A VILÃ QUE NÓS AMAMOS

» Públicado por em jul 26, 2014 | 13 comentários

 

Por conta da estréia de “Império” a Revista de TV do jornal O Globo me convidou para fazer uma entrevista com Lília Cabral, a terrível Maria Marta que vocês agora estão vendo no ar, e eu aceitei. O texto é o que se segue. As fotos, uma espécie de making off da entrevista – que também foi gravada em vídeo – ficaram a cargo de Fco. Patrício. A repórter Natália Castro, de O Globo, também participou da entrevista. Deliciem-se! (Aguinaldo Silva)

Muita gente acredita em “pé de coelho”, aquele amuleto da sorte que só traz coisas boas para nossas vidas. Eu, por exemplo, acredito. E um dos meus talismãs é a Lilia Cabral. Desde a primeira vez em que trabalhamos (em ‘Vale tudo’, de 1988), sempre que nos juntamos numa novela esta fez sucesso… E nesses anos todos minha admiração por ela só aumentou. Lilia é uma atriz espetacular, versátil e agregadora. É aquela pessoa que faz questão de ver a equipe unida, que põe sua experiência a serviço de todos, principalmente dos atores novatos. Quando comecei a escrever “Império”, criei o personagem de Maria Marta para ela. Depois da Griselda de “Fina Estampa” (2011), queria que ela fizesse uma das minhas vilãs — e deu certo! Lília está na minha novela, e a Revista da TV ainda me deu a oportunidade de voltar aos meus tempos de jornalista e fazer uma entrevista com ela. Confira abaixo o resultado de mais este encontro agradável que tivemos.

 

Depois de uma heroína absoluta em “Fina estampa”, agora você é uma vilã poderosa. O que é mais divertido?

Ah… A vilã toda poderosa (risos). Porque a estrutura dramática da heroína, pelo menos da sua, não era um clichê, a Griselda era muito desconstruída, né? Ela não tinha referência de beleza ou vaidade, tinha referência como mulher, mãe e sobrevivente. É um erro pensar que, para fazer uma heroína, o ator precisa lançar mão de clichês. Não! É completamente equivocado. Ela foi um desafio grande pelo comportamento e pela essência, que eu abracei. Quantas pessoas são massacradas pela vida e têm que continuar seguindo em frente, independente, porque as obrigações pedem? Eu lia o texto e chegava a doer. Mas, por outro lado, a vilã é assim: como dizia a Mara Manzam em “O clone”, “cada mergulho é um flash” (risos). Cada frase, você pega o rojão e espoca. É um tipo de colorido dramatúrgico, principalmente quando você está nas mãos de um bom autor. Se a gente estiver nas mãos de um autor maniqueísta, em todos os sentidos, não haverá esse colorido. Mas a boa vilã é aquela que acorda de manhã, toma café, é capaz de levar o filho na escola… E é uma “FDP”. A Maria Marta tem várias causas. Em todos os âmbitos, onde ela puder agir de acordo com o que acha certo, vai fazer. Cada capítulo é uma Copa ganha!

Você é fantástica. Ninguém mais diferente de você do que a vilã. Onde foi buscá-la?

Ah, nem sei (risos). Eu costumo olhar os amigos que trabalham com muita referência… Eu, quando fui para a escola de Artes Dramáticas, nunca tinha feito nem teatro amador. Quando tinha que me apresentar para as bancas, entrava nas histórias da minha vida e da minha família, muito pouco no conhecimento cultural e teatral. E, todas as vezes que vou começar um trabalho, me dedico ao que o texto tem a oferecer. Sobre o que vou falar, o que o autor está me dizendo. Eu leio muito. E a cada leitura, vem uma visão diferente. Meu prazer é sentar com o texto e me divertir, mesmo que eu tenha que fazer todo mundo chorar (risos). Vai muito da memória emotiva, do meu dia a dia, das minhas observações. E até o meu comportamento vai mudando, vou ficando imbuída da personagem e já começo até a ler as maldades e a achar uma delícia (risos). Mas eu já conheci várias Maria Martas, claro. Inclusive já trabalhei com algumas (gargalhadas).

Nos bastidores, você é sempre solícita com os mais jovens. Isso surgiu sem que você se desse conta ou é tarefa do ator?

Vou dizer com franqueza. Quando comecei, ainda na escola, me chamaram para uma leitura com pessoas muito importantes, e não fui bem tratada. Estava nervosa, era inexperiente e fiz uma leitura péssima. Aí, fiz a novela “Os adolescentes” (1981), da Ivani Ribeiro, e sofri a mesma coisa. Chegava em casa péssima e pensava: “Será que é assim?” Mas não fiquei com raiva. Hoje eu olho para algumas pessoas, que continuam na ativa, e sei bem o que fizeram comigo (risos), bem no comecinho. Mas isso não significa que eu teria que fazer também. Se tiver alguém do meu lado, principalmente um jovem, não quero que ele tenha uma imagem no futuro, assim, como eu tenho dessas pessoas. Quero que eles sintam em mim um ponto de apoio, porque eu precisei e não me deram. Foi bom porque aprendi a me virar sozinha, mas acho que quem chegar perto de mim, e me pedir, eu vou ser a primeira a acatar. Dia desses, cheguei ao camarim, e a Julinha Lemmertz (protagonista de “Em família”) tinha me deixado uma orquídea. Fiquei tão emocionada, que fui até o set e a abracei forte. É bom saber que há colegas que torcem por você, e você torce por eles, porque se não estiver todo mundo no mesmo barco, não adianta, não dá certo. Quantos jovens talentosos já passaram por mim e cresceram… O próprio (Alexandre) Nero, meu Deus do céu, né? Que estreou comigo e não olhava para mim. Ele tremia em “A favorita” (2008), sem ninguém para ajudar. Falei: “Não se preocupe, você está muito bem”. Já está mais do que provado que uma andorinha só não faz verão.

Você demorou para ser protagonista, embora merecesse. E arrasou nas novelas que fez. Quando recebia esses personagens, no que pensava?

Sabe que nunca fiquei triste? Porque minha motivação não era ser a protagonista. Eu me lembro de “Vale tudo”, quando fiz o sucesso com a Aldeíde: depois, quando veio “Tieta”, pensei que o Paulo Ubiratan (diretor-geral) fosse me colocar num papel que eu queria muito fazer, a amante do Armando Bógus, feita pela Luiza Tomé. Eu achava que poderia fazer. Quando ele me chamou, li assim. “Dona Amorzinho”. Tinha uma linha de descrição na sinopse. Eu tenho até hoje guardada! Fiquei mixuruca, porque estava idealizando. Aí, ouvi do Paulo que precisava de mim ali com a Rosane Gofman ao lado da Perpétua (Joana Fomm), e que eu não me preocupasse, pois teria uma história. A novela começou, e a participação foi aumentando, havia falas, cenário, história. Aprendi essa lição de que não adianta a gente querer o primeiro lugar. É isso que tenho? Então é o que vou defender. Nas novelas seguintes, fui crescendo. O primeiro autor que me viu de outra forma foi o Maneco em “História de amor” (1995), depois em “Laços de família” (2000), e em “Viver a vida” (2009), quando fiz um personagem forte. Quando você me convidou para a protagonista, eu tinha até vergonha de falar, quando as pessoas perguntavam. Eu não falo nada, não faço questão do rótulo, quero fazer bem feito. Se eu for me lembrar, na minha época de análise, eu reclamava de gente destalentada (risos) que estava com papel bom. Isso eu achava ruim. E no teatro, corri em paralelo, porque, nas peças, eu era protagonista e acho que foram me vendo. Bom, de todos os trabalhos que fiz, se reclamar de três… Estou no saldo.

Eu me assustei quando vocês contaram o sacrifício que foi gravar em Carrancas (município em MG que fará as vezes do Monte Roraima na novela). Como lida com a entrega que a profissão exige?

Vou ser bem franca: eu O-D-E-I- O aventura. Odeio, odeio. E quem leu os primeiros capítulos e viu que eu estava no “Monte Roraima” deu risada porque já me imaginavam lá. E eu não tinha nenhum contato com natureza. Todo mundo falava: “Ah, vamos ver aquela pedra”. E eu: “Eu vejo a foto” (risos). Quando você está nesse barco, reclamar não dá, não ajuda em nada. Temos que tirar o chapéu para a estrutura, porque havia 120 pessoas num lugar de acesso dificílimo. Depois que passa e você vê feito, fica feliz porque está ali na função de contar história. Se não quer, é melhor só aceitar fazer novela em que vai para Nova York (risos). Nesta, todo me perguntava se eu ia para a Suíça, e eu falava: “Não, vou para Carrancas” (risos).

Você gosta de receber o texto com antecedência?

É ótimo porque temos tempo para estudar. As nossas reivindicações são essas, as 11 horas de descanso, e a necessidade de ter o roteiro com 72 horas de antecedência. Vi a entrevista da Vivinha (Eva Wilma) no “Damas da TV”, do Viva, que fala extremamente bem de você. Ela disse que, quando fez a peça “Pato com laranja”, em que contracenava com o Paulo Autran (1922-2007), ele dizia que 80% (de atuar) é estudo, 15% é talento, e 5% é sorte. E acho que é isso. Lógico que a gente tem vocação, mas se não estudar, não adianta. Quando você chega estudado, cria melhor, pode até defender cenas. Se a pessoa acha que é só decorar, acho que cada interpretação será sempre a mesma.

Há atores que só leem as próprias cenas. E você sabe que a gente nota isso no ar? Eu noto. O ator não está na novela, está na novela dele.

Às vezes, quando você está atolado, não dá para ver a novela com tanta assiduidade. Mas ler o que vai acontecer é importante. Eu gosto de assistir às novelas que faço, ao que os colegas fazem… Às vezes, a gente muda, por vergonha alheia (risos).

Até o fim de “Império”, em fevereiro, são sete meses de trabalho árduo e desgaste. Já pensa no que fará depois?

Olha, se você falar assim: “Daqui a um mês eu tenho um seriado para fazer, um filme. Você quer fazer?”. Eu vou responder: quero (risos). Sabe por quê? Quando eu acabei “Saramandaia” (2013), pensei: “Ah, graças a Deus, estou de férias, só vou trabalhar no teatro em fevereiro, março e depois vou lançar filme, mas vou ficar de outubro a janeiro de férias, afinal não tiro férias desde 2005”. Fiquei 25 dias na Itália, não aguentava mais ver nada. Leonardo Da Vinci que me desculpe, mas tudo bem, chega!

Vamos repetir o mesmo sucesso de “Fina estampa”?

Se vamos repetir, não sabemos. Mas que estamos trabalhando para isso, eu tenho certeza que sim. Toda vez que você senta no computador, fala assim: “Eu vou mostrar como se escreve uma novela!”. E todos nós, atores que estamos na sua novela, sentamos para estudar e pensamos assim: “Eu vou mostrar como se interpreta uma novela.”

(Na foto, com Lília, Natália Castro e a

fotógrafa e videomaker Ana Branco)

13 comentários

  1. MARTA A AMANTE DO COMENDADOR E A SIMONE FOI O TEO PEREIRA QUE TIROU AS FOTOS . BJS MARTA

  2. MARTA , O COMENDADOR ESTAVA CONVERSANDO COM A AMANTE E COMENDO CAMARÃO

  3. marta voce e uma pesoa legal

  4. Boa noite Aguinaldo Silva: Tenho uma sugestão para aquela pessoa horrorosa da Cora: adoro escrever também, ai me surgiu a idéia de que aparecesse uma filha dela, na qual no passado ela teria engravidado do esposo da Eliane sem ela saber ela teve a criança e deu, e seria a mesmo do começo da novela, onde elas se cruzariam por acaso e ela se assustaria com medo de que descobrisse o passado dela, que ela não é a santa que parece.

  5. Lília Cabral demonstra e ensina como chegar a ser boa actriz.
    E é cheia de humildade acima de tudo! Estudar é primordial.
    Tenho muita admiração por ela.
    Espero continuar a gostar do seu trabalho sempre que ela aceite papéis em novelas, sejam eles quais forem, porque ela saberá sempre desempenhá-los.
    Magdalena

  6. Muito bom ler isso tudo!
    Aquela paz!
    Rozem

    Obs: Bom ver nosso querido Adriano Rafael nas linhas acima!

  7. Agui querido, somente hoje consegui assistir os capítulos de Império, e confesso que estou surpreso com essa história fantástica! A direção do Papinha deu outro ritmo, outra dinâmica pras suas histórias. A fotografia é simplesmente linda!

    Alexandre Nero disse a que veio e promete ser a grande revelação desse projeto, consagrando-se na galeria dos grandes atores da TV brasileira.
    IMPÉRIO vai superar Senhora do Destino!

    To feliz em ver tanta gente querida junto!

    Parabéns!
    Te desejo muito sucesso – do fundo do meu coração!

    Obrigado por estar por perto.
    Tamo junto! 🙂

    Adri

  8. Império é um prato que me causa profundo prazer!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  9. Lília é muito mais do que uma atriz maravilhosa: tem postura humana, opinião abalizada e sincera!
    Parabéns pela entrevista, Aguinaldo!
    Império é tudo de bom!

  10. Lília é mais do que uma atriz maravilhosa: tem postura humana, opinião abalizada e sincera!
    Parabéns pela entrevista, Aguinaldo!
    Império é tudo de bom!

  11. Estou mto otimista de que o Sr irá escutar seus telespectadores e convidar a Regina novamente! Sem contar que o mistério ficou no ar: será que Maria Joaquina se envolveu com Sebastiao? Eles poderiam ter tido uma filha rs abraço!

  12. Prezado Aguinaldo Silva,
    Boa noite! Adorei a entrevista com Lilia Cabral! Grande atriz!! Ela citou a novela “História de Amor”, em que fazia uma mulher meio amarga e invejosa Novela Excelente. E ela contracenou com Regina Duarte, que era a protagonista. Lilia trabalhou também com Regina em Vale Tudo e foi mto bacana.
    Vejo que as 2 atrizes formaram uma parceria mto boa com o Sr Regina ficou consagrada como Porcina de Roque Santeiro, uma das melhores novelas que a Globo ja produziu.
    Quando o Sr foi a Portugal por conta do Documentário ” Roque Santeiro” e vi fotos suas com Regina Duarte, eu pensei: puxa, eles podiam se encontrar em mais um trabalho. Tá aí uma parceria que dá certo. Depois, ao saber que o Sr convidou Regina para sua novela, fiquei mto feliz por saber que a parceria se repetiria. Porém, não acreditei quando li que só seriam 4 capítulos. E Maria Joaquina estava impecável!! Por isso, fizemos a petiçao! Tomara que o Sr ja tenha ido prestigiar.. Já colocamos uma foto da Maria Joaquina. E cada dia mais pessoas assinam Veja: http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR73389.
    Todos que assinam a petição aguardam com muito otimismo uma boa notícia da volta de Regina a sua novela!
    Um abraço
    Maira

  13. Já é passado essa história de protagonismo e antagonismo em uma novela. Quem não lembra nas aberturas de novelas os primeiros nomes nos créditos serem dos protagonistas e estes por sinal sofriam os diabos através das vilanias dos antagonistas. Hoje até me assusta a empatia das pessoas com os vilões, talvez indícios da falta de sensibilidade e que Deus queira que não seja um sinal da desumanidade das pessoas. Não que quero desmerecer o papel dos vilões nas novelas, pois sem esses a trama iria travar e ficar prolixa e sem ação, apenas critico as inversões de valores dada a proporção de que nas últimas novelas o brilho sempre são dos vilões e quanto aos papeis de personagens bonzinhos e pacatos que se f*&$#.

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