YANNA TEM CRAVO & CANELA

» Públicado por em jun 2, 2016 | 9 comentários

 

Por trás da aparência de tailandesa e indígena existe um encontro do Japão com a Bahia ocorrido em São Paulo, e que deu muito certo: existe Yanna Lavigne. A sagitariana de 26 anos, filha de pai japonês e mãe baiana, que é sucesso como a prostituta Mimi, de “Liberdade, liberdade”, começou a estudar teatro aos 19, após uma breve carreira como modelo em Tóquio, que teve início no concurso Miss Nikkey.

Emendar um personagem no outro, como vem fazendo desde que estreou na TV, para a morena, já é viver um grande sonho. Em algum momento, no entanto, pretende conseguir uma brecha entre um trabalho e outro para concluir o último semestre da faculdade de teatro. Mas, pelo visto, isso não vai acontecer tão cedo. Yanna é discreta quanto a isso, mas já sabemos que há vários autores de olho nela, o que significa que ela continuará a emendar um trabalho no outro. Basta citar a frase do titular deste blog ao vê-la entrar em sua casa para dar a entrevista:

“Você daria uma Gabriela perfeita”…

Pois, sim, Yanna Lavigne tem o cravo e a canela.

texto: Adalberto Neto

fotos: Fco. Patrício

 

Como o Japão encontrou com a Bahia e deu origem a você em São Paulo?

 Todo mundo acha que sou tailandesa, indígena, mas a miscelânea lá em casa é outra e bem maior do que se imagina. Meu pai é filho de japoneses, nascido em São Paulo. E minha mãe é de Ilhéus. As pessoas perguntam: “nossa, de onde vem esse teu olho puxado?”. No que eu repondo “meu pai é japonês”, elas comentam: “mas você não tem nada de japonês”. Aí, eu digo: “minha mãe é baiana”. Naturalmente, imaginam que a mistura é de uma mulata com um típico oriental. Mas, não. Lá em casa, a coisa se inverteu. Meu pai é um japonês muito escuro, com os olhos mais arredondados, e minha mãe é uma baiana meio europeia, branquinha, dos olhos claros e meio puxadinhos. Eles se conheceram em São Paulo, se casaram, e eu nasci lá. Mas fui criada em Porto Alegre, por causa do trabalho do meu pai, que é engenheiro.

 Como foi o período em que você morou no Japão?

 Passei quatro anos e meio da minha vida lá. Meus pais foram trabalhar em Nagoia e, a princípio, eu e minha irmã ficaríamos com uma avó, porque precisávamos terminar os estudos. Mas um mês depois, demos entrada na papelada e  fomos para o Japão, com a condição de que voltaríamos para o Brasil depois que terminássemos o Ensino Médio lá. Mas, depois que acabei os estudos, virei modelo e continuei no país.

 Sua carreira como modelo começou por meio de um concurso de miss?

 Foi. Quando souberam do concurso, os alunos da minha escola disseram que eu tinha que representá-los, insistiram, e eu acabei participando. Era o Miss Nikkey. Ganhei, e um olheiro brasileiro, que trabalhava numa agência de modelos japonesa, me descobriu e me contratou. Fui para Tóquio, onde fiquei dos 16 aos 19. O contrato era até meus 25, mas já estava me achando velha para estudar teatro e decidi voltar para o Brasil e realizar esse sonho. Com o dinheiro que juntei como modelo, investi na minha carreira de atriz, pagando um curso de teatro, porque meu pai não iria financiar esse meu desejo. Quebrei o contrato, mas o pessoal da agência entendeu bem, porque não era para mudar de empresa, mas para voltar para o meu país.

Como você chegou à Oficina de Atores da Globo?

Eu fazia teatro em São Paulo e alguns cursos paralelos de interpretação para entender a vertente com a qual mais me identificaria. Paralelamente, o meu dinheiro começou a acabar, e entrei para uma agência de modelos para voltar a fazer alguns trabalhos. Com seis meses de curso, me chamaram para o teste de “Rebeldes”, da Record. Era uma seleção para integrar o sexteto da novela. Nunca tinha cantado, mas fui.

Um mês depois, já tinha até esquecido do teste, quando o Leandro Baumgratz, assistente do Roberto Bomtempo, me ligou e disse que eu tinha sido selecionada para fazer a Oficina de Atores da Record, que a turma teria 20 alunos, que era um investimento da emissora e que eu receberia para estudar. Perguntei se tinha a ver com a novela, e ele disse que não. Mas fui mesmo assim. A oficina durou quatro meses, não fui contratada pela Record, mas continuei no Rio e entrei para uma faculdade de teatro. Logo no primeiro semestre, aí sim, fui chamada para a Oficina de Atores da Globo, por meio de um vídeo cadastral, e, depois, já comecei com uns pequenos trabalhos até ingressar em “Salve Jorge”.

 Você fez teste para “Salve Jorge” ou foi convidada?

O Luciano Rabelo (produtor de elenco) me chamou para um teste para “Avenida Brasil”. Fui até a reta final, mas não passei. Quando terminei a oficina, mandei e-mail para todos os produtores de elenco me apresentando. Nessa época, Luiz Antônio Rocha (produtor de elenco) tinha acabado de fechar a escalação de “Salve Jorge”, mas eu resolvi acreditar e mandei mensagem para ele, dizendo que estava na área. Fui para Porto Alegre de férias e, de lá, recebi uma ligação dele, informando que a Tamar não era exatamente da faixa etária da atriz escalada e ele queria muito que eu fizesse o teste para o papel. Na semana seguinte, recebi a resposta de que tinha sido aprovada e comecei a trabalhar imediatamente.

E no ano seguinte você já foi indicada a Atriz Revelação, do Prêmio Contigo, pela Tamar. Foi uma surpresa?

Foi. Já estava fazendo “Além do horizonte” na época. “Salve Jorge” me fez entender o que é um set de gravação, o universo da televisão, a saber me colocar de frente para as câmeras, a me posicionar. Mas “Além do horizonte” me deu o know-how do cotidiano da TV, me aperfeiçoou no batente. Enfim, esse reconhecimento logo no começo da minha carreira foi uma grande sorte. Fiquei muito lisonjeada.

 Foi mais difícil começar na televisão ou na moda?

 A TV sempre foi muito complicado, para mim, me salvar em luz, eixo de câmera, eixo com o outro ator. Mas como vinha de duas oficinas em emissoras, não foi uma coisa de outro mundo. Uma lembrança que tenho é que cheguei com muita vontade ao set de gravação. O Marquinhos Schechtman (diretor) comentou em “Salve Jorge” que, para minha primeira novela, eu parecia estar em casa, de tão á vontade. Como eu queria muito aquilo, não deixei o nervosismo tomar conta. Já na moda, foi um pouco mai difícil porque eu estava em outro país, não falava a língua e ainda era dez quilos mais magra do que o perfil com o qual eles gostavam de trabalhar. Então, por insegurança, idade e falta de maturidade, começar na moda foi mais árduo do que na TV.

 

 Você fez “Malhação”, que é muito assistida por adolescentes. E, agora, “Liberdade, liberdade”, que tem um público adulto. Houve mudança no assédio nas ruas?

 Todo mundo me pergunta isso, mas o curioso da minha carreira, de “Salve Jorge” até agora, é que o público que vem falar comigo é formado por crianças. De alguma maneira, a Tamar, que tinha uma aura de fantasia, era lúdica, se vestia da cabeça aos pés com muitos florais, e, agora a Mimi que, apesar de ser uma prostituta, também vem do lúdico, de roupas rasgadas, vestido corselet, aquele topete gigante, as bochechas rosadas… Acho que isso chama atenção das crianças. As duas personagens trazem um frescor, uma ingenuidade, uma puerilidade, que elas gostam de ver. Fico muito feliz quando as crianças vêm falar comigo nas ruas, elogiar o meu trabalho, tirar foto, porque o público infantil é o mais sincero que existe.

 Quando você leu sobre a Mimi pela primeira vez, tinha ideia de que ela teria uma grande repercussão?

Não esperava. A novela das 23h tem um licença poética, que não há nos outros horários. E “Liberdade, liberdade” se aproveita disso para ousar na fotografia, no enredo. Fora que o elenco também está impecável. Dentro disso tudo, temos a Mimi, que é muito autêntica e, talvez por isso, tenha conseguido envolver o público. Ela é uma prostituta de 1808, é a mais velha do bordel, traz uma dramaticidade de mulher. Tem 19 anos, trabalha com o corpo e vive num ambiente de meninas novas. Não é viajada, não lê livros, não vê filmes. O mundo dela é muito pequeno.

Existe na personagem um peso dramático de vida no trabalho, mas também um frescor de menina. É esse contraponto que a torna interessante. A mistura do lúdico com o real faz com que as pessoas torçam por ela.

 Na hora de gravar sem roupa, com toda a equipe em volta, também pinta algum desconforto?

 Não. Eu me preparo para a personagem. Estaria mentindo se dissesse que gravar uma cena nua é mais fácil do que fazer um jantar com a família. Mas sou tão cercada de pessoas profissionais, fora que a equipe técnica da novela já trabalhou comigo em “Ligações perigosas”, inclusive o Vini (Vinícius Coimbra, diretor), que isso me deixa relaxada. É um trabalho em conjunto com pessoas em que confio, desde o Mário (Teixeira, autor), passando pelos câmeras, camareiras, assistentes de áudio… Então, esse conforto profissional, que veio do trabalho anterior, me faz ficar à vontade. Mas, de uma forma geral, para mim, o nu não é uma questão, porque sou atriz e meu corpo é meu objeto de trabalho.

 Durante a preparação para a Mimi você disse que ficou abalada. Por quê?

Fui entender o universo da Inconfidência Mineira, de Tiradentes, do Brasil colônia. Depois, sim, fui pesquisar por bordéis europeus, livros e filmes sobre a época. E para fazer uma junção do período da novela com o frescor da Mimi, visitei algumas casas noturnas para conhecer meninas que trabalham com o corpo. Depois dessa pesquisa de campo, vi que o olhar, o gestual e o posicionamento corporal são muito parecidos com o que vi nos filmes europeus antigos. Foi importante fazer esse paralelo entre o que vi na ficção e na realidade trazer riqueza a minha composição da personagem. Mas me abalou bastante ver na prática o que, até então, eu só tinha conhecimento pelos livros e filmes.

 

 

 

Na novela, você é do núcleo da Lilia Cabral. Atuar ao lado de atores muito experientes e respeitados no trabalho, como é o caso dela, te dá mais segurança ou nervosismo?

 É uma mistura. Ainda me pego sem jeito ao lado da Lilia, mas ela é uma pessoa muito generosa. Ela cria um ambiente em que as pessoas se sentem à vontade. O mesmo acontece com o Caio (Blat). São dois atores que eu admiro muito e que têm o poder de oferecer uma atmosfera agradável durante as gravações. E dessa forma, tudo flui bem.  

 Para a cena do banho do Rio, que teve grande repercussão na internet, houve preparação, ensaio para executar aquela coreografia debaixo d’água ou você chegou ao set, tirou a roupa e começou a gravar, como se fosse uma cena qualquer, no improviso?

Foi um experimento. Como estou em contato com as meninas que fazem as outras prostitutas desde a preparação para a novela, isso traz uma empatia profissional muito forte. Nós acatamos com mais facilidade uma sugestão do diretor, porque existe um entrosamento. O legal da cena foi o frescor e a espontaneidade. O Vini realmente fez as nossas marcações na hora. Nada foi ensaio.

 E o selinho na Hanna Romanazzi nesta mesma cena? Já estava previsto?

Também não. Foi uma marcação que surgiu no desenrolar da cena. Me veio à cabeça a série “Orange is the new black”, que retrata o dia a dia de presidiárias, que fez parte da minha pesquisa sobre as muitas relações entre mulheres. A partir dela, achei que seria interessante pontuar a relação de amizade das meninas com aquele beijo. No meio de uma discussão entre elas, há amor, carinho. Elas se estapeiam, mas, na cena seguinte, estão tirando piolho uma da outra, se ajudando a fazer tranças no cabelo.

 Numa rápida pesquisa na internet sobre você, há matérias sobre inícios, términos e reinício de namoros. Isso te incomoda?

 Não. Aos poucos, vamos entendendo que isso, indiretamente, faz parte da nossa profissão. A nossa vida pessoal é a extensão do nosso trabalho. Encaro essa curiosidade sobre mim com bastante naturalidade.

 O que você pretende fazer depois de “Liberdade, liberdade”?

Adoraria terminar o último semestre da faculdade e pegar o meu diploma, mas já fui convidada para outra obra, e isso vai me impedir de voltar agora.

 

 

9 comentários

  1. Lindissima e talentosa

  2. Yanna tem três coisas fundamentais para o sucesso: Talento, foco e obstinação . Para mim, foi em “Além do horizonte”, novela de baixíssima repercussão, que ela conseguiu se destacar mais. Fez sua personagem Ana Fátima roubar a cena e quase se tornar protagonista. Neto, parabéns pela entrevista, deliciosa. Sucesso Yanna. Forte abraço 😀

  3. linda adoro ela
    Aguinaldo você é muito generoso
    Gostaria de ver uma entrevista com sua aluna Márcia que fez um desabafo no face,fica sugestão

  4. A entrevista está boa, mas ficou muito longa, Agnaldo, vê se a próxima faz mais curta.

  5. Que morenaça, hem? Numa prova de cem metros rasos ela ganharia de Isis Valverde por cabeça.

  6. É incrível como a televisão lança meninas não apenas bonitas,mas também muito talentosas. Já os meninos, bem… Alguns são bonitos, mas como atores dão apenas para o gasto. Por isso eles aparecem, explodem e logo somem de circulação.

  7. Lendo essa reportagem lembrei daquele frase que diz algo sobre perseguir o sucesso uma hora ou outra ele se renderá. Yanna está fazendo um caminho de sucesso e natural para quem se prepara, insiste e persiste. Muito simpática e talentosa. Adorei!

  8. Mas que BELEZA e que doçura de moça!
    Beijos.

  9. Bela entrevista Neto! Yanna é uma flor de pessoa. Exala carisma e simpatia por onde passa. Eu jurava que ela descendente de índios. Muito linda. Adorei!

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