ELE AMA PARAISÓPOLIS

» Públicado por em maio 18, 2015 | 10 comentários

 

Típico malandro… paulistano. O “Jurandir” de Alexandre Borges em I Love Paraisópolis, se vira como pode – muitas vezes de maneira duvidosa -, mas é figura adorada na comunidade onde vive. Aos 30 anos de carreira e 49 de idade, o ator conjuga bem os tipos galã e cômico. Simpático, articulado e sem fugir a qualquer pergunta, ele fala sobre sua vida, carreira e o casamento de 22 anos com a atriz Júlia Lemmertz. Enquanto na trama das 19h é pai de Danda (Tatá Werneck) e cria Marizete (Bruna Marquezine) desde pequena, na vida real ele é pai de Miguel, de 15 anos, que, por enquanto, pretende ser jornalista esportivo, e da atriz Luiza Lemmertz, de 27, filha do primeiro casamento de Júlia. Romântico inveterado, Alexandre deixa bilhetes, dá presentinhos, flores, e o melhor: é ele quem compra a lingerie – geralmente preta ou branca – para a amada. “Escolho o que sei que ela vai se sentir bem, mas também o que vou gostar de admirar”.  

Entrevista de Simone Magalhães

fotos: Fco. Patrício 

 

Jurandir ganhou seu próprio tema musical na novela (Bon Vivant Maneiro, de Pretinho da Serrinha)…

Tá vendo que coisa chique? (risos)

Diz que “o Juju é 171, mas todo mundo gosta dele”. Um pagode muito animado.

Também achei, e é a cara do personagem. 

Por falar nisso, a inspiração do Jurandir veio do jardineiro Estevão Conceição, de Paraisópolis?

Ele é um exemplo do morador típico da comunidade. Como o Gaudí (apelido de Estevão), que nunca tinha ouvido falar em Antoni Gaudí (arquiteto catalão, falecido em 1926). A história é muito interessante. Tinha roseira ao lado da casa dele, e ela começou a despencar. O Gaudí passou a construir um suporte, com coisas que encontrava no lixo, em torno da roseira. A construção foi aumentando, e tornou-se uma casa meio obra de arte – com pedaços de azulejos, pedras, sucatas. E ela foi crescendo, virando um labirinto, pra ele poder subir até o topo da roseira.

E como ele ganhou o apelido?

Anos atrás, por causa de uma homenagem ao Gaudí, em Barcelona, abriram um concurso mundial para pessoas que foram influenciadas pelos trabalhos dele. Um repórter havia feito uma matéria sobre esse jardineiro, em Paraisópolis, e mandou a foto da casa para o Instituto Gaudí. Eles amaram e convidaram o Estevão para ir a Barcelona.

Imagina a surpresa! Ele nem sabia onde era Barcelona?

Não sabia! E foi conhecer as obras de Gaudí. Quando voltou a Paraisópolis ganhou o apelido, e ficou muito famoso lá.

Essa casa foi a que apareceu nos primeiros capítulos, com milhares de pedaços de azulejos, placas de carros, e uma rampa enorme?

Exatamente!

E seu personagem é famoso como o Gaudí na comunidade?

É um cara que sente orgulho de Paraisópolis, como o Gaudí e a Isolda, interpretada pela Françoise Forton, que faz um trabalho voluntário dando aulas de balé para as crianças. O Jurandir é uma espécie de homenagem a essas pessoas. Ele é uma cria dali.

Mas com tantos exemplos de empreendedores, por que seu personagem não é chegado ao batente?

(risos) Bom… Tem a falta de mercado de trabalho, de uma formação mais específica… Aí, ele faz “bicos”. Transita bem na comunidade, e aposta em brigas de galo, dominó, faz ligação clandestina de TV a cabo, um carretinho aqui, outra coisa ali.

Mas o dinheiro das apostas ele pega da ex-mulher, a Eva (Soraya Ravenle), não é?

Tem todo um passado entre eles. É aquele cara que fica encostado e, por exemplo, se vê aquela peça ali (aponta para um vaso), vende e consegue algum dinheiro. Tanto que ele quebrou o telhado da Eva fazendo a instalação pirata da TV a cabo, comprou as telhas, todo o material, mas na hora de pagar saiu fora. Depois, ganhou uma grana no dominó e pagou tudo. Então, ele vai indo nessa ‘função’ (risos). Joga dominó, cartas, palitinhos, no bicho… Vale tudo. Mas não o vejo como um mau-caráter.

Mesmo separado, ele ainda gosta da Eva. E parece que ela também. O que aconteceu: ele preferiu se afastar ou ela se cansou?

Ela se cansou, porque queria um homem responsável. Mas ainda existe um clima entre os dois.

Você gostaria que houvesse uma redenção do Juju por amor ou você é contra o politicamente correto?

Não sou contra o politicamente correto. Em certos personagens o que conta é o efeito da situação, nesse caso as tentativas de reconquistar a mulher. Acho que a redenção é legal, já que a vida te traz oportunidades diferentes. Pode pintar alguém interessado nela, o Jurandir ficar com ciúmes… Imagino ele tirando a barba, se arrumando e indo procurar emprego no centro de São Paulo. O personagem tem uma estrutura de comédia, mas não sei como se vai mudar ou não até o final. Só sei que gosta muito dela e adora as filhas.

 

Por falar nas filhas, as duas vão em busca do sonho americano e, como muitos brasileiros, acabam se dando mal. Você acha que esse aumento da busca por viver em outros países significa que o Brasil está inviável?

Todo mundo tem seu sonho e deve se arriscar. Eu sempre quis ir pra fora e, aos 24 anos, fui morar no Porto, em Portugal. Vivi lá por um ano e meio. Estudei, fui a festivais de teatro… Foi maravilhoso, tenho grandes recordações, e adoro Portugal. Mas me lembro que houve uma migração muito forte na época do Collor (ex-Presidente Fernando Collor de Mello). Depois, fiz até o filme Terra Estrangeira, do Walter Salles, com a Fernanda Torres, abordando os problemas dos imigrantes. Mas acho que o Brasil viável, sim. Eu batalho no meu trabalho, não adianta ficar esperando só coisas governamentais. Acho que a gente deve se envolver em projetos sociais, ajudar as pessoas. Levantar o nosso nível individualmente para dar uma contribuição forte. Tenho muita fé no Brasil.

Você falou de Portugal com um carinho muito especial.

Eu trabalhei lá com o pianista João Vasco num projeto chamado Poema Bar. Fomos a Berlim, a Colônia e a Paris. E vi como os brasileiros têm saudades, levam uma vida sofrida e a muitos não conseguem voltar. O sonho parte de uma fantasia muito pessoal, mas podem vir as decepções, e, mesmo assim, você não abrir mão, não querer voltar para não ser visto como um fracasso. Mas em Portugal resgata-se um pouco da nossa história, há respeito às leis, às hierarquias, tudo muito organizado, subsídios para o teatro… É um país de que eu gosto muito.

Luiza, filha da Julia, escolheu ser atriz. A última notícia que tive dela é que estava trabalhando em teatro com Zé Celso Martinez. Ela pensa em fazer televisão?Ela  agora está com Antunes Filho. E pensa em televisão, sim.  Mas eu e a Júlia achamos supercerto  ela ter uma base no teatro. Luiza está fazendo sua trajetória. Foi de repente que resolveu investir na profissão, e acho que tudo tem seu momento.

Foi assim com você?

Eu estou envolvido com teatro desde criança. Meu pai (o diretor Tanah Correa) sempre me levava. Comecei a gostar, demorei um pouco a entrar na carreira, mas depois de fazer teatro e cinema veio Guerra Sem Fim (1993), na extinta Rede Manchete. O Paulo José me viu na novela, e me chamou para a minissérie Incidente em Antares (1994), na Globo. E, logo depois, veio Engraçadinha… Seus Amores e Seus Pecados…

Acho que foi o seu boom na TV, não?

Foi. As cenas eram muito marcantes.  Aquela em que meu personagem fica com o da Claudia Raia em cima do carro, na chuva… Falam até hoje (risos). Embora tivesse esse lado do teatro forte em mim, sempre fui  noveleiro.  Meus pais eram separados, e a TV acabou virando minha babá eletrônica. Via desde a Sessão da Tarde até as novelas das seis, das sete, das oito… A primeira vez  em que contracenei com Tarcísio Meira e Francisco Cuoco quase tive um treco (risos).

E, além de galã, acabou investindo em sua veia cômica…

Queria fazer personagens ousados, fugir do estereótipo careta. E fiz uma variedade interessante de tipos na TV. Acho que a comédia, não querendo comparar,  mas lembrando,  tem a ver com o (Marcello) Mastroianni, um lado do humor que passa pela sensualidade, pela humanidade. No meu caso, uma vontade de fazer tipos brasileiros: ‘eu sou assim, mas não consigo ser diferente’, como o Cadinho, de Avenida Brasil. Ele amava as três mulheres, de verdade.

DOIS AMORES, CASAMENTO… OPINIÕES

Você acha que é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo?

Acho que sim, mas deve ser complicado. Eu sou muito de viver o amor, a paixão, de estar focado em alguém.  Existem pessoas que têm relações com outras durante muitos anos, formam uma segunda família que, às vezes, só ficam sabendo quando elas morrem. Ou vivem o amor como uma aventura: passam pela janela e já se apaixonam. Nossa… Acho que tem um pouco de Vinícius de Moraes nisso (risos).

Recentemente, a novela Império mostrou personagens bissexuais. O do José Mayer tinha o consentimento da esposa. Mas o público sempre fica com um pé atrás quando esses assuntos chegam às novelas. O que você acha?

Tudo é possível em relação a sentimentos. São tão complexos os desejos, as vontades. Fico pensando naqueles que passam a vida tentando assumir o que realmente preferem, mas não conseguem. Às vezes é cruel, é triste. E quando a novela mostra isso…  Acho que daqui a dez, 20 anos, vamos olhar o que foi a história para chegar até aquele momento. É preciso quebrar barreiras. Mas quando você pensa que a novela é uma coisa caseira, de pessoas jantando com a família, e que a maioria não consegue explicar às crianças o que está acontecendo, não consegue ou não sabe tocar no assunto, aí pode se tentar entender o porquê de sentimentos de rejeição.

Mas imagina se você tem um personagem que seguirá tal trajetória, com um perfil delineado, e, de repente, sua carpintaria não valeu, tem que mudar o que  imaginou para ele. Não é complicado?

Na novela  tem que estar preparado pra tudo: é um jogo com o público, o único tipo de dramaturgia em que você tem essa interferência tão forte, que pode mudar rumos. E acho interessante: é a obra aberta. Vejo um pouco isso em relação à vida. Em um ano pode mudar tudo na vida de uma pessoa.

Mas essa proximidade do público, estar na casa dele todos os dias, traz fama, sucesso, e o lado ruim: boatos.  Você se chateia com essas repetidas vezes em que falam  sobre separação no seu casamento com a Julia?

Essas coisas não vêm na vocação, no DNA do ator. A fama ou a projeção você vai aprendendo a lidar. Como isso de tirar fotos, dar autógrafos, falar de assuntos pessoais, ouvir que você está bem ou mal num trabalho, gordo ou magro, mais feio, mais bonito… Sempre vão ter opiniões diversas, vão falar da sua vida. Tenho uma carreira de 21 anos na Globo, e já fiz muita coisa. Essa satisfação é maior do que tudo. Nós sempre quisemos ser atores, e batalhamos muito, independentemente de sermos casados, é a dedicação de uma vida inteira… E quando sua vida pessoal fica mais importante do que isso é complicado. Nossa relação tem crises, brigas, discussões como a de todos os casais, mas tem companheirismo, minha admiração muito grande pela Julia, antes mesmo de fazer TV. Nunca fugi de falar sobre esses altos e baixos, mas é cruel no sentido de você ter de ser um padrão, um exemplo, e não poder ter uma relação normal, como todo mundo, porque somos artistas.

 

 

Falando  em exemplo,  artistas acabam servindo como parâmetro, também são para os modismos. Você está com essa barba por causa do Jurandir, mas não é um ubersexual (risos). Acha que a ditadura da moda e da cosmética está invadindo cada vez mais o mundo masculino?

Sempre a moda masculina foi meio sem graça, aquela coisa de terno e gravata. Nos anos 60, os hippies deram uma desbundada e começaram as mudanças, com batas, bolsas. Nos anos 70, calça boca de sino, discotecas… Nos 80, aqueles  mullets, lembra? (risos). Depois, vieram os mauricinhos e por aí foi.  Acho que há um investimento maior agora no público masculino, mais variedades, possibilidades de estilos diferentes.

E quanto aos procedimentos estéticos? Faria?

Não! (pausa longa)

Você ficou meio assustado?

 É que não consigo me imaginar olhando no espelho e me vendo diferente. Tenho medo de colocar botox, essas coisas. Procuro sempre me cuidar, faço limpeza de pele, hidratação, uso filtro solar, hidratante, mas nenhuma substância que mude como cheguei até aqui. Penso sempre que o universo de Shakespeare tem Romeu, Hamlet, Macbeth até chegar ao Rei Lear, papéis para todas as idades (risos). Acho que a Fernanda Montenegro já disse algo semelhante: o ator são as rugas que estão na história dele. E isso vai me dar o estofo, a possibilidade de envelhecer e retratar esse tipo de homem, como é a decadência física pela qual  todos passamos. Só espero conseguir chegar aos 70, 80 anos bem, e no palco.

 

10 comentários

  1. Aguinaldo

    Por falar em novela, gostaria muito que você escrevesse uma novela sobre os excombatentes da FEB que participaram da Segunda Guerra Mundial, recentemente saiu um filme sobre o assunto “Estrada 47” , pouco se fala daquela época, minha vó escreveu livro autobiografico da vida dela com o meu avô – excombatente da FEB, ele ficou 8 meses na Italia durante a guerra( set-1944 a julho de 45), mas as editoras não tem interesse em livro de familia. Seria muito interessante relembrar a história contada por quem viveu e conviveu com um pracinha da FEB durante 50 anos. meu avô faleceu em 1998 . se houver interesse nos podemos contribuir enviando o livro.

    abraços

  2. Também gosto muito do Alexandre Borges. É um ator que foi chegando de mansinho e que conquistou seu espaço na TV. Dentre todos os seus trabalhos, destaco Engraçadinha e Ti Ti Ti, duas propostas diferentes, mas muito interessantes. É legal vê-lo na atual trama das 19h sem o rótulo de galã.
    Só sinto falta na carreira dele de um grande vilão.
    Muito interessante e boa a entrevista, Simone!!

  3. Aguinaldo, aqui em Lisboa torcemos todos para que os efeitos de sua queda nesta nossa cidade agora cheia de buracos e remendos passem logo e sua recuperação seja rápida. Afinal, sua novela Império está fazendo o maior sucesso em Portugal e é muito constrangedor para nós que você venha sofrer um acidente desagradável desses justamente aqui. Beijinhos.

  4. Admiro os trabalhos de Alexandre Borges, grande ator. Além de ser um charme! A entrevista está uma delícia de ler.
    Quando não está na tv ou teatro, está sempre engajado em projetos sociais, geralmente com o pai.
    Um homem de grande valor.

  5. Muito boa a entrevista! O ator AB é gente fina!
    Simone nos brinda com um excelente trabalho!

  6. Oi Aguinaldo…. adorei a entrevista… Parabéns Simone e Alexandre (sempre charmoso…rs…).
    Aguinaldo, espero q esteja bem e livre da labirintite e, quanto ao seu encontro c a Lilia Cabral, em Portugal, não deixe de registrá-lo aqui, ok? E q venha mais uma parceria!!!
    E q tal mais uma entrevista c essa grande estrela do palco, telona, telinha e da vida??? Aguardamos…
    Saudades do seu texto e das emoções da Lilia… voltem logo…
    Abraços

  7. Oi Aguinaldo…. adorei a entrevista… Parabéns Simone e Alexandre (sempre charmoso…rs…).
    Aguinaldo, espero q esteja bem e livre da labirintite e, quanto ao seu encontro c a Lilia Cabral, em Portugal, não deixe de registrá-lo aqui, ok?
    E q tal mais uma entrevista c essa grande estrela do palco, telona, telinha e da vida??? Aguardamos…
    Saudades do seu texto… volta logo…
    Abraços

  8. Uma entrevista bem descontraída, boa de se ler! Acho o ator Alexandre Borges excelente intérprete, e está arrasando mais uma vez em “I Love Paraisópolis”, como sempre faz, na televisão. Um ator que trabalha sempre muito o personagem e que tem grande versatilidade. Lembro bem que ele se destacou em “Celebridade”, fazendo um papel dramático, e em “Laços de Família”, fazendo o cômico Danilo. Mas seria muito legal vê-lo em uma novela de Aguinaldo Silva!

  9. O Tony é unanimidade, tanto como pessoa quanto no lado profissional. O Alexandre Borges está parecendo D. Pedro. E a Simone com o Patrício são uma dupla nota 1000. Parabéns e, claro, vamos que vamos …

  10. Estava com Saudade das grandes entrevistas com Simone Magalhães,Parabéns!
    AGUINALDO,lendo um comentário seu respondido ainda hoje,onde você diz que sempre quis trabalhar com Tony Ramos,fiquei imaginando,como um encontro desses ainda não aconteceu?Mas acho que vai acontecer na hora certa.Mas agora vou tomar licença e lhe fazer uma pergunta.Vasculhando a carreira da atriz Mariana Ximenes,se não estou enganado,percebi que vocês também nunca trabalharam juntos.Gostaria de saber se o senhor sonha em trabalhar com ela,assim como com o Tony?Acho que o mundo das Telenovelas merece este dia. Um abraço querido,por favor se puder me conte. desde já, Obrigado Aguinaldo…

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