O HOMEM QUE GANHOU O “EMMY”!

Antônio Barreira escreveu três novelas – “Fascínios”, “Flor do Mal” e “Meu Amor” – e, já com a terceira, ganhou nada menos que o Emmy Internacional. Dessa forma o novelista português garantiu o prêmio, pelo segundo ano consecutivo, para a língua portuguesa, já que o Brasil ganhara no ano anterior com “Caminho das Índias”, de Glória Perez. É ele o nosso entrevistado da vez. Nossa conversa teve como cenário um dos restaurantes mais charmosos de Lisboa, a Brasserie Flo.

1, Meu Amor, a novela de sua autoria, ganhou o Emmy Internacional. Alguma vez em sua vida de novelista chegou a sonhar com um prêmio desse tipo?

AB: Nunca. Jamais me passaria pela cabeça a nomeação para um prémio desta importância, quanto mais a vitória. Nem nos meus melhores sonhos. Juro que se me deitasse e sonhasse que tinha ganho um Emmy Internacional com uma obra da minha autoria, acordaria a achar que estava a delirar. Mas a verdade é que o sonho impossível se tornou realidade. Confesso que nunca penso em prémios ou distinções. Eu escrevo para o público, e a adesão do telespectador à obra que estou a fazer é o meu melhor prémio. Não escondo que me sinto orgulhoso por ter ganho um Emmy, embora a nomeação, por si só, já fosse uma vitória. Afinal, o júri da Academia que atribui os prémios já havia considerado Meu Amor uma das três melhores novelas do mundo. Acabou por escolhê-la como a melhor. Creio que isso deve encher de orgulho não só todos os que trabalharam neste projecto, mas também todos os que fazem ficção em Portugal.

2, Acha que os portugueses deram suficiente publicidade à conquista desse título… Ou ele merecia mais? Afinal, esta seria a Copa do Mundo das novelas…

AB: Na altura da nomeação, houve alguns jornais que deram o devido destaque, mas a maior parte da imprensa ignorou por completo. Quando Meu Amor venceu o Emmy, aí houve um destaque muito maior. No entanto, ainda há gente mal informada em Portugal e estou a falar de algumas pessoas que ocupam funções relevantes nos órgãos de comunicação social portugueses. Houve mesmo quem comparasse esta conquista a uma vitória nos Jogos Distritais de Futebol, quando se trata, afinal, do Campeonato do Mundo. Prefiro pensar que é por ignorância pura do que são o International Emmy Awards e não por inveja ou despeito, duas características muito dominantes, infelizmente, no país em que vivemos.

E aqui creio que cabe uma explicação, o mais sucinta possível, sobre o que são os Emmy. Existem os Emmy Awards que premeiam os produtos que são feitos nos EUA e os International Emmy Awards que premeiam tudo o que se faz na indústria televisiva fora dos EUA, ou seja, por todo o mundo. Segundo o que a organização nos disse em Nova Iorque, na Categoria Telenovela, estiveram a concurso obras de cerca de 120 países, que foram avaliadas por um júri com mais de 700 membros de 50 países diferentes. Esse júri escolheu aquelas que considerou ser as três melhores para a nomeação. E ainda para quem desconhece o que se faz pelo mundo, mas cuja obrigação é informar-se antes de dizer determinadas coisas, nós estávamos a concorrer com dois países que têm uma indústria no ramo. A indústria audiovisual argentina é fortíssima e a filipina está em crescimento aceleradíssimo. Basta ir a uma feira internacional sobre televisão para ver o potencial destas indústrias.

Feito este parêntesis, a vitória teve o destaque que teve na imprensa portuguesa. Teve aquele que os jornalistas acharam que deveria ter. Infelizmente, neste país, ainda existe um pseudo intelectualismo, em que se critica tudo o que se conquista e sempre pelas piores razões. No entanto, o povo português valorizou e isso é o mais importante. E fico contente por saber que fez eco noutros países tão díspares, como a Áustria e a Rússia, onde foi bastante divulgada.

 

 

3, Desde quando é telenovelista?

AB: Comecei a escrever profissionalmente em 2003, com a novela Saber Amar, após ter ganho um concurso lançado pela então NBP, agora PLURAL, para a descoberta de novos talentos na área do guionismo. E, desde então, nunca mais parei.

4, O que fez até chegar a Meu Amor?

AB: Após ter ganho o concurso que referi na questão anterior, fui convidado para integrar a Casa da Criação, empresa que faz parte da PLURAL. E aí escrevi: Saber Amar, O Teu Olhar, Queridas Feras, Mistura Fina (um tremendo flop!, mas cujo processo de escrita me divertiu bastante), Mundo Meu, adaptei a série «Os Serranos» para Portugal a partir dum original espanhol, assumi os comandos da telenovela Dei-te Quase Tudo (quando o meu colega e amigo Tozé Martinho não pôde continuar a sua obra por uma série de questões), Doce Fugitiva, coordenei parte dos Morangos Com Açúcar – Série Verão IV, colaborei na formatação da Série V dos Morangos, dei uma mãozinha ao meu colega e amigo Manuel Arouca na novela Tu e Eu, até que surgiu o primeiro grande desafio – o meu lançamento como autor titular na novela Fascínios, que foi um grande sucesso. Escrevi, em seguida, com a Maria João Mira e o André Ramalho a novela Flor do Mar, passada na Ilha da Madeira, que me deu um gozo tremendo. Por razões de escalonamento, tive que abandonar o projecto a cerca de trinta episódios do fim, para começar a escrever Meu Amor, já que uma iria substituir a outra.

5, Antes de começar na profissão especializou-se como? Fez cursos, viu telenovelas brasileiras?

AB: Comigo aconteceu uma coisa que considero estranha e rara. Aos 13 anos, eu decidi que queria escrever novelas. Na altura passava a novela Roque Santeiro em Portugal, da qual o Aguinaldo é co-autor, e eu adorava a sensação de poder manobrar a vida de todos aqueles personagens. Aos 13 anos, nós queremos ser tudo, menos autores de novelas. Muito menos quando não existe uma indústria audiovisual, porque, nessa altura, não existia em Portugal. Mas fui atrás do meu sonho. A partir dessa altura, passei a ler tudo o que tivesse a ver com a escrita de guiões para televisão, a ver muita televisão e, sim, muitas novelas brasileiras. Prossegui naturalmente os meus estudos, licenciei-me em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, mas sempre com este sonho em mente. Fiz workshops sobre escrita, frequentei cursos de guionismo, enviei várias propostas para produtoras, levei com muitos «Não!» na cara, mas nunca desisti. Sabia, cá no íntimo, que a minha oportunidade havia de chegar e chegou. Felizmente para mim, que faço o que gosto e ainda me pagam para isso.

6, Dentre as brasileiras, poderia citar as suas favoritas?

AB:Tenho muitas, mas vou citar algumas, acabando com a minha preferida. Gosto de quase todas do Manoel Carlos, com destaque para Por Amor; Roque Santeiro, Tieta, A Indomada (deliciosa e inspirada!), Selva de Pedra (só o remake, embora tenha muita pena de não ter visto o original com a magistral interpretação de Dina Sfat), O Clone, Celebridade, Senhora do Destino, Cambalacho, A Próxima Vítima e poderia enumerar mais algumas. Mas a minha preferida de todas chama-se Vale Tudo, cujo sucesso é injustamente creditado só ao Gilberto Braga, quando a novela é uma co-autoria do já citado Gilberto com o Aguinaldo Silva e a falecida Leonor Bassères. Vale Tudo é uma obra intemporal. Já passaram mais de vinte anos sobre a sua realização e continua actualíssima. Parabéns por esse grande marco na ficção brasileira.

7, Os autores de telenovelas em Portugal não têm o mesmo prestígio que no Brasil. Levando em conta que o autor é o único senhor dos destinos da novela, não acha que já está na hora de mudar isso?

AB: Eu costumo dizer várias vezes que, sem texto, não há obra. A autoria é o ponto de partida de tudo, embora, em Portugal, os autores não tenham o devido destaque que têm no Brasil, por exemplo. Creio que é hora de mudar mentalidades sim e, aos poucos, elas estão a mudar. É claro que o autor não faz a obra sozinho. Precisa de co-autores, actores, realizadores, toda uma equipa técnica, para que a obra seja posta de pé. Mas, no princípio, era o verbo… E volto a referir que, sem a palavra, a ideia e o conceito, a obra nem sequer começa. Vamos ver em que sentido a valorização dos autores irá evoluir em Portugal. Agora nota-se mais reconhecimento do que há uns tempos atrás, em que o autor era como que uma entidade fantasma, como se não existisse. Era como se os textos aparecessem por obra e graça do divino Espírito Santo.

8, Já pensou em trabalhar no Brasil? Se fosse chamado, para que horário gostaria de escrever?

AB:Trabalhar no Brasil e, mais concretamente na Globo, foi um sonho que já ousei sonhar, ao contrário do Emmy. Aliás, foi o começo do meu sonho de escrita, porque, como já referi, não existia uma indústria audiovisual em Portugal. Não descartaria essa hipótese, se houvesse uma boa proposta. No que concerne ao horário, julgo que o sonho de qualquer autor no Brasil é escrever para o tradicional horário das 8 (embora comece às 9!), até porque sou adepto de histórias mais fortes e pesadas. Mas, de modo algum, me sentiria rebaixado se escrevesse para o horário das 6 ou das 7. Tratando-se duma televisão como a TV Globo, a quarta maior estação do mundo, qualquer dos horários é bom. Até porque podemos comprovar que investem de modo forte em qualquer horário de teledramaturgia.

9, O fato de ser um autor “emmyrizado”, mudou alguma coisa no seu modo de encarar a profissão?

AB: De maneira nenhuma. Sou o mesmo António antes e depois do Emmy. Continuo a olhar com muita humildade e respeito para aquilo que faço. Acima de tudo porque não existe uma fórmula de sucesso. E o nosso juiz é o público, que é composto por milhões de pessoas. Isso só me faz sentir pequeno diante de tanta gente a quem quero que a minha obra agrade. E aproveito este ponto para fazer uma homenagem aos meus companheiros e parceiros de escrita, co-autores como devem ser chamados, colegas maravilhosos e amigos para a vida: André Ramalho, Elisabete Moreira, Mariana Alvim, Sara Simões e Lúcia Feitosa. Que voltemos a trabalhar juntos brevemente!

10, Já está com algum trabalho em vista?

AB: Estou a preparar a minha próxima novela para a TVI, que deverá estrear no próximo ano. Mas sobre a mesma nem uma só palavra. Ainda é segredo de Estado!

11, Tem opinião formada sobre a resistência dos produtores de novela portugueses às histórias rurais?

AB: Talvez não seja propriamente resistência. Temos neste momento no ar, da autoria da minha colega e amiga Sandra Santos, Espírito Indomável, que é uma novela rural e com um sucesso tremendo. Como costumam dizer, «está na boca do povo». Se calhar, podem pensar que os dramas urbanos, pela heterogeneidade de população que existe nas grandes cidades, possam ser mais transversais. Mas pessoalmente não concordo. Uma boa história, passada numa metrópole ou num lugarejo, é sempre uma boa história. Desde que fale de pessoas interessantes nós temos interesse em seguir a vida dessas pessoas.

12, E quanto à entrada cada vez maior de brasileiros no ramo aqui em Portugal: o que você pensa?

AB: Eu sou totalmente a favor da entrada de pessoas experientes e com know-how sejam elas de que nacionalidade forem. O que importa é que venha gente talentosa, cheia de garra e força, com vontade de fazer mais e melhor. Jamais me esquecerei que um dos grandes impulsionadores da minha estreia a solo foi o meu amigo André Cerqueira, que é brasileiro como toda a gente sabe. Nada contra pessoas doutras nacionalidades, desde que venham com vontade de trabalharmos todos juntos, sem imposições ou sobranceria.

13, Se eu lhe perguntasse qual a melhor novela portuguesa de todos os tempos você responderia?

AB: Claro que respondo. Esta opinião é muito subjectiva, mas é a minha. Essa novela chama-se Ilha dos Amores e é da autoria da Maria João Mira, que, na minha opinião, considero a melhor autora de novelas em Portugal.

(agradeço, desde já, esta entrevista efectuada por um autor e colega de profissão que muito admiro desde criança. Obrigado. António Barreira)