SUZANA PIRES ABRE O JOGO

 

Suzana Pires é uma mulher. Dito assim parece estranho, né não? Mas o que eu quero dizer é que, num universo cada vez mais cheio de jovenzinhas, quase ninfetas – o da televisão, ela surgiu para ocupar o lugar da mulher adulta, que sabe o que quer, que tem plena consciência dos seus objetivos, e não foi descoberta ali na passarela da esquina, mas se preparou arduamente para seguir o difícil caminho da vida artística. Sua entrevista – uma das melhores que aqui já publicamos – deixa isso bem claro: ela não entrou no ramo só para aparecer, ou pra brincar. Sim, Susana Pires é uma bela mulher. Leiam e sintam… E esperem pra vê-la em toda a sua plenitude em “Fina Estampa”.

1) Você começou na carreira artística ainda adolescente, aos 15 anos. Quando surgiu a certeza da vocação?

R. Desde criança eu dizia que seria atriz. Mas, entre os sete e os quinze anos me dediquei à prática da ginástica rítmica e aos estudos. Quando fiz 15 anos, falei para os meus pais que estava na hora de “começar a ser atriz”. Conseguimos uma vaga no Tablado e poucos meses depois eu já estava em cartaz e não parei mais. Mas, a certeza da vocação só veio quando eu comecei a produzir as peças que queria atuar. Quando eu me comprometi a transformar um sonho em realidade, aí sim minha vocação foi colocada à prova.

2) Fez escola de teatro, artes cênicas? Qual a sua formação?

R. Comecei a estudar aos 15 anos no Tablado que é um curso de improvisação. Dos 18 aos 22, fui aluna da Camila Amado. Eram aulas particulares onde aprendi técnicas de interpretação, análise de texto, dramaturgia, filosofia, enfim, foi o lugar onde comecei a entender um pouco mais sobre a profissão. Depois, tive a necessidade de expandir meu pensamento e fui fazer faculdade de filosofia onde me dediquei a estudar Filosofia e Teatro. Muita tragédia grega! E foi aí que comecei a escrever também. Fora isso, estudei clown com o Marcio Libar e fiz cursos específicos para desenvolver o instrumental básico do ator: corpo e voz.

3) Suzana Pires é uma artista multifacetada: atua, escreve, produz… Qual dessas atividades a seduz mais?

R. Quem faz todas essas atividades é a atriz. É ela quem manda em tudo! Rsrsrs… Vou explicar melhor: se eu não estou em cena, nada funciona, porque fico desorganizada. Minha cabeça não funciona muito bem e não fico feliz. Estando em cena, tudo fica perfeito e então consigo criar, escrever, produzir… aí também não paro!

4) Como organizar tantas atividades numa vida só?

R. No início, era o Caos! Mas fui conseguindo me organizar dentro da loucura que é meu dia-a-dia. Aprendi a ter foco, concentração e a priorizar. Então, se reservo uma hora para estudar e decorar texto, só faço isso. Não atendo nem telefone. Se estou escrevendo é a mesma coisa. Se estou gravando também. E assim fui ficando mais calma.

5) O que a Suzana Pires costuma fazer quando tem um período de descanso?

R. Eu amo ficar em casa. Posso passar o dia pendurando quadros, assistindo filmes ou seriados, recebendo amigos. Gosto também de ficar quieta, costurando roupas no ateliêzinho que fiz aqui em casa. Eu descanso na minha toca. É onde me recarrego.

6) Como é sua relação com a mídia? O excesso de exposição a incomoda?

R. Nesse pouco tempo em que fiquei uma atriz conhecida tive vários momentos na mídia. Primeiro foi o “quem é ela?”: então eram matérias que focavam minha história, o que eu já tinha feito e como tinha chegado à TV. Em seguida, o foco passou a ser minha vida pessoal. E, há alguns meses o foco da mídia voltou a ser a minha vida profissional. Graças! Em todos esses momentos, inclusive nos ruins, minha relação com a imprensa e a deles comigo, foi bem respeitosa. Mas, te confesso que foram dois anos me acostumando com tudo isso, conhecendo a mídia e me conhecendo em relação a ela, escolhendo como eu iria me colocar diante de toda essa exposição. E hoje, tenho uma postura bem clara com relação a isso: a minha vida profissional é absolutamente pública. Eu trabalho para o público, para tocar o coração das pessoas com a personagem que estiver fazendo. Mas, a minha vida pessoal é pessoal. Tenho feito de tudo para manter a milha vida íntima longe dos holofotes.

7) Você é uma mulher considerada sexy. Acaba sempre por ser escalada para viver mulheres “fatais”. Isso a desagrada?

R. De maneira alguma! Eu adoro isso! Acho que a sensualidade é um atributo muito feminino, que mexe com a nossa capacidade de gerar, de fecundar, de transformar uma possibilidade em algo real. É a capacidade de carregar um certo mistério que o outro quer desvendar. Isso talvez seja o que chamamos de “fatal”. E se esse mistério for… fatal? Rsrsrsrs Vejo a sensualidade com muito humor. É um jogo saudável. E, procuro colocar nas personagens uma pitada disso, em diferentes níveis e maneiras, claro! Mas, acho que uma mulher que tem consciência do poder da presença do seu feminino faz tudo ficar mais instigante.

8) Que tipo de personagem gostaria de interpretar e ainda não o fez?

R. Geralmente, eu não escolho as personagens que interpreto. E não pergunto se é grande ou pequeno. Eu sou seduzida pelo projeto, pelos profissionais envolvidos, pelo que está sendo dito, pela questão que levanta e pela mensagem que passa. Se confio nisso, aí vou com tudo! Me concentro totalmente em contar aquela história da melhor maneira possível. Me entrego totalmente.

9) Você é formada em filosofia; como esse conhecimento a ajuda a escrever e interpretar?

R. Não sei exatamente como ajuda, mas a filosofia me “alargou”, me fez “abrir o horizonte” dentro de mim mesma. Na prática, ter estudado filosofia me trouxe o contato com obras como “A Poética” de Aristóteles, que uso muito para meu trabalho como autora e como atriz, acho que me fez conhecer melhor as origens do teatro, do drama, porque mergulhei no estudo sobre a tragédia grega. Mas, eu tenho pavor de citar frases de filósofos e ficar falando “segundo fulaninho… segundo ciclaninho”. Acho que o conhecimento vai para a célula e não para a mente.

10) Qual o melhor conselho que recebeu ao abraçar a profissão?

R. Foi o conselho de um Mestre, um palhaço com quem tive a honra de estudar: “Suzana, não se leve a sério!” – demorei a entender o que isso significava. E com o tempo, percebi que todas as vezes que “me levei a sério” perdi a confiança em mim. Não consegui “achar uma saída” para algum problema, falei mais do que ouvi e minha “criança interior” me abandonou, me deixando cheia de pudores e neuroses. Então, cuido muito para que isso não aconteça! E, vem acontecendo “uma vez a cada nunca!” rsrsrsrs

11) Quais são seus planos para este 2011 que está quase começando?

R. Até março, estarei focada na Janaína de “Araguaia” e na redação do programa “Os Caras de Pau”, que vai continuar na grade em 2011. Em Abril, gostaria de apresentar minha peça “De Perto, ela não é normal!” em Lisboa. E, a partir de maio, estarei focada numa nova personagem criada por um certo senhor de cabelos-mega-prateados-e-lindos-olhos-cor-de-mel. Um Deuso! Um Mestre da dramaturgia! Conhece? Rsrsrs. Quero fazer juz ao convite que recebi desse senhor incrível e arrebentar numa  “Fina Estampa”!