CAMINHANDO CONTRA O VENTO

» Públicado por em out 7, 2015 | 6 comentários

 

Helenice Terezinha de Lima Pereira de Almeida chega como um raio de sol para a entrevista ao ASDigital. Toda trabalhada no amarelo – até a presilha, que sustenta seu coque, sempre chique –, dá risadas, se desculpa pelos minutos de atraso e elogia a vista do mar. Tudo ao mesmo tempo agora. Simpática, expansiva. Mas, aí, vocês me perguntam: “Quem é Helenice Terezinha?”. Poucas pessoas sabem que esse é o verdadeiro nome da cantora Ellen de Lima, que quando se esquece de alguma coisa, murmura: “Lembra, Helenice, lembra!”.

 

 

E ela tem sempre uma solução bem-humorada para a pergunta de que não gosta: “Quantos anos você tem?”. “Muitos!”, responde. E quem sou eu para dizer que ela completou 77? Ellen é avessa a rótulos, tanto que, nesses 65 anos de carreira, o sucesso chegou em vários ritmos. E continua na estrada “com força total, muito brilho e glamour”. Como as grandes estrelas da MPB que adoram letras marcantes e reverenciar o seu público com a voz. Nada de firulas ou de ostentação.

Difícil mesmo, é não associá-la a Canção das Misses, de Lourival Faissal (“Os Estados brasileiros se apresentam nesta festa de alegria e esplendor…”), de 1964, tempo em que o concurso era imperdível e ganhava foto de capa em todas as revistas. Por falar em retratos, Ellen trouxe dezenas, principalmente em preto e branco, de seu arquivo. Paulo Gracindo, Emilinha, Marlene, Linda Batista… Saudades da época de ouro do rádio, dos programas de auditórios, e depois dos musicais na TV, mas nada de nostalgia!

A cantora, que é casada há 45 anos, tem 3 filhos e 2 netos, continua fazendo shows, inclusive com outras cantoras, desde que o musicólogo Ricardo Cravo Albin lançou o grupo As Eternas Cantoras do Rádio, em 1987, que gravou três CDs.  Muitas, como Carmélia Alves, Ademilde Fonseca, Zezé Gonzaga e Carminha Mascarenhas se foram. Mas outras formaram – e formam – duetos e trios em espetáculos maravilhosos com Ellen, que tem assunto que não acaba mais. Ela reforça a vontade de entrar num túnel do tempo e ser macaca de auditório do César de Alencar, que, aliás, a apelidou como “Volkswagen”. “Por que, Ellen?”. Aos risos, ela responde: “Porque tem motor atrás”. E  mostra uma foto com um vestido brilhante justo, que reforça suas curvas exuberantes.

 

texto: Simone Magalhães

fotos: Fco. Patrício e arquivo da cantora

 


A  INESQUECÍVEL MAGIA

DA ÉPOCA DO RÁDIO

 

SUDESTE MARAVILHA – “Meu pai era vidraceiro. Fazia aqueles vitrais bonitos, bisotês. Minha mãe, dona de casa, gostava de cantarolar. Eu tinha 2 anos, e minha irmã, Lourdes, 10, quando viemos da Bahia para o Rio na expectativa de melhorar de vida. Moramos na Rua do Riachuelo, depois em Olaria… Sabe que estudei em colégio de freiras? Agora, estou mais levadinha, mas naquela época – até antes – pensava em ser freira. E com 5 anos já gostava de ouvir Vicente Celestino e Francisco Alves, nos programas de meio-dia, no rádio. Sempre gostei de músicas românticas”.

ESTREIA – “Em Olaria tinha o Parque São Geraldo, aonde eu ia com uma amiga. Vimos um cartaz pedindo que calouros mirins se inscrevessem para cantar na quermesse. Eu fui. Avisei à minha família no domingo da festa. E lá subi num arremedo de palco, cantei e tirei o primeiro lugar, com Fracasso, de Mário Lago. Ganhei 20 cruzeiros! Minha mãe era uma criatura incrível, gostava de música, não tinha preconceito em relação à profissão, e sempre me deu força. Morreu com 99 anos, hiper lúcida, e fez todos os meus vestidos para apresentações.”

 

 

COMEÇO – “Com 9 anos, minha mãe me levou ao Programa do Guri, do Silveira Lima, na Rádio Mauá. Em 9 de maio de 1948 tive 295 votos no Papel Carbono, do Renato Murce. Daí, foram várias apresentações: A Hora do Pato, com Jorge Cury, o Programa Ary Barroso… Até chegar ao César de Alencar.  Um dia me chamaram para cantar numa boate. Eu e minha mãe entrávamos pelos fundos, porque eu era menor de idade (risos). Todas as noites, o cara da produção me dava um copo de leite antes de ir para o hotel, com minha mãe. Um dia, ele se enganou e deixou o copo de leite para a Ângela Maria, que não entendeu nada (risos)”

CONTRATO – “Fui contratada para o casting de novatos do Programa César de Alencar. Quando os cantores viajavam para fazer shows, o público escolhia um amador para interpretar os números deles. Geralmente eu cantava as músicas da Ângela Maria. Também fiz locução, contracenava com Lourival Faissal no teledrama, e fui Garota Mosel, um tipo de garota propaganda. Eu me lembro que o (ex-presidente do Brasil) Washington Luís, já velhinho, ia comprar num camiseiro. Numa das vezes disseram que era uma camisa de babado. Aí, fizemos graça na rádio com a música de Noel (Rosa): “É de babado, sim! É de babado, não!” (risos).

“Participei de muitos programas, como Pescando Estrelas, na Rádio Club do Brasil, Gente Que Brilha, na Rádio Nacional… Em 1954 fui para o Alvorada, da Mayrink Veiga, contratada para me apresentar no Rio e São Paulo. Dois anos depois, gravei um disco em 78 rotações, com Até Você, de Armando Nunes,  e Melancolia, de Allain Romans numa versão de Capitão Furtado. Já o primeiro Lp, Ellen (1957), teve como carro-chefe um dos meus grandes sucessos, Vício. E fui acompanhada pelos Titulares do Ritmo, orquestra ao vivo, com o maestro Renato de Oliveira.”

 

NOME ARTÍSTICO – “Desde que morava em Olaria já achava bonito o nome Ellen. Quando fui gravar meus discos – eu já cantava em tudo: batizado, enterro, casamento (risos) -, o Renato Murce disse que já existia a Helena de Lima (hoje com 89 anos), que as pessoas iam confundir, mas eu disse que não, que éramos diferentes. E hoje está aqui a Helenice contando a história da Ellen (risos).

MISSES – “O Lourival Faissal, com seu indefectível cachimbo, um dia chegou pra mim e observou que o concurso de Miss Brasil não tinha um hino. Um ano antes, em 1963, a gaúcha Iêda Maria Vargas tinha ganhado o Miss Universo, e estava todo mundo naquela empolgação. Lourival foi ao piano, compôs e quando voltou me perguntou se, durante um intervalo, eu seria capaz de decorar a letra. Disse que sim, graças a minha memória prodigiosa. Dei aquela lida, decorei, e quando o programa entrou no ar novamente, já interpretei a Canção das Misses, que virou um marco nos concursos seguintes.”

AMOR – “E foi em 1964 também que conheci meu marido, Valentim, um português bem apanhado (risos). Ele trabalhava num banco e tinha um restaurante, em Copacabana, O Galo. Queria motivação para o público ir assistir aos números musicais no Galo. O divulgador da casa era um jornalista chamado Ney Machado, que comentou isso com o Grande Otelo. Um dia, Otelo encontrou comigo e disse; “Ô, menina, acho que tenho um negócio pra você!”. Fui lá e acertei o show. O restaurante só tinha uma entrada. E na sexta, 26 de junho de 1964, quando terminei de cantar – ‘carne fresca’ que era (risos) – todo mundo queria me dar carona pra casa. Agradeci, mas fui com minha mãe. O Valetim passou a me observar. Disse que eu não era do tipo ‘cheguei’, metida a boazuda, que minha mãe estava sempre comigo, costurava meus vestidos, ou seja, admirava meu jeito de ser. E como ele voltava pela orla da praia de Copacabana, me deu a primeira carona. Ele tinha um Borgward tipo Isabella. Achei o nome do carro bonito, e disse que seu tivesse uma filha chamaria de Isabella. E não deu outra”

CASAMENTO – “Foram seis anos de namoro. Eu cantava, e ele, de vez em quando, ia a trabalho pra São Paulo. Casamento, que é bom, nada.(risos) Um dia me perguntei: ‘Que namoro é esse? Se botar aliança de noivado é pra casar’. Olha que, antes dele eu tive umas paqueras, mas o único pra valer – você entende, né? – foi ele. Então, resolvi falar: “Olha, nós já estamos meio velhinhos, nosso namoro também, e eu quero resolver isso. Se até o dia 31 de maio não estivermos casados, você pode passar do outro lado da rua quando me vir”. E deu tudo certo (risos).

“Tivemos o Rodrigo Octavio, em 1972, que é ator, casado com a também atriz Karla Muga, moram em Portugal. Depois, veio a Isabella, em 1974, que vive conosco. E, em 78, o Carlos Gustavo, que era jogador de futebol no Brasil, depois foi pra Europa, e hoje é cantor. Casado com uma espanhola, ele é pai dos meus netos: Luan e Isabella, e  moram em Madri.”

TV E TEATRO – “Trabalhei como atriz e cantora na televisão. Na Tupi, na Continental, na Globo… Fiz teleteatro com Sérgio Britto, Fernanda Montenegro, Italo Rossi, Natália Thimberg. Estive na abertura da Globo… Nossa, convivi com  muita gente boa: Jayme Costa, Agildo Ribeiro, Berta Loran. Em 1969, participei do programa Viva a Revista, apresentado por Agildo e Marlene, na Globo. Fiz uma peça do Chianca de Garcia, e fui convidada pelo Jece Valadão para fazer O Matador, mas não aceitei. Meu foco sempre foi a música.

 

 

“Participei de espetáculos maravilhosos no Copacabana Palace, ao lado de Haroldo Costa e das Irmãs Marinho (Olívia, Mary e Norma). Sempre fiz tudo com muita alegria: Chacrinha, Almoço com as Estrelas, Programa Silvio Santos, show na boate Sucata (do Oswaldo Sargentelli). Cantei em tudo que era lugar: me chamavam, e eu estava lá! Até em Bar Mitzvá. Participei de um show do Carlos Machado, mas não com as perninhas de fora (risos), só cantando. Senti necessidade de aprender  inglês, espanhol, mas sempre muito convidada pra cantar em casas portuguesas. Meu marido é superapegado às tradições, vascaíno doente! É até Conselheiro do Vasco. Eu nasci em berço flamenguista, mas o que me une ao Vasco é algo que transcende o futebol (pisca o olho)”.

FAMA  – “Olho a minha carreira e vejo que houve momentos muito bonitos, a época do rádio é inesquecível. Era uma magia! Sabia que fui Rainha da Polícia Rodoviária Federal, e recebi a Medalha de Mérito Oswaldo Cruz? O problema é que hoje muitos talentos daquele tempo têm a pecha de ‘antigos’, e muita gente quer ser ‘moderna’ na música brasileira. Esse ‘endeusamento’ do que é descartável, do que é depreciativo, e uma vaidade muito grande não deixam as pessoas pisarem no chão. Que mérito tem algo que não possui raízes, que vai embora com o vento?

“Mas continuo fazendo a música na qual acredito. Claro que há ótimos compositores e cantores mais novos. Já gravei, inclusive, com alguns deles. Mas o importante é não deixar se levar pela fama, pelo sucesso fácil. Nunca sofri qualquer discriminação, sempre tive a minha postura. Quem tem cor é tecido e papel.Todos somos seres humanos. E quando chegam na rua e me perguntam: “Você é aquela cantora?”. Respondo: “Depende… Se você gosta, sou eu” (risos). 

 

6 comentários

  1. Maravilhosa a reportagem! Parabéns! Como grandes amigas que somos digo que ela merece. Além de uma carreira brilhante a generosidade desta mulher é incomparável, sempre solidária com os mais necessitados. Parabéns Aguinaldo pois temos que guardar na memória dos brasileiros a história de vida dos grandes brasileiros.

  2. Ellen de Lima, uma das maiores intérpretes da Música Popular Brasileira! É o tipo de cantora que não tem peça de reposição. Bom saber que ela está bem, trabalhando e com saúde. A canção das Misses é um tesouro nacional! Também gostaria muito de ver Ellen nas novelas, já que ela foi atriz na Tupi.

    Mais uma excelente entrevista do portal!! Sempre bom saber um pouco mais dos grandes ícones da musica, da televisão e do teatro, que tanto contribuíram com a cultura nacional!

  3. Sinceramente, não entendi essa história de adiar a Master Class 3. Seu compromisso devia ser com seus futuros alunos, que vão fazer enormes sacrifícios e pagar caro para ter aulas com você. Quanto ao Emmy, mesmo que Império ganhe, o prêmio será da Rede Globo e não seu, por isso eu lhe pergunto: qual a utilidade de ir à entrega para você?

  4. E quando vc vai entrevista esta esta estrela?
    Elza Soares exorciza dores em novo disco: “Música é o sedativo da alma” http://musica.uol.com.br/noticias/redacao/2015/10/08/elza-soares-exorciza-dores-em-novo-disco-musica-e-o-sedativo-da-alma.htm via @UOLEntrete @UOL

  5. Recordar é viver. Parabéns pela entrevista e pela entrevistada. Essa sim, uma diva, que tem histórias interessantes para contar. E vamos que vamos …

  6. “Não fui eu quem diminuiu, foram os filmes que ficaram menores”.

    Cabe aqui a frase de Norma em O CRESPUSCULO DOS DEUSES”.

    A TV atual despreza os astros e estrelas que fizeram a alegria daqueles que tem mais de 40 anos… A TV vive correndo atrás dos jovens e não percebe que está perdendo a atenção de uma maioria que não vê interesse em grande parte daquilo que está ai…

    Sempre tive curiosidade sobre essa artista … Sempre soube que ela cantava o tema das misses… Silvio Santos vive falando dela em seus programas… Mas essa matéria mostrou o quanto ela ´grande… Atriz, cantora, apresentadora… Seria ótimo vê-la em uma participação em novelas…

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