem é Ismael? Apenas um humilde catador de lixo? Um homem ardiloso, que usa a esposa, Lorraine (Dani Barros), para seus maus feitos? Um sofredor que vive das bolsas beneficentes do Governo? Ou um grande espertalhão? A resposta segue na linha do Caetano: Ismael, interpretado por Jonas Torres (o meu, o seu, o nosso Bacana, de Armação Ilimitada 1985 a 1988), pode ser tudo ou nada disso em IMPÉRIO, novela das nove que estreia no próximo dia 21. Aos 39 anos, Jonas volta à Rede Globo, depois de um longo período perambulando pelo mundo, e chega arrebentando na interpretação do “profissional da reciclagem”, como define o autor Aguinaldo Silva. “Ele é dúbio, misterioso. Todo mundo tem várias facetas, e para uma novela isso é maravilhoso. É um personagem riquíssimo”, explica Jonas. Mas, meu reencontro com esse catador de lixo e reciclador de latinhas, depois de conhecê-lo quando era pequenininho, foi emocionante. Vou contar tim-tim por Tim-Tim.

entrevista: Simone Magalhães

fotos: Fco. Patrício

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PARTE 1

Marcamos a entrevista para às 10h, à beira da piscina de um hotel, na Barra. Muito tempo longe daqui, ele chegou a ficar confuso com o endereço, mas expliquei direitinho. Jonas pediu que fosse cedo (“sou madrugador”) porque tinha ponte-aérea, no início da tarde ele e a família moram em Bertioga, litoral de SP. Só que o ator estava vindo de Pindamonhangaba (inteiror de SP), onde havia encontrado um amigo, professor de jiu-jitsu, com quem pretende abrir uma academia, no Rio. A chuva fina começou a cair, e os torpedos de Jonas a pipocar no meu telefone. Engarrafamento total da Rodoviária Novo Rio até a Barra. Veio a ansiedade: Será que vai dar tempo para a entrevista? Mas, ufa!, às 11h15, ele chegou. Casacão de neve, uma mochila e uma bolsa pesadas, correndo e pedindo mil desculpas. Conseguimos algumas fotos ao ar livre, antes da chuvarada. Preocupado, o fotógrafo Fco Patrício pediu logo um lachinho. Mate, Coca-Cola, queijo quente e porções de pães de queijo. E vamos à entrevista!

PARTE 2

A felicidade por voltar a uma novela, principalmente no horário nobre, faz Jonas Torres manter o sorrisão. E o mistério envolvendo o Ismael é um componente a mais: “Vou dançando conforme a música. Até pra não entregar o ouro. Se você interiorizar algo, isso passa de alguma forma até pela linguagem corporal. Se eu estiver acreditando, as pessoas também vão crer. Só sei que ele é homem dúbio, que leva uma vida dura. Não acho que seja mau, mas não segue uma ética 100%.” Além de arrastar seu pesado carrinho de lixo e latas, Ismael sofre por não ter conseguido sua aposentadoria, já que ficou com um dos braços lesionados, mas não pagava sua autonomia à Previdência. Nada que uma cachacinha não faça esquecer por algum tempo. Toda essa situação vai endurecendo ainda mais o personagem, que defino como um oportunista”, observa. Mas ele vai ter um carta na manga: Lorraine roubará um anel carrísimo, no lançamento da coleção de Maria Clara (Andréia Horta), e terá que engoli-lo para passar pela blitz da polícia. Ismael vai fingir que encontrou a peça, a devolverá e ganhará o rótulo de herói. E aí? “Acho que ele vai aproveitar esses 15 minutos de fama. Se for por mais tempo será ótimo pra ele (risos). Mas, pensando bem, talvez conte a verdade. O que será que o Aguinaldo tem em mente, gente?”, questiona, animadíssimo.

PARTE 3

Oportunismo é a maneira que Ismael encontra para ganhar as benesses do Governo: vive separado da mulher, mas sem se divorciar para não perder o auxílio financeiro. E quando Lorraine vê o irmão morrer atropelado por José Pedro (Caio Blat), na estrada, Ismael dá a maior força pra ela extorquir dinheiro dos Medeiros. “Isso tudo é muito louco. Morei nos Estados Unidos e quando precisei de benefício do Governo tinha que mostrar toda semana que estava procurando emprego, e aceitar, mesmo que não tivesse nada a ver comigo, a colocação que encontravam pra mim. Lá, ensinam a pescar: nada de dar o peixe. Quanto a Lorraine, ele ainda gosta dela, mas é uma relação complicada. Depois, Ismael acaba caindo em si, fala que o cunhado estava completamente bêbado quando atravessou a estrada, e ela deixa de explorar a família. Por isso, que eu te digo: ele é dúbio”.

PARTE 3

O frio e a chuva aumentam, mas Jonas Torres está tão empolgado que se recusa a colocar o casaco. Já passa de 12h. Daqui a pouco temos que levá-lo ao aeroporto. Ele vai encontrar a esposa, a fotógrafa Daniele, a filha, Nina, de 4 anos, e o enteado, Pedro, de 11. “Tenho ficado na ponte-aéra para as gravações da novela. Mas achei um lugar maravilhoso para morar. Bertioga tem mar e verde, sem violência, com uma ótima qualidade de vida”, afirma o carioca, que já morou nos Estados Unidos. “Minha mãe, Maria Inês, separou-se do meu pai, o americano Michael Raible, comigo ainda na barriga. Ela acabou namorando e casando-se com o (falecido) ator e diretor Fábio Junqueira, a quem considero meu pai. Dois anos depois, nasceu meu irmão, (o ator) Caio Junqueira. Até que um dia, minha professora chamou várias crianças para o teste do filme Bar Esperança, O Último que Fecha. Eu passei e fui fazer o Yuri, filho da Marília Pêra e Hugo Carvana. Nunca tinha pensado em ser ator, mas fui curtindo: era uma brincadeira que eu levava a sério”. Depois veio o Zeca, de Vereda Tropical, e, finalmente, o papel que marcou mais sua carreira: o Bacana, da minissérie Armação Ilimitada. Você se ressente de ainda ser chamado pelo apelido do personagem? “Teve um tempo que sim, mas agora não. Lembro que o assédio era muito grande, eu ficava constrangido quando juntava gente em torno de mim. E eram só autógrafos, não tinham esses celulares (risos). Mas acho que Armação durou o tempo certo, aposentou-se no auge. Talvez as pessoas se interessassem pelo Bacana porque era um menino dizendo certas piadas que não entendia, era o meu olhar como criança, um certa ingenuidade. Isso dava resultados interessantes. Aprendi a amar a profissão por me divertir tanto com ela”.

 

 

PARTE 4

O fotógrafo Fco Patrício lembra que já são 12h30, e até chegar ao aeroporto Santos Dumont temos muito chão e chuva pela frente. Empolgada com a emoção de Jonas ao contar sua trajetória, pedi mais uns minutinhos. Pra fechar sua experiência como ator no Brasil. “Fiz participação em Top Model, em Vamp e, no teatro, Capitães de Areia, sob direção do Roberto Bomtempo. Rodamos o Brasil inteiro, fomos a Portugal. Mas, em 1994, como tinha dupla cidadania, resolvi ser voluntário no serviço militar americano. Era o momento de descobrir minhas coisas, o passado que não vivi. Meu pai e meu avô materno foram pilotos. Vovô foi herói na Segunda Guerra! Foi muito interessante o convívio a família de lá. Passei três anos e meio na Brigada de Paraquedista. Mas aquela imagem glamourosa vem dos filmes (risos). Passava 7,8 meses treinando e muito pouco tempo em casa. Deixei tudo e fui fazer pesca comercial no Alasca, pegar bachalhau e linguado”. Nossa, você é um aventureiro! ” Tinha um lado que pedia isso, e outro com saudade de atuar. Tentei equilibrar durante muito tempo, mas agora quero me dedicar integralmente à carreira de ator”.

PARTE 5

Levantamos acampamento da piscina do hotel, e fomos para o carro. Impossível não continuar aquela conversa com Jonas. Gravador a postos, sentei no banco de trás com ele, que vinha admirando a Avenida Niemeyer, mas com uma certa melancolia. Já não era o Rio de Janeiro da sua infância e adolescência. “Depois de seis meses no Alasca, vim ao Rio, fiz a temporada 1998/99 e Malhação, e voltei para os EUA. Tirei brevê, me profisionalizei como piloto, dei instrução de voo, durante dois anos, na Flórida. Aí, tive um acidente, por problemas técnicos, com um monomotor, em Las Vegas, e resolvi fazer curso de mecânica de aeronaves, passei dois anos e meio mexendo nas estruturas, fabricando peças de fuselagem”.

 

PARTE 6

Mas e as saudades do Brasil? Não continuavam? “Claro! Em 2005, papai (Fábio Junqueira) disse que estava saudoso, e eu vim. E reencontrei Daniele, que já conhecia de uma festa, e começamos a namorar. Nos apaixonamos. Em 2006, passei 4ou 5 meses como mecânico da TAM. Mas, em 2008, veio o pior golpe: o Fábio faleceu (aos 52 anos, de aneurisma). O estranho é que durante o velório, meu telefone tocou e era da Record, me chamando para fazer Mutantes. Eu fui. Depois, viajei com a peça Dona Flor e Seus Dois Maridos. Apesar de tudo, profisionalmente foi um ótimo período”.

PARTE 7

“Você quer ver a minha filha? Tenho um videozinho dela aqui.” Claro, que sim! Só que o celular estava descarregado e contamos com a astúcia do Patrício para encontrar o carregador. Jonas interrompeu tudo para falar da relação com os filhos. Nina é a bonequinha do papai, e já está começando a surfar, como ele e Pedro. Padrasto e afilhado se dão muito bem.Você teve padrasto, agora é padrasto. Usa as experiências que viveu?. “Minha mãe sempre foi muito rígida, meu pai (Fábio) também. Eu, que vim de muito tempo no quartel, acabo sendo um pouco assim, cobrando das crianças. Mas o Pedro me chama de ‘Jô’. Apesar de ele ter pai presente, a preocupação é a mesma. Temos um canal aberto total para conversar sobre tudo. O trato com a Nina é diferente, mas cobro para condicioná-la a fazer as coisas. Ela é muito vaidosa, mas também faz a linha ton boy. Outro dia, pegou escondido o batom da mãe e borrou o rosto todo (risos)”.

PARTE 8

Todo esse clima família fez você decidir-se pela retomada da carreira e do Brasil? “Bom, teve um tempo depois da peça, que fiquei sem nada. E fui trabalhar como rádio-amador na plataforma de petróleo de Campos. Só que era muito tempo embarcado, sentia saudades demais da família. Aí, resolvi procurar os amigos, como o Pedro (Vasconcelos, diretor geral da novela), o Papinha (Rogério Gomes, diretor de núcleo), com quem sempre mantive contato. Eu estava de barba e achei que poderia fazer algo diferente. O Pedro ficou de ver, mas, como não tive uma resposta logo, tirei a barba. Quando ele ligou e falou do Ismael, me empolguei. E ele perguntou: ‘Mas você ainda está de barba, né?’ (risos). Disse que não, mas deixei crescer rapidinho”.

PARTE 9

E, pelas fotos que vi, você emagreceu bem. Foi para a novela? “Estava com 88 quilos, e perdi 18, em três ou quatro meses. Mas foi fechando a boca. Passei a comer de três em três horas, uma alimentação mais saudável, nada de carboidrato depois das 18h, nem refrigerante.Além disso, estou firme no jiu-jitsu,que sempre pratiquei, e nas corridinhas. Outro dia, deixei a dieta um pouco de lado, vi que tinha ganhado 1 ou 2 quilinhos, e fechei a boca de novo. Mas se você notar esses caras que carregam os carrinhos com o material para reciclar têm que ter braços fortes”.

PARTE 10

Próximo ao Santos Dumont, Jonas viu que o celular estava carregado e me mostrou, quase babando, Nina cantando sua musiquinha preferida. Uma fofa, de cachinhos louros. “Quando era pequeno também tinha cachos louros, depois foram escurecendo”, explica o paizão, orgulhoso, acrescentando que a filha vai entrar na natação agora. Ou seja, Rio de Janeiro nunca mais. “Só penso que Nina tem que ficar dois anos nos EUA para ganhar cidadania. Mas isso, ela pode fazer até os 18 anos. Depois, se quiser estudar ou trabalhar lá, é com ela. Quero o que for melhor pra minha filha”. E completa: “Minha vontade é realmente morar no Brasil. Tanto que estou nesse projeto de montar a Rio Jiu-Jitsu Old School, destinada mais à defesa pessoal, mulheres, crianças, dependentes químicos e profissionais liberais, como os médicos, que não podem machucar as mãos. Também já tenho projetos de teatro com André Gonçalves e Cassiano Carneiro. Enfim, o Brasil é o meu lugar”, fala, emocionado, enquanto sai do carro e se encaminha para o portão do aeroporto dando um tchau, e não um adeus.

 

 

11 comentários

  1. Sucesso Jonas, você merece!!

  2. Nossa, o Jonas Torres merece, ele realmente é demais… Sucesso.

  3. RECICLAR É PRECISO

    http://youtu.be/SlmqUi-WldA

  4. Amei o personagem do Jonas. Muitas pessoas estão doidas para ver o que vai acontecer com ele. Está meio Chaplin com aquela cara de coitado e ao mesmo tempo engraçado. Sou muito fã do Aguinaldo e a novela está incrível. Parabéns!

  5. Muito Feliz com essa notícia ! Ele ralou muito na vida , merece retornar a carreira de ator em uma novela que será um sucesso. Merece ter trabalho na TV sempre !!!

    Parabéns por aceitar a escolha do papinha !

  6. Estou triste, pois no site da globo, não esta disponível teasser da próxima novela império, e o que tem lá são só 4 videos…

    INTERVENÇÃO DO SOMBRA: acho que você não procurou direito, Alison, tem vários vídeos de Império do no site da Globo, inclusive um clipe de 30 minutos, que você pode acessar através do link abaixo:
    http://globotv.globo.com/tv-tribuna/tv-tribuna/v/novela-imperio/3491687/

  7. Caramba 2, rapaz, tenho que reconhecer que ando mal da pernas mesmo…
    Claro que sei quem é Jonas Torre!
    Trabalhei com o padrato dele na Manchete. ( Marquesa de Santos ) Pô, é que ele cresceu e eu envelheci. Até parece que alguém tá se importando com meu esquecimento, né?! rsrsrsrsrsrsr! …Francamente!
    Aquela paz!

  8. Somos amigo de Dani esposa de Jonas e tivemos o prazer de presenciar o seu casamento aqui em Mogi das Cruzes. Desejamos tudo de melhor sempre! Muito sucesso para o Jonas que marcou muito a minha infância com o Bacana da Armação Ilimitada.

  9. Jonas é o típico ator marcado pelo personagem inesquecível, tal e qual Beatriz Segall (Odete Roitman). É impossível olhar para ele e não lembrar do saudoso Bacana da Armação. Outros exemplos são André Marques e Sérgio Hondjakoff, também marcados para sempre (ou até que um personagem tão forte apareça). Vamos que vamos !

  10. História de vida fantástica!!!

  11. Caramba, estou desatualizado mesmo… nunca vi essse ator!
    Acho que tenho q voltar ao Brasil e assistir bastante programa de tv…
    Mas, de qualquer forma, Aquela paz a todos!
    Rozem

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