Pedro Lopes

Desde o dia 20 de maio que eu e Pedro Lopes (comigo na foto abaixo) nos falamos todos os dias, e o assunto é sempre o mesmo: telenovela ou, mais especificamente, “Laços de Sangue”, a novela que ele e sua equipe (Mário Cunha, Catarina Dias, Eduarda Laia, Miguel Matias, Simone Pereira, Ana Vasques e João Vilar) estão a escrever, a que estréia na SIC, aqui em Portugal, já em setembro. A expectativa em torno desse trabalho é grande, já que a Rede Globo participa em regime de parceria (e até mandou um certo autor dos cabelos mais prateados do mundo pra dar uns pitacos), mas, com a empáfia que me é habitual, posso dizer que ninguém ficará decepcionado. Entre outras coisas porque Pedro Lopes, como vocês vão ver na entrevista abaixo, tem experiência bastante para, junto com sua equipe, não deixar a peteca ir ao chão em nenhum momento, portanto… Bom, deixemos a rasgação de seda pra depois da estréia, por enquanto vamos ao bate-papo.

 

1, Quantas novelas você já escreveu?

Laços de Sangue é a minha décima primeira novela, em dez anos de trabalho como guionista. Nesta contabilidade não estão presentes três séries e uma mini-série histórica que assinei para a RTP, nem a novela juvenil “Lua Vermelha”, em exibição na SIC. Neste último caso estive presente na definição do projecto e no arranque da escrita dos episódios, mas depois ficou entregue a uma excelente equipa de guionistas que trabalhou autonomamente sob a coordenação da Inês Gomes.

2, Em qual delas acha que se saiu melhor?

O John Wells, que foi produtor executivo de “ER”e do “West Wing” disse numa entrevista que um guionista não atinge o seu potencial antes de dez anos de duro trabalho e foi durante a escrita de “Perfeito Coração” que atingi essa idade enquanto guionista profissional. De alguma maneira senti que todos os trabalhos anteriores em que tinha participado como colaborador ou coordenador de equipa serviram para me preparar para o desafio que foi me foi lançado pela SP Televisão há três anos atrás, o de criar projectos para apresentar às estações de televisão e de, em seguida, organizar um departamento de argumento na produtora.

“Perfeito Coração” foi o primeiro projecto de novela desta nova fase, em que tive a oportunidade de ter uma equipa totalmente escolhida por mim e feita à medida do projecto. Foi também com “Perfeito Coração” que houve a oportunidade de encarar a telenovela de uma outra maneira, como um género de primeira qualidade, que pretende ser completamente transversal sem deixar de ser popular, e que levou a uma abordagem mais realista da sociedade, de reflexão sobre os problemas que se viviam na altura, e que muito pouco mudaram, como a crise financeira internacional ou o aumento do desemprego, sem no entanto dispensar o humor. Mas, ao mesmo tempo, queria uma grande história de amor, de um amor impossível, daqueles que lemos nos romances novecentistas e que continuam para mim a marcar o ideal romântico, apesar de a maior parte das pessoas hoje em dia fingir que isso já não interessa nada e que podemos ser muito felizes sozinhos. O sucesso da novela mostrou no entanto que toda a gente sonha com um grande amor como o que Pedro e Leonor viveram no ecrã. Por todos estes motivos considero que foi “Perfeito Coração” a novela que até ao momento me saiu melhor, embora esteja confiante, convicto mesmo!, que vai ser superada por “Laços de Sangue”.

3, Como foi que chegou ao gênero?

Como guionista comecei pelo entretenimento e durante os dois anos e meio que estive na Endemol escrevi tudo o que foi reality-show da televisão portuguesa. A oportunidade de passar para a ficção surgiu com o convite para integrar a equipa de argumentistas da Casa da Criação, que estava naquele momento a escrever a novela “Anjo Selvagem”, adaptada de um formato argentino, e que teve cerca de quatrocentos episódios. Desde aí nunca mais parei.

4, Viu muitas telenovelas brasileiras? O que acha delas?

Eu nasci nos anos setenta – “Gabriela” estreou por cá em mil novecentos e setenta e sete – por isso cresci a ver novelas brasileiras. Algumas foram bem marcantes para mim como “Vereda Tropical”, “Roque Santeiro” e “Tieta”. A última que devo ter visto do início ao fim foi “Pedra sobre Pedra”, depois disso só recomecei a ver novela quando me dediquei à escrita desse formato. De todos os países que se dedicam ao folhetim, o Brasil, que é como quem diz a rede Globo, tem sido a referência para os argumentistas portugueses desde a primeiríssima “Vila Faia”. Este saber acumulado da Globo tem permitido reinventar o formato sem nunca perder de vista as suas origens. Curiosamente, os autores de novela que gostava na minha infância e adolescência são os mesmos que hoje em dia mantenho como meus preferidos.

5, Cinema, teatro ou televisão?

Todos. Eu gosto é de contar histórias. A televisão é um meio que pelo volume de ficção que exibe permite a um argumentista trabalhar em contínuo, e também variar de formato. Já o cinema que se faz em Portugal é pouco, menos de dez longas-metragens por ano, de qualidade duvidosa a maioria, e todas as obras dependentes de subsídios do Estado. As experiências que tive de escrita para teatro foram dirigidas a um público juvenil e portanto estão longe daquilo que gostaria de vir a escrever no futuro. No entanto, e apesar de querer escrever para teatro e o cinema, gosto cada vez mais de trabalhar para televisão.

6, Considera – como eu – que “Laços de Sangue” será uma novidade no panorama da novela portuguesa? Se acha, pode nos dizer por quê?

Não tenho qualquer dúvida disso. Esta novela tem os ingredientes certos para ser do agrado do público nacional, mas, ao mesmo tempo, suficientemente universal (já que estamos a falar de sentimentos como o amor e o ódio) para ser exibida noutros países. É uma novela que vem na linha de “Perfeito Coração”, mas que vai mais longe e mais fundo no tratamento dos sentimentos humanos, visto termos como personagem principal uma vilã. O aumento do número de personagens permitiu que se criasse todo um universo social que é muito nosso, das classes altas até às personagens populares, desbragadas, e que julgo virem a ser dignas de antologia.

7, Como é o trabalho de equipe? Sempre trabalha com os mesmos colaboradores?

Para responder a esta pergunta tenho de me dividir em dois. Como director de conteúdos da SP Televisão tenho neste momento catorze argumentistas a colaborar em diversos projectos. Na novela “Laços de Sangue”, e falando como um dos argumentistas do projecto, não considero nenhum dos escritores como colaborador porque são todos autores por inteiro, e aproveito aqui a oportunidade para nomear o Mário Cunha, a Catarina Dias, a Eduarda Laia, o Miguel Matias, a Simone Pereira, a Ana Vasques e o João Vilar.

8, Sei que pretende adaptar um livro de Eça de Queiroz (não precisa dizer qual) para minissérie: é um sonho antigo?

É um sonho com alguns (poucos) anos mas que espero que não chegue a tornar-se um sonho antigo. O trabalho de adaptação de uma obra literária é um processo completamente diferente do que faço no dia-a-dia, sobretudo na novela, em que se escreve a um ritmo alucinante. Um trabalho recente que fiz, e que me deu especial prazer, foi um projecto conjunto com o João Pupo e o João Tordo, em que passámos para guião o “Segredo de Miguel Zuzarte”, um romance da autoria de Mário Ventura, e que vai passar na RTP ainda este ano, nas comemorações dos cem anos da República. Este trabalho abriu o apetite para outros livros que adoro e que gostava que um dia fossem transformados em filme ou a mini-série. Se conseguir empolgar as pessoas certas para este projecto que tenho em cima da mesa (saltou da gaveta há umas semanas), quem sabe ele avance…

9, Os telenovelistas em Portugal são menos considerados que no Brasil: isso é bom ou ruim?

A profissão de argumentistas é muito recente em Portugal – temos ficção continuada há menos de quinze anos – e portanto ainda estamos num momento de afirmação, de procura de espaço, de conquista de estatuto. Aos poucos, muito devagar é certo, isso tem vindo a acontecer. Esperemos um dia chegar ao nível do Brasil, o que acarreta depois outro tipo de problemas, não profissionais mas que se prendem com a exposição pública.

10, Quais são suas expectativas para a estréia de “Laços de Sangue”?

Devia ser cauteloso nos comentários mas não consigo. As minhas expectativas são altíssimas! Espero que seja um verdadeiro sucesso junto do público!

11, O que achou deste nosso trabalho de semi-parceria?

Essa expressão existe, semi-parceria?! A relação que se estabeleceu logo de início foi de grande empatia, com uma primeira reunião altamente produtiva que espantou toda a gente, lembra-se? E, mais importante de tudo, o produto ganhou com este encontro de autores, mais e menos experientes, mas todos altamente criativos e empolgados.

Para mim, nunca uma crítica, sugestão ou elogio foi tão considerado. Afinal falamos a mesma linguagem – e não estou a falar do português, que o meu até é complicado de perceber! – mas de narrativa, da arte de contar histórias, . É isso que nos fascina a todos, que nos ocupa vinte e quatro horas por dia, e para o qual vivemos. E poder trabalhar com um autor com trinta anos de experiência no horário das oito, e mais do que isso, trinta anos de sucesso, que é uma coisa por que todos lutamos, é uma oportunidade que só podia agarrar com as duas mãos.